19/9/18
 
 
Luís Menezes Leitão 29/05/2018
Luís Menezes Leitão

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O congresso do PS

Deslumbrado com a forma como Costa dominou o congresso, um jornal chamou-lhe "o grande sintetizador", já que faz a síntese "entre os que puxam para a esquerda e os que descaem para a direita". Um sintetizador é um instrumento musical electrónico que produz sons artificiais em lugar de gravar sons naturais. E, de facto, neste congresso do PS, António Costa pretendeu dar música aos militantes, mas a mesma soou a artificial

O congresso é, por definição, o órgão máximo de um partido, cujas reuniões devem constituir uma demonstração da vitalidade desse mesmo partido. Seria, por isso, normal que as diversas sensibilidades do partido aproveitassem o congresso para expor as suas posições e testar a sua representatividade entre os militantes, indo naturalmente a votos. Em Portugal, isso, porém, não sucede. Os congressos são quase sempre uma mera manifestação de apoio ao líder em funções, ficando os candidatos a líder a guardar-se para o futuro, aguardando que o mesmo caia em desgraça.

Sucedeu agora precisamente isso no congresso do PS, que consagrou uma vitória retumbante de António Costa. Contra ele apenas se apresentou o entertainer habitual, Daniel Adrião, seguramente já a merecer uma condecoração no 10 de Junho, tantas as vezes que se apresentou a votos para não haver uma candidatura única neste PS cada vez mais albanês. Na sombra ficaram os candidatos assumidos a sucessores de Costa, como Fernando Medina, Ana Catarina Mendes e Pedro Nuno Santos. Como não quiseram assumir-se como candidatos, restou-lhe disputar o campeonato das palmas para as suas intervenções, tendo nesse campeonato levado a melhor Pedro Nuno Santos, seguramente porque tinha uma claque mais bem preparada. Tal bastou, no entanto, para que, tomando a nuvem por Juno, alguém viesse logo dizer que o futuro do PS era o “pedronunismo”. Há, portanto, quem julgue que pôr as pernas a tremer aos banqueiros alemães é um projecto de futuro no PS. 

É, porém, evidente que os outros candidatos não se vão render e também já se posicionaram para o futuro. Ana Catarina Mendes foi imediatamente colocada em primeiro lugar na lista para a comissão política e Fernando Medina, bastante apagado devido ao desastre da sua governação em Lisboa, beneficia de um comentário político semanal na televisão para permanecer na corrida. Se alguém julga que o pedronunismo são favas contadas, que se desengane.

No mais, o congresso do PS teve os discursos folclóricos do costume. Helena Roseta voltou mais uma vez com a propaganda da sua lei gonçalvista, que pretende tirar às casas às pessoas, enquanto Constança Urbano de Sousa acha que vivemos numa crise demográfica e que é preciso mais imigração. Tudo isto vai acabar com o PS a tirar as casas aos emigrantes para as dar aos imigrantes.

Quanto aos temas críticos, foram convenientemente silenciados. Sócrates passou a ser um líder do passado que hoje ninguém sabe onde se encontra ou o que faz. E Ana Gomes fez o seu habitual discurso demolidor, a que mais uma vez ninguém ligou nenhuma. Pelos vistos, faria melhor em imitar Santo António e ir fazer um sermão aos peixes, já que os congressistas do PS não a ouvem. Eles preferem louvar Costa e a sua geringonça. Até Assis, um crítico inicial, a ela aderiu, declarando por isso: “Não estou indisponível para as europeias.” Ainda bem que entre os militantes do PS não há indisponibilidade para o enorme sacrifício de ir para o Parlamento Europeu.

Deslumbrado com a forma como Costa dominou o congresso, um jornal chamou-lhe “o grande sintetizador”, já que faz a síntese “entre os que puxam para a esquerda e os que descaem para a direita”. Um sintetizador é um instrumento musical electrónico que produz sons artificiais em lugar de gravar sons naturais. E, de facto, neste congresso do PS, António Costa pretendeu dar música aos militantes, mas a mesma soou a artificial.

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