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Vicente Huidobro. Uma estreia em paraquedas

Vicente Huidobro. Uma estreia em paraquedas

Mariano Alejandro Ribeiro 15/05/2018 15:23

Faz parte da tríade canónica da poesia chilena, junto com Pablo Neruda e Gabriela Mistral.Em maio chega a Portugal a primeira tradução de “Altazor”, a obra-prima do poeta chileno Vicente Huidobro

Madrid, 1921. Nasce o primeiro número da revista “Creación”, uma publicação internacional dedicada às artes, criada e orientada por um poeta chileno que ninguém parecia conhecer na capital espanhola. As colaborações da revista, porém, incluem quase em exclusivo nomes de alto perfil nas artes: Georges Braque, Pablo Picasso e Juan Gris são alguns dos artistas que nela figuram. Ele conhecera-os em Paris, onde já fazia parte das vanguardas criativas, mantendo uma relação de amizade com aqueles que também haviam de ficar para a História, nomes como Joan Miró, Paul Éluard, Max Ernst ou André Breton.

Vicente Huidobro, nascido em Santiago do Chile em 1893, encontrava-se no centro de todas as vanguardas artísticas do seu tempo. Trouxera com ele da América do Sul um novo movimento literário que batizara como “creacionismo”. Através de inúmeras publicações e palestras, divulga-o pela Europa, mas é o seu livro “Altazor ou A viagem em pára-quedas”, editado em 1931, que se revelará como o máximo expoente do movimento. A lisboeta Antítese Editores traz pela primeira vez o livro a Portugal, numa versão com tradução, introdução e notas de Diogo Fernandes.

“Altazor”, um longo poema dividido em sete cantos, foi escrito e reescrito por Huidobro ao longo da sua vida até à sua publicação final pela Compañía Iberoamericana de Publicaciones. Os primeiros esboços terão sido escritos em Buenos Aires, em 1916, mas é certo que o texto foi revisitado várias vezes ao longo da sua estadia em Paris (o poema chegou a chamar-se “Voyage en parachute”) e em Madrid. Em 1926, Huidobro publica na revista “Panorama” uma antecipação daquilo que viria ser o Canto iv e, em 1931, chega finalmente a versão final de “Altazor o el viaje em paracaídas”.

A intensa atividade de Huidobro na arte e cultura, não só como escritor prolífico mas também como divulgador, não o poupou de criar certas inimizades com eminências do seu tempo. Discrepâncias políticas levaram-no a disputas epistolares com Luis Buñuel, e uma antologia chilena de 1935 que o vaticinou como o grande poeta do Chile, em detrimento de Pablo Neruda, resultou num ódio infame por parte deste, que nunca lhe perdoou os tiques modernistas da sua escrita, como o uso inusitado da tipografia ou a recorrência de efeitos visuais.

Mas na poética de Vicente Huidobro existe muito mais que o jogo de luzes que significa o uso de um imaginário rebuscado e a presença de caligramas. Em “Altazor”, cada canto difere em temática e estilo, sendo o primeiro, que é também o mais extenso, uma dissertação metafísica em que o poeta se apresenta: “Ah, ah, sou Altazor, o grande poeta.” No segundo canto, o leitor encontrará uma espécie de ode à mulher e, a partir do terceiro canto, a tendência de “Altazor” é para se desarticular de modo progressivo em imagens fractais próximas do surrealismo - “A alma pavimentada de recordações/ Como estrelas talhadas pelo vento// O mar é um telhado de garrafas/ Que na memória marinha sonha// Céu é aquela cabeleira intacta/ Tecida entre mãos de astronauta” - até se desfazer semanticamente na última parte do poema.

Por esse motivo, a edição da Antítese Editores, seguindo a primeira publicação de 1931, conta com um conjunto de notas críticas derivadas de uma série de artigos publicados sobre a obra. Diogo Fernandes, tradutor e editor, explica que estas notas “alertam para as especificidades do processo de formação de várias palavras que Huidobro utiliza, por se considerarem essenciais para a sua tradução e compreensão em português”. 

Em 1938, Vicente Huidobro regressa ao Chile, onde fará parte do célebre grupo de poetas surrealistas “La Mandrágora”, criado em reuniões informais na sua casa. Ainda voltará à Europa em plena guerra mundial, onde irá trabalhar como correspondente, mas regressa ao seu país após o final do conflito. Os últimos anos da sua vida passa-os em Cartagena, onde morre, em 1948, vítima de um acidente vascular cerebral. “Altazor ou A viagem em pára-quedas” fica para a história como uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. A versão portuguesa chega no final de maio às livrarias.

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