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Mário Cordeiro 29/05/2018
Mário Cordeiro

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Uma visita obrigatória

A escassez de leitores, a diminuição das edições e os meandros do sistema editorial e distribuidor levam a que o preço dos livros aumente, o que, por sua vez, os torna mais inacessíveis aos potenciais leitores

No sábado passado fui dar uma volta pela Feira do Livro, um hábito que tenho desde os meus dez anos de idade e que cumpro religiosamente.

Gosto de ir à feira, de ver os stands, de ver e cheirar os livros, de percorrer aquelas avenidas e fruir o espetáculo de livros, livros e mais livros, arranjando alguns a preços francamente generosos, descobrindo outros que desconhecia ou que julgava estarem extintos, e aproveitar para, com os jacarandás a mostrar que o verão vem aí, sentar-me a tomar uma bebida ou a comer um gelado ou uma refeição, e folhear os livros já comprados. A azáfama da feira é um estímulo para quem, como eu, vive os livros e a literatura de uma forma brutalmente intensa.

Não estava muita gente, dado ser hora do almoço, e também a feira ter aberto portas há dois dias e o tempo estar de trovoada – não me recordo, aliás, de uma feira sem um dia de chuvadas e vários de canícula.

Ao sentar-me com os meus filhos adolescentes, que quiseram acompanhar-nos à feira, cogitei: os adolescentes leem ou não? São uma cambada de analfabetos ou uma geração de intelectuais? Muito provavelmente, nem uma coisa nem outra, já que cada adolescente, tal como as outras pessoas todas, terá padrões e escolhas de leitura que podem ir do zero ao cem, do pior ao melhor (com o que esta definição tem de subjetivo), com variados graus de frequência e de empenhamento. Esta discussão não pode partir de um equívoco de base: não é cientificamente correto nem mesmo possível rotular uma geração inteira, seja ela qual for e seja o epíteto qual for.

De qualquer maneira, ouve-se muito dizer que os jovens cada vez leem menos. Mas... será que as coisas são realmente assim? Poderemos comparar hábitos de leitura de gerações diferentes, com graus de escolarização muito diversos, com tecnologias e suportes que não existiam anteriormente? Quando dizemos que “se lia muito antigamente”, quem é que lia? A meia dúzia de pessoas que tinham acesso à alfabetização e aos estudos, já que a larguíssima maioria dos portugueses nem sequer completavam a escola primária? Os universitários (e quantos eram, como eram?)? Não passará a própria definição de ler pela necessidade de uma revisão? O que é ler, afinal? É descodificar uns carateres, como os que estão neste momento a desfilar no ecrã do meu computador e que sairão impressos no i para vossa “leitura”? E os livros só de imagens, não transmitem eles próprios histórias, contos, tradições, vivências? Isso não será ler?

Quanto à informação não escrita, via televisão, via internet, via qualquer coisa semelhante, não permitirá ela a ampliação dos saberes e dos conhecimentos? Não é ela descodificada, interpretada, analisada e digerida? Não será isso “ler”?

“Ler livros” Restrinjamos agora o conceito de ler ao dos livros tradicionais – romances, contos, poesia.

Em primeiro lugar, que fique assente uma coisa: os pais de adolescentes atuais não pertencem, eles próprios, a uma geração em que a maioria das pessoas tem hábitos de leitura acentuados, se pensarmos “neste” tipo de leitura. A falta de tempo, o cansaço, a falta de disponibilidade a vários níveis, outras diversões e distrações que exigem menos das células cinzentas (como a televisão e a internet), a profusão de jornais, revistas e magazines online e mais outras tantas razões – como, pura e simplesmente, as pessoas não terem desen-volvido esse hábito – fazem com que os pais provavelmente leiam menos livros, e daí que as suas crianças também não adquiram o hábito de ler. 

O livro na sociedade A própria sociedade parece voltar um pouco as costas aos livros deste tipo. Compram-se menos, oferecem-se menos, usam-se menos. A escassez de leitores, a diminuição das edições e os meandros do sistema editorial e distribuidor levam a que o preço dos livros aumente, o que, por sua vez, os torna mais inacessíveis aos potenciais leitores. Por outro lado, o preço da armazenagem e do espaço de exibição é tal que os livros nem aquecem as prateleiras, salvo os suspeitos do costume. Não sendo vistos, não são comprados e, portanto, não são lidos, dificultando a vida a editores e autores. Vingam uns (geralmente os mesmos) e a maioria sucumbe. É pena. Numa sociedade que exige tudo à la minute, que usa e deita fora as coisas quase sem as saborear, claro que os livros, como símbolo da calma, do tempo gerido, do poder de voltar atrás e (re)saborear certas passagens, enfim, como sinónimos de um determinado ritmo de vida, não poderiam estar na moda. É impossível uma página escrita competir com um ecrã de televisão ou de computador. É utopia querer que o ritmo de um romance combata de igual para igual a ação de um filme ou de uma série televisiva. A questão é, no entanto, com qual destes ritmos nos identificaremos mais enquanto seres humanos.

Na própria escola utilizam-se crescentemente manuais e processos de ensino user-friendly, interativos, recheados de figuras, desenhos e fotografias, reduzindo o texto quase a zero. Compreende-se do ponto de vista didático e pedagógico. Talvez seja mau, no sentido de estimular a leitura.

Um grande equívoco é pensar que os livros pertencem ao passado, estabelecendo um paralelismo com o caso de uma máquina de escrever e um teclado de computador: é a visão do livro como um produto pré-histórico que teve muita utilidade, mas que foi ultrapassado por meios mais novos.

Ora, ler é interpretar sinais de vários tipos que transmitem pensamentos, ideias, vivências, histórias de pessoas para pessoas, reflexões e motivos para reflexão, hipóteses de ampliar horizontes e de aperfeiçoamento individual e coletivo.
Para lá da leitura para obter informação há o livro como passaporte para descanso psicológico, para criar um espaço de abstração, fascínio e estimulação intelectual.

Um livro representa a memória, escrita através de um processo inteligente e profundamente humano, no que tem de descritivo, criativo, aventura, mistério, esforço de imaginação e de abstração, enfim, no modo como exprime os processos mentais da nossa espécie e dos quais podemos orgulhar-nos. É pena se isto for considerado incómodo. É pena se o processo de deslindar o enredo, de imaginar as personagens, cenários e a ação for visto como uma extrema maçadoria, um atentado às nossas células cinzentas. É preocupante se a realidade virtual não deixar lugar para as funções mais imaginativas do cérebro humano.

Algo está a falhar na educação, nas famílias, nas sociedades, no que se refere aos livros e ao ler, mas é altura de invertermos a situação, não baixando os braços, estimulando a leitura, controlando os hábitos televisivos e de ecrãs, e de dar o exemplo.

Um bom exemplo será ir à Feira do Livro, seja a de Lisboa, seja a de qualquer outra cidade, porque hoje praticamente há feiras em todo o lado, e, não havendo feiras, há livrarias e outras formas de cheirar, pegar, tocar, folhear e estabelecer uma amizade intensa e imensa com os livros.

Pediatra
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