19/9/18
 
 
Mário João Fernandes 11/05/2018
Mário João Fernandes

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Marcelo: the selfie-made President

A Primavera parece ter trazido também o regresso da política, com frases sibilinas e plenas de intertextualidade. Registe-se o “obviamente, não me recandidato”

O tempo da Constituição de 1976 já somou um número razoável de experiências presidenciais para sabermos que o actual Presidente da República, mais do que qualquer um dos antecessores, cultiva assídua e denodadamente uma relação directa com o eleitorado. Marcelo considera, com razão, que chegou ao Palácio de Belém depois de um esforço longo e aplicado na construção de uma relação com um público que, no dia certo, se transformaria em eleitorado. Com a ajuda de Passos Coelho pôde ainda encenar a candidatura de um homem só contra a vontade da então liderança do PSD. A legitimidade da eleição directa é a força de qualquer Presidente da República. Não há que duvidar da força marcelista, não só potencial como efectiva. E a força de um Presidente é tanto maior quanto a fraqueza do governo e do parlamento que o apoie. 

Com o frenesim que caracteriza a prática política marcelista, é possível vislumbrar no mesmo mandato (que ainda nem vai a meio…) os elementos típicos dos dois mandatos dos Presidentes. O primeiro, caracterizado por uma prática acomodatícia do governo que esteja em funções, prática quase interesseira, a pensar na renovação do mandato. O segundo dos mandatos é caracterizado já por um recuperar da liberdade presidencial no exercício dos poderes constitucionais, numa marcação à zona ao governo de turno, mais belicosa se esse governo for de uma família política diferente da presidencial.

Marcelo, ao legitimar e defender a solução contranatura (esquerdas há muitas e os maiores inimigos de uma frente popular de esquerda estiveram sempre no PS…) da geringonça, foi zurzido pelos familiares políticos, que julgavam ter eleito um correligionário. Já a longa e recente entrevista ao “Público”, servida à fatia durante vários dias, antecipada pelas edições online e multiplicada pelas televisões, detalha os elementos de avaliação final do xxi Governo Constitucional, a mais de um ano de distância do termo da legislatura. A avaliação é positiva no segmento das finanças públicas (numa ameaça de dissolução da Assembleia da República contra o aumento da despesa pública defendido por Bloco e PCP que se traduza numa não aprovação do próximo Orçamento do Estado); sibilina na defesa de um maior empenho no combate à corrupção; sugerindo alterações legislativas e reforço de meios (o que levou Assunção Cristas a colar-se a esta agenda, propondo uma revisão constitucional centrada na reforma da justiça); e anunciando um exame final ao governo (tema único: o combate aos fogos florestais). Marcelo não resistiu a fazer mais uma demonstração da crença na dimensão lúdica da vida política. O anúncio da não recandidatura presidencial em caso de insucesso (não parametrizado nem quantificado) no combate aos próximos incêndios florestais é um prodigioso eufemismo. O mandato presidencial termina em 2021. Muito antes de uma não recandidatura há a possibilidade de contribuir activamente para a não reeleição dos titulares de outros órgãos de soberania…

A política está de volta, como o actual primeiro-ministro parece ter provado ao recusar o envio de recados por via da entrevista presidencial. Que não, retorquiu o supremo magistrado da Nação, trata-se de mera revisão da matéria dada.
Fica feito o aviso. O Presidente está disponível para quase tudo. E mesmo o quase é negociável.

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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