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As notas não fazem um bom médico

As notas não fazem um bom médico

DR Marta F. Reis 20/05/2018 12:30

Fiona Patterson estuda os desafios do recrutamento dos profissionais de saúde. Esteve em Portugal e deixa o aviso: o acesso ao superior baseado apenas em notas não garante valores chave nos cuidados de saúde, como a empatia ou o trabalho em equipa.   

Um médico sénior está a ter uma consulta com um doente e há um estudante a observar. O médico diz ao doente que precisa de fazer análises para excluir uma doença terminal. De repente, é chamado para uma urgência e o futuro médico fica sozinho no gabinete. O doente diz-lhe que tem medo de morrer e pergunta o que é que as análises ao sangue vão mostrar.

O cenário é fácil de imaginar e a ideia é pôr a pensar jovens candidatos a Medicina, mas também perceber as suas preocupações. É uma das provas desenhadas por Fiona Patterson para o exame UKCAT, um teste de apetência clínica que começou a ser usado por faculdades médicas do Reino Unido em 2006, mas que assentava sobretudo noutro tipo de análises cognitivas e não nestes dilemas práticos. A psicóloga, consultora em recrutamento de profissionais de saúde e investigadora em Cambridge, chama-lhe um ‘teste de juízo situacional’. A ideia é que os candidatos digam o quão apropriado seria, perante aquela situação, um conjunto de decisões: explicar ao doente que não podem dizer nada sobre as análises porque são só estudantes, sugerir-lhe que coloque as perguntas ao médico quando ele voltar, dizer-lhe para não se preocupar porque é pouco provável que vá morrer ou reconhecer as preocupações da pessoa que têm à sua frente e perguntar-lhe se gostaria que falassem disso com o médico. 

As leituras são várias, mas de uma coisa Fiona Patterson não tem dúvidas: num sistema de admissão às faculdades baseado apenas nas notas, as indicações sobre os valores e competências interpessoais dos candidatos que se poderiam obter com este tipo de testes passam completamente ao lado das instituições. E é assim ao longo do percurso formativo, até porque no caso do acesso à formação pós-graduada, por exemplo em Medicina, a maioria dos países pesa sobretudo classificações académicas dos candidatos. «Em última instância, se escolhermos as pessoas apenas com base nas notas, podemos estar a escolher pessoas que não serão bons médicos no futuro».

A especialista esteve este mês em Lisboa para uma conferência sobre inovação na força de trabalho em saúde, organizada pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa (IHMT-NOVA) e a intervenção gerou alguma curiosidade, mas para já não há nenhuma colaboração em curso. Ao SOL, Fiona Patterson começa por sublinhar que a tónica nas notas não é um problema exclusivo de Portugal, bem pelo contrário, ainda que haja países como o Reino Unido onde têm sido dado passos para mudar o paradigma. Lá, o debate nasceu muito da preocupação de alargar a base de acesso aos cursos na área da Saúde, nomeadamente Medicina, recorda. «No Reino Unido o debate tem sido perceber como é que as pessoas que não têm uma educação tão privilegiada conseguem ter a mesma oportunidade». Até porque há dados concretos que não têm sido escrutinados por cá. Um inquérito divulgado em 2016, com base em 33 mil candidatos às escolas médicas britânicas, revelou que os jovens provenientes de famílias com mais rendimentos tinham mais vezes lugar do que os das famílias pobres. Oito em cada dez era originário de famílias com profissões mais diferenciadas e mais de um quarto tinha estudado em escolas privadas, sendo que no Reino Unido apenas 6,5% das crianças e jovens estudam em colégios.

O que o trabalho de Fiona Patterson tem mostrado é que se as notas do liceu são bons preditores dos resultados académicos na universidade, não antecipam tão bem o desempenho dos estudantes quando passam para o ambiente clínico, sobretudo em aspetos como o trabalho de equipa, empatia e resiliência. Testes de juízo situacional conseguem captar melhor estes valores não cognitivos e, curiosamente, filtram menos pessoas de background menos favorecido, defende Patterson. Consultora nesta área para diferentes instituições, a psicóloga diz mesmo que uma das conclusões mais surpreendentes ao longo dos últimos anos foi perceber que pessoas de contextos mais desfavorecidos tendem a sair-se melhor neste tipo de testes de decisão do que as que vêm de meios mais privilegiados. «Vêm de ambientes em que há mais desafios e isso faz com que, de alguma forma, tenham mais empatia para com os problemas do outro e tendência para trabalho em equipa».
 
Os desafios do futuro

Numa altura em que se discutem problemas emergentes como o aumento das pressões sobre os serviços de saúde, a necessidade de reforçar as respostas comunitárias a uma população mais envelhecida e com doenças crónicas mas também desafios adicionais como elevados índices de burnout entre os profissionais de saúde, Fiona acredita que preparar o futuro passa muito por repensar o recrutamento dos profissionais. A começar desde logo pelo processo de admissão às faculdades mas também adaptando os currículos. «Vamos precisar de médicos flexíveis, criativos, resilientes, empreendedores», resume, perfis que, no seu entender, não dependem apenas das notas com que se sai do liceu ou termina o curso. E será a lógica das últimas décadas de recrutar para Medicina os melhores dos melhores alunos que tem travado mudanças de paradigma como trabalho mais multidisciplinar, por exemplo na ligação com a enfermagem? É uma possibilidade, admite a psicóloga, sobretudo porque o trabalho em equipa está entre os valores que não são aferidos à partida pelos atuais sistemas.

No trabalho que fazem para as instituições na consultora Work Psychology Group, Fiona Patterson diz que o peso atribuído aos testes fica ao critério dos clientes, mas defende que é preciso uma valorização significativa deste lado não académico ou cognitivo para se conseguir mudar o panorama. Atribuir 50% do peso às notas e os outros 50% a este tipo de testes seria um bom cenário, admite.

Quanto à redefinição do que se ensina nas faculdades, a psicóloga dá o exemplo dos farmacêuticos no Reino Unido, cada vez mais chamados a intervir nos cuidados primários à população. A ideia também tem feito caminho em Portugal e este ano foram autorizados testes nas farmácias ao VIH e hepatites, cuidados de enfermagem e até gestão de medicação de doenças crónicas. Para Patterson, o reforço do papel destes e outros grupos é necessário, mas no Reino Unido exigiu, por exemplo, alargar o currículo dos cursos de farmácia, até aqui predominantemente científicos. 

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