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O teatro como escultura, por Gustavo Ciríaco

O teatro como escultura, por Gustavo Ciríaco

Vera Marmelo Cláudia Sobral 29/05/2018 20:43

“Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos” até quinta-feira em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, marca o regresso do brasileiro Gustavo Ciríaco ao festival Alkantara. Com o teatro como objeto, para tantos pontos de vista quantos forem possíveis

 

Cortado e aberto é o teatro, edifício, que Gustavo Ciríaco nos vem propor que olhemos de novos pontos de vista, todos quantos forem possíveis ao longo de 75 minutos. Mas não só aqui, todos os dias. Não só o teatro-edifício, também. Todo o teatro. Para isso iremos ao início, não deste espetáculo que até quinta-feira apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, com o grupo de atores com que viaja por todos, mais dez que fazem parte deste em específico. Ao início do teatro também, de todo o teatro, numa palavra: “theatron”, do grego, e a sua origem. “Na origem, ‘theatron’, do grego, é o ponto de onde se vê, o lugar de onde se vê algo acontecer”, lembra o encenador. “O teatro nasce com a instauração de um ponto de vista de alguém que vê algo acontecer.”

A este espetáculo chamou “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos” que traz ao Alkantara na edição em que o festival completa 25 anos - o mesmo festival que o trouxe o brasileiro para Portugal já lá vão 12 - quase como descrição da interseção de linhas e planos que formam o edifício, perseguindo a ideia de tomar o edifício como escultura. “Assim como numa escultura a gente busca a fruição através do deslocamento, porque nos incita a circundá-la, a olhar de cima e de baixo, veio uma vontade de pegar o teatro e pensar: se o teatro fosse uma escultura, como é que eu a descreveria? Pensar o teatro como uma escultura para mim estava ligado a reinstaurar esse ponto de vista.” O ponto de vista com que os gregos o criaram.

Olhemos para este edifício, desafia-nos Gustavo Ciríaco, conversa noite adentro depois e um último ensaio, já com público, na varanda do Nacional, onde ele e o grupo de 14 atores que compõem o elenco nos levarão uma ou duas vezes ao longo de 75 minutos em que caberão corredores, escadas de incêndio, casas de banho, escritórios, camarins, salas de costura ou de cenografia, o átrio da entrada e entradas pelas portas da frente, para o Rossio, as que nunca se abrem, todo o teatro - ou todo, exceto o palco, que encontraremos tapado quando dermos por nós na Sala Garrett, mas de visita, que será outro o palco aqui. Será tudo. Dentro, fora, em cima e em baixo, dos lados, os dois lados, e para atores estão cá estes 14 - os fixos do espetáculo, os fixos deste teatro mais os seus seis estagiários da Escola Superior de Teatro e Cinema, também ele, Gustavo, sempre presente - mas estaremos também nós. O público que fará parte dele, teatro-espetáculo e teatro-edifício, ou fará se quiser. 

Corredores e um aniversário Cedo compreenderemos a analogia com a escultura que usa para explicar  “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”. Mas escultura fora do museu, escultura em que se pode tocar para se fazer parte. “Há um componente político aqui, que está bem subtil, mas que vem de pensar os teatros estão rodeados, tangenciados, pela vida que corre, de diversas formas, e que apesar disso cada vez é mais difícil o contacto com o exterior, com o público que passa. Das pessoas que estão ali [aponta para a rua], quantas delas vieram aqui dentro? Os teatros estão historicamente ligados ao centro da cidade, ao centro da vida social, então o que quero com este projeto é abrir, repensar o teatro, reinstaurar as mil possibilidades do teatro, e pensá-lo não só no sentido do que existe dentro mas pensar o dentro e fora.”

Conta Gustavo Ciríaco que durante o processo de criação deste projeto, que envolveu vários períodos de residência, em vários teatros, Norte a Sul e ainda São Miguel, nos Açores, fez uma série de entrevistas a artistas e a trabalhadores dos teatros. “Entrevistei o João Fiadeiro, o Miguel Pereira, o cara da bilheteira, a senhora da limpeza, a moça da portaria, o diretor, a Cristina Vidal [ponto do Teatro Nacional que protagonizou ‘Sopro’, de Tiago Rodrigues], fiz-lhes várias perguntas, uma delas sobre qual foi a primeira experiência de teatro que tiveram, e a experiência que mais os marcou.”

A partir das respostas, foi ganhando forma uma espécie de mapa para este espetáculo. “Tivemos uma série de respostas que nos nortearam em relação a que ações poderiam despertar no espectador memórias. Não memórias como lembranças, memórias como reatualizações.” Por exemplo: “Um ator que está falando e de repente olha para você e fala o texto para você, a essa distância”, diz, aproximando-se de nós. “O que é que isso gera no espectador? O que é receber essa frase de uma atriz que, de repente, olha para você e fala?”

Bem mais do que isso acontecerá em “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”. Inesperado, sempre, por vezes contemplativo, outras claustrofóbico, outras interventivo, com o espaço, com o público, numa série de episódios, momentos, a percorrer corredores, salas, espaços abertos ou fechados. Lugar para dançar, ver dançar, cantar, ouvir Carla Gomes ou ter mesmo que cantar - como num aniversário. Se em início ou em fim de festa, dependerá da perspetiva. Cumprida será a promessa inicial de que haverá teatro, haverá atores e que, dobrada a esquina, à espera haverá uma nova cena. É ouvir Carla Gomes, logo no início, cantar “soon it will be over, let’s gonna make it worth”. 

E ir. 

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