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Marselha. O património genético e a religião chamada... ohémite!

Marselha. O património genético e a religião chamada... ohémite!

Afonso De Melo 09/05/2018 21:41

Marselha, a cidade que encantou Simone de Beauvoir, está em festa. O OM está de volta às finais europeias. E vem aí um jogo histórico disputado no estádio do seu maior inimigo (Lyon) a prometer uma semana de confusão

“OM, património genético dos marselheses, é imortal!”, dizem, orgulhosos, aqueles que os franceses acusam de sofrer de... “ohémite”. Dificilmente outro clube foi tão amado e odiado ao mesmo tempo. Aqui jogaram Jairzinho, Keita, Yazalde, Cantona, Futre, Rui Barros e... Ben Bella.

Ah! E a cidade, inconfundível...

Vá lá saber-se de onde lhe vêm os mistérios... Talvez do seu espelho mediterrânico, azul-turquesa, e dos destinos africanos que foram chegando a pouco e pouco do outro lado desse mar a que os romanos chamavam egoisticamente “nosso”, milhares, milhões de “pieds-noirs” vindos de Marrocos, da Tunísia e da Argélia, sobretudo da Argélia, a cidade que foi ganhando novas cores, novos cheiros, novos rostos até se tornar única no ponto mais alto das suas diferenças.

“24 Heures de Folie”, dizia o “L’Équipe” no berro impresso da sua manchete, após o Marselha bater o Red Bull por 2-0 e se qualificar para a quinta final europeia da sua história. Todas já a partir dos anos 90, o que faz dele um quase neófito nestas coisas da UEFA.

1990-91: Taça dos Campeões – Bari, derrota nos penáltis (3-5, 0-0 após prolongamento ) frente ao Estrela Vermelha de Belgrado.

1992-93: Taça dos Campeões – Munique, vitória frente ao Milan por 1-0.

Momento sem igual na história do futebol de França. Pela primeira vez, um clube do país ganhava a taça que foi criada precisamente pelos franceses.

1998-99: Taça UEFA – Moscovo, derrota frente ao Parma por 0-1.

2003-04: Taça UEFA – Gotemburgo, derrota frente ao Valência por 0-2.

2017-18: Liga Europa – Lyon, frente ao Atlético de Madrid – ?????

Não se pode dizer que seja um currículo absolutamente feliz. Mas não deixa de ser curioso que o único golo marcado nas quatro finais lhe tenha garantido a única vitória. Ou melhor: La Victoire!

Bernard Tapie, o maior responsável por esse Marselha que riscou o céu da Europa do futebol nos primórdios da década de 90 – Papin, Wadle, Francescoli, Abedi Pele, Deschamps, Boli, Desailly, Völler, Klaus Allofs –, depois caído no escândalo de Valenciennes que meteu até uma descida administrativa ao poço negro da segunda divisão, tem sido um dos mais entusiasmados adeptos deste novo Marselha, conduzido por um expatriado espanhol naturalizado francês, Rudi García: “L’OM de retours dans le coeur des gens.”

Mas alguma vez o Marselha saiu do coração dos seus adeptos, os mais entusiastas do Hexágono? E Tapie outra vez: “Agora, só temos de esperar tudo de bom!”

Uma religião

A vitória do Marselha caiu em cima de um período de férias escolares. Até as crianças se divertiram pela noite fora pelas ruas do Vieux-Port. “L’épopée a déjà son hymne, il est dédie au presidente de l’Ol, Jean-Michel Aulas, et il n’est même plus utile d’en preciser les paroles.” Sim. Eu deixo aqui a letra: “Jean--Michel Aulas/ On va tout casser chez toi.” E quem é Aulas? O presidente do OL, Olympique Lyon, em cujo estádio a final de dia 16 será disputada. Porque a rivalidade entre ambos os clubes é histórica e terrível, e os marselheses têm dúvidas de que, mesmo jogando em França, joguem verdadeiramente em casa.

A ameaça de alguns energúmenos de tudo partirem no Groupama Stadium de Lyon deixou os dirigentes do OL de orelhas e língua afiada. Foi de imediato publicado um comunicado alertando para possíveis atos tresloucados de irresponsáveis e exigindo uma posição oficial por parte do Marselha e das autoridades francesas. E recordando os graves incidentes que tiveram lugar em outubro de 2008, quando o Marselha se deslocou ao Vicente Calderón para defrontar o seu adversário de agora, o Atlético de Madrid, na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Nada disso, no entanto, apaga o clarão entusiástico que tomou conta de Marselha durante os últimos dias.

“Le football est une religion née à Marseille”, gostam de dizer esses marselheses passionés que enchem os trotoirs vestidos de azul-e-branco em romaria para o Velódromo, agora magnificamente renovado. Uma frase que se repete um pouco por todo o lado, com outros sujeitos e os mesmos predicados. Mas poucos lugares da Terra podem orgulhar-se de um passado assim: mais de 2600 anos de cidade, 118 anos de clube.

Há clubes que nascem e renascem sucessivamente por via do entusiasmo esfuziante das gentes que os apoiam. Marselha, o clube centenário dos sonhos azuis-e-brancos.

Marselha, a cidade milenar que encantou Simone de Beauvoir: “Sob o céu azul, telhados ensolarados, buracos de sombra, plátanos da cor do outono; ao longe, as colinas e o azul do mar; um rumor nascia na cidade com um cheiro de ervas queimadas e as pessoas iam e vinham ao sabor das ruas negras.”

O Magrebe do lado de cá. Em tons de azul-céu. Enquanto, à beira do porto velho onde os barcos se acumulam, os velhos leem o futuro nas águas e adivinham as tempestades pela inquietação dos pássaros.

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