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Júlio Pomar. O pintor que ia buscar o pigmento das suas cores à poesia

Júlio Pomar. O pintor que ia buscar o pigmento das suas cores à poesia

Jorge Martins Diogo Vaz Pinto 22/05/2018 20:01

De Pomar se pode dizer que qualquer biografia que venha a fazer-lhe justiça deverá quebrar-se em versos, usando essa fractura e a carne exposta dos sentidos de modo a equilibrar a força das imagens e a graça de uma luz que sempre descobriu para o mundo esse ângulo em que se despe de todo o cansaço.

Foi tantas vezes um cúmplice dos poetas, e algumas vezes não se ficou pelos resíduos que montam visualmente o assombro do mundo, mas tomou o corpo da língua pelos cornos, provou que a educação do seu olhar o libertava para essa renovação, essa perversidade que sabe coser e descoser com todos os materiais, fossem estes mais físicos, ou apenas signos traficando (im)probabilidades etéreas. Tem um longo poema de que não há modo de nos cansarmos. Um exemplo para sempre vivo dessa astúcia que um olhar desprendido consegue, provocando as desordens maravilhosas para as quais não temos outra classificação senão 'poesia'. "TRATAdoDITOeFEITO", foi o título que lhe deu, e veja-se este exemplo de apuro, este tu-cá-tu-lá com as imagens, fosse representando-as, fosse citando de memória:

"Todo o canteiro conta
que ouve a pedra. Eu ouço
a palavra, tiro-lhe o vulto, tomo o seu peso
lembrado do que nela entronca ou do que dela se desprende.
Ao descascar a polpa túrgida
de mil sentidos, provado ou não ainda o fruto apetecido, nascem
memórias, ecoam madrugadas, sucedem-se
lembranças cuja carga declarada
não corresponde ou só em parte ao que vinha
à vista."

Algumas vezes emparceirou com os poetas-poetas este poeta-pintor. Ilustrou-lhes os devaneios, sendo tão fiel ao desarrumo dos sentidos, pois não o seguia ao longe mas de perto. É o caso de 'O Cristo Cigano ou A Lenda do Cristo Cachorro', de Sophia de Mello Breyner Andresen, na belíssima edição da Minotauro, publicada em 1961. De outra vezes, pintou o retrato ao poeta, como fez "juntando virtuosismo, arte, amizade, rasgada generosidade e empenhamento 'acelerado'" no caso de Vasco Graça Moura. E este não pôde fazer outra coisa senão agradecer-lho publicamente, lembrando-se da mesma observação que António Ferro fez, a propósito do retrato a lápis que Mário Eloy dele fizera. Que o desenho o ajudava a conhecer-se melhor, foi o que disse Ferro, e Graça Moura, falando do seu retrato, acrescentou: "Nos seus cinzentos e nas suas velaturas, no modelado da face acentuado aqui e ali por uma espécie de chiaroscuro, este quadro de Pomar põe-me precisamente a questão de como pode ajudar-me a conhecer-me melhor, agora, numa época mais tardia da vida, em que flashbacks e retrospectivas autobiográficas são muito mais frequentes e vindos do íntimo da idade madura, encontrando-se mais do que ultrapassada a rimbaldiana oisive jeunesse."

O erudito e tão hábil bardo na hora de cutucar a Musa, revelou igual desembaraço na de celebrar a amizade com o pintor, e naquela crónica que escreveu no "Diário de Notícias" (a 5 de Fevereiro de 2014), acrescentou o seguinte: "Por mais de uma vez tive ocasião de escrever sobre a pintura de Pomar, com a sensação de que há sempre nela qualquer coisa de irredutível a outros meios de expressão. É esse o mistério da arte. Tudo o que consigo dizer é que a compenetração com que Júlio Pomar trabalhou na interpretação que propôs neste seu retrato baseou-se certamente em longo conhecimento e amizade recíprocos, numa convivialidade entre pintor e modelo que leva a essas intuições."

O poeta tão treinado na ecfrase, criava assim um feixe de reflexos, como se colocasse um espelho em frente a outro, abraçando o amigo, e servindo-se do seu retrato para retratar em palavras Júlio Pomar. E, entre os dois, outro traço se salientava assim. A mágica repercussão das influências que sempre assumiram, o gosto ao servirem-se de altos  (e baixos) exemplos. Numa entrevista que concedeu ao "Expresso" no ano passado, Pomar falava da sua arte usando a figura do canibal: "Há pintores que têm medo de se influenciar, eu não, nunca senti isso. Acho que sou mesmo um bocado canibal." E explicava melhor em que sentido era importante para alimentar e calibrar os seus impulsos esta tão devedora e devoradora competência: "Paro quando deixo de encontrar matéria que seja transformável. Até encontrar matéria com a qual sinta uma afinidade e sinta necessidade de a absorver, de a transformar e de me transformar, continuo. Isso é que faz o contacto e a vida em comum com o quadro, o desenho e o livro."

E é curioso como talvez não haja outra descrição mais fiel e impressiva da sua arte, do seu processo criativo, como aquele que ele registou noutro dos poemas daquele ciclo que atrás mencionámos:

"A mão é a vulva entreabrindo-se ao ser penetrada pelo mundo
os dedos são o falo tacteando os tépidos lábios que o recebem.

A mão ao acordar só quer e pensa
voltar lá onde a obra a espera
e nela se quadra. Esta é
a maneira do real
entrar no mundo: os contrários copulam
entre si. Não há sombra
de um messias qualquer no horizonte."

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