16/11/18
 
 
Alexandra Duarte 21/05/2018
Alexandra Duarte

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As línguas de serpente que andam por aí

O ataque gratuito e pessoal a alguém com quem conviveu, dedicando-lhe afeto e intimidade, diz mais de Câncio do que propriamente o conteúdo da sua opinião. A forma como o fez sobrepõe-se à substância

É oficial! Se dúvidas houvesse, confirma--se com todo o rigor exigido às provas científicas que Portugal é um país de pessoas cujo desporto preferido é maldizer e escarnecer. Porque não basta maldizer. Não, isso não é suficiente. Para se pertencer a este clube pouco restrito é necessário reunir certos requisitos que, felizmente, nem todos nós podemos exibir, mas que, cobardemente, toleramos e até aplaudimos, tal e qual a inebriada assistência do espetáculo nas arenas romanas. Entre aqueles romanos que se levantavam e vociferavam com gritos de incitamento aos golpes desferidos em escravos criminosos e as pessoas dos dias de hoje não existe grande diferença. Mudou o palco, os mandantes e os executores são outros, e as vítimas têm outro perfil, mas a assistência, essa não sofreu grandes alterações. Somos nós, todos nós. Os que calamos a nossa indignação perante o abuso e o achincalhamento! E aqueles que, não tendo uma cartografia cognitiva própria, usurpam as palavras dos “opineiros” e fazem suas as palavras de outros, sem irem ao fundo das questões, tornando-se, assim, os responsáveis maiores por este sistema podre e mesquinho que vai alimentando a soberba de quem o promove.

Tudo é permitido. Bom… nem tudo. Na rua, não se pode sussurrar a uma mulher que “as flores andam” ou qualquer outro piropo mais pindérico; na escola, um professor não pode sequer soletrar a palavra b-u-r-r-o (e bem!) sem que seja chamado ao conselho diretivo a propósito de uma queixa parental; no parlamento criticamos o vocábulo inconveniente, repetido frequentemente por quem é eleito; e, ao mesmo tempo, ensinamos aos mais novos que certas palavras são feias, que não se podem usar despudoradamente, porque têm o seu peso e impacto sobre o próximo.

Pior do que as palavras, é o próprio gesto em si, ao assumir, com gáudio, comportamentos desta natureza: maldizer. Uma tendência que uma geração mais nova (deixo de fora os que sofrem da síndroma de Peter Pan) impôs nos meios de comunicação escritos, ao importar das redes sociais um vocabulário pouco próprio para aí o depositar depois, sob o olhar aquiescente dos mais experientes e apreciadores de outras condutas.

A crítica é sempre apaixonada quando não é filtrada. Filtramos os nossos sentimentos quando queremos falar de alguém, sendo que este cuidado deve ser acrescido se o fizermos publicamente. Na escrita, esta regra mantém-se, por uma questão de educação, de direitos individuais (que continuam a ser bastantes, mesmo que estejamos perante um sujeito-alvo que possa ter infringido as normas, ou demonstrado um comportamento eticamente reprovável) e até de estética moral e comportamental. Não encontro razões para justificar as palavras viscerais que recheiam certos artigos de opinião ou até mesmo artigos assinados por jornalistas. O “pessoalismo” das notícias e das opiniões virou moda. É muito mais fácil polemizar para obter seguidores, utilizando adjetivos qualificativos ofensivos, ou validar situações que carecem de comprovação do que emitir uma opinião crítica objetiva. Uma vez escrito, não se pode voltar atrás. Ficou registado.

Fernanda Câncio é um destes exemplos. Mas há muitos mais. O ataque gratuito e pessoal a alguém com quem conviveu, dedicando-lhe afeto e intimidade, diz mais dela do que propriamente do conteúdo da sua opinião. A forma como o fez sobrepõe-se sobremaneira à substância. As suas palavras não foram inéditas, já muitos o tinham escrito, mas vindo de alguém que teve a relação pessoal que teve com o sujeito, e do foro mais íntimo, chocou-me, por ser confirmação do desapego com que algumas pessoas são capazes de passar uma borracha pelas suas existências e amachucar o outro.

Não aplaudo uma palavra das que escreveu, como também não fico indiferente quando se visam pessoas, injuriosamente, por incapacidade própria de quem escreve de construir uma crítica analítica sem pessoalismos.

Este é, sem dúvida, o caminho mais fácil, como o seria para mim se tivesse aqui nomeado os que enchem o espaço público com as suas más palavras e, em cima e por cima de outros, constroem quem são e o que têm para dizer. Não estamos numa arena nem somos todos inimigos, nem mesmo quando criticamos. Mas deixamos de ser boas pessoas ao esquecermos as regras básicas da convivência e ao desconsiderarmos quem está do outro lado da mira. Bem que podiam criar o movimento #nãofalomalsóporquesim ou #euconsigonãofalarmal. Quem adere?

 

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