23/9/18
 
 
José Cabrita Saraiva 28/05/2018
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Eutanásia: nem todos têm vocação para o martírio

Mas obrigarmos, enquanto sociedade, um paciente terminal a beber até ao fim o cálice amargo do sofrimento, quando já não tem qualquer horizonte de melhora ou de alegria, parece-me cruel.

Há poucos dias um amigo perguntava-me de chofre: “És a favor ou contra a eutanásia?” Tive alguma dificuldade em responder-lhe. Como poderia dizer-lhe que era a favor de uma prática tão perturbadora? Obviamente não me agrada nada a ideia de se matar pessoas… “Então és contra”, concluiu. Sim, claro que sou contra. Frontalmente contra.

E, no entanto, reconheço que há casos tão dramáticos que nos obrigam a ponderar se deve ou não ser permitido a uma pessoa pedir a outra que a ajude a pôr fim à sua vida.

Em termos abstratos, de princípio, concordo inteiramente com todos aqueles que dizem que a vida é inviolável, ponto final. Mas, num segundo momento, parece-me evidente que não é de ânimo leve que alguém vai “encomendar” a sua morte. Quando um ser humano se encontra numa situação tão difícil de suportar, tão desesperada, tão sem saída, que encara a chegada da morte como uma libertação e um alívio, quem somos nós para considerar que esse ato constitui um crime?

Ao contrário de muitos outros, não creio sequer que se trate de uma questão de dignidade - um substantivo que, aliás, tem sido usado e abusado (há quem reclame, por exemplo, salários “dignos”, mas conheço muita gente pobre que vive com mais dignidade do que outros que nadam em dinheiro...).

Uma morte num acidente de automóvel é “digna”? Uma morte de ataque cardíaco no meio da rua é “digna”? E uma morte provocada por um incêndio florestal?

A principal questão não é, pois, de dignidade: é se temos ou não o direito de encurtar uma existência. Se está mais errado 1) aplicar uma injeção letal e assim pôr em causa o valor sagrado da vida humana ou 2) prolongar o sofrimento de um doente cuja única perspetiva é decair até ao último suspiro. Pela minha parte, nenhuma das ideias me agrada - por isso é que estamos perante um dilema moral.

Mas obrigarmos, enquanto sociedade, um paciente terminal a beber até ao fim o cálice amargo do sofrimento, quando já não tem qualquer horizonte de melhora ou de alegria, parece-me cruel. Quem desejar aguardar a chegada natural da morte deve poder fazê-lo, com certeza. Cristo não se furtou a passar por cada uma das estações da Via Sacra. Mas fê-lo de livre vontade.

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