14/11/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 30/05/2018
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Um Siza com pouco siso

Se Siza Vieira não fosse do governo da geringonça já tinha sido apeado, depois da falta de bom senso que mostrou ou da ilegalidade que praticou

1. Pedro Siza Vieira foi chamado ao governo por ser amigo do primeiro-ministro e um instrumento para lhe resolver fundamentalmente assuntos económicos, pois Caldeira Cabral é atadinho, simpático, sério, mas menos eficaz. Siza Vieira é outro Lacerda Machado que Costa tirou da cartola. Só que desta vez espetou com ele no governo. Tal como Lacerda, Siza tinha uma vida de profissional de sucesso. Mas não podia repetir-se a situação que houve com Lacerda, o qual aparecia, tipo espontâneo, com o cartão-de-visita de amigo do primeiro-ministro a fim de negociar em nome do Estado. A coisa quase deu escândalo e não podia repetir-se. Só que agora foi ainda pior. Siza deu mostras de ter pouco siso ao tratar no governo de assuntos aos quais esteve ligado pouco tempo antes, na advocacia de negócios. Pior ainda: fundou inexplicavelmente uma empresa na véspera de tomar posse, o que pode indiciar que pretendia esconder património. Tudo situações incompatíveis. Se Siza fosse membro de um governo PSD/CDS ou dirigente de um desses partidos já teria sido defenestrado pelos seus próprios correligionários. Mas, assim, é de apostar dobrado contra singelo que vai ficar de pedra e cal, por muito que o Ministério Público faça “não sei quê” e o Tribunal Constitucional diga “não sei quantos”. Siza ficará, tal como Lacerda Machado está hoje na TAP e em mais uma série de sítios, fazendo a mesma vida. Uns comem os figos, a outros rebenta--lhes a boca, como se viu com Barreiras Duarte. Seja como for, esta é mais uma trapalhada de um governo que tem boa imprensa.

2. Por falar em trapalhada, eis que o inimitável Santana Lopes mandou uma carta a Rui Rio e cópia a um jornal a anunciar que deixa o conselho nacional do PSD para o qual foi eleito numa lista de unidade e como número um. Santana, que uma semana antes era falado para presidente da assembleia--geral do Sporting e está na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva aparentemente sem regalias, alegou que não vai ter tempo para o conselho nacional, um órgão que se reúne quando o rei faz anos. Mesmo assim, ficou com um pé no conselho por via do lugar de inerência que tem enquanto ex-líder. Dito de outro modo, deixa de ter ligação umbilical a Rio e está à vontade para fazer uns números, sobretudo quando houver disputa de lugares. Há em Santana uma falta de maturidade, de coerência e de rigor político sistemática. Tanto se põe em bicos de pés como se envolve, abandona e estraga. Apesar de ser uma pessoa carismática, inteligente e que pensa bem, é incapaz de levar projetos até ao fim. Faz lembrar Ronaldo, que amua quando não é o dono da bola. Só que Ronaldo é um miúdo com metade da idade dele mas que sabe reconhecer quando exagera, como aconteceu ainda agora, depois da sua quinta vitória na Champions.

3. O congresso socialista foi, como previsto, um mero palco para António Costa e um ou dois aspirantes a sucessores, nomeadamente Pedro Nuno Santos, apenas ultrapassado em popularidade pelo líder e pela eficaz Ana Catarina Mendes, um pilar do partido. A magna reunião foi também a prova de que há no PS uma aristocracia em que os filhos e filhas de ilustres ilustres se tornam, numa espécie de sucessão dinástica. É comovente ver tantos familiares em lugares do partido ou da nação. Até talvez por essa circunstância distributiva, Costa esteve em grande. Anunciou que quer ganhar a Madeira, o que é – diga-se – uma forte probabilidade. Como governante, prometeu em tom comicieiro uma data de coisas que nunca irá cumprir. Não falou dos seus parceiros da geringonça simplesmente porque procura o maior espaço para si e para o PS, se possível até uma maioria absoluta. Pragmaticamente, Costa sabe que não pode apelar à união da esquerda porque perde o centro moderado, que quer estabilidade e sossego. Não pode abrir à direita porque, aí, o PCP zarpa de vez e o Bloco não tem poder de mobilização social, embora conte muito em influência política e votos. Assim sendo, Costa geriu delegados e jornalistas, mostrando um otimismo digno da Suécia quando, na verdade, Portugal está cada vez mais para o fundo da União Europeia, apesar de ter crescido. E pior ficará depois do Brexit, devido à diminuição do orçamento comunitário e se, como está à vista, não conseguirmos trazer algumas grandes empresas e atividades.

4. Costumava dizer-se que melhor do que ser ministro era ter sido ministro, o que abria muitas portas. Mas, hoje em dia, já não é bem assim. Também é muito bom ter sido secretário-geral da UGT. João Proença, um engenheiro ex--quadro do Banco Espírito Santo, não tem parança. Ele é, que se saiba, AICEP, ele é Altice, ele é ADSE, no Conselho de Supervisão que basicamente serve para encaixar malta dos sindicatos como Ana Avoila e Eugénio Rosa, uma criatura na flor da idade. Há quem admita que Proença possa ser também um protagonista na próxima batalha pelo controlo da associação mutualista do Montepio, sendo igualmente influente no Sporting. António Vitorino e Luís Amado, ilustres socialistas arrebatadores de lugares, que se cuidem.

Jornalista

 

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