18/9/18
 
 
Mário Cordeiro 08/05/2018
Mário Cordeiro

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A síndroma do martini

Depois, a queda do Tiago do sofá. O estrondo. O sangue. Levá-lo para o hospital. Acelerar. Pode desmaiar. Pode morrer. As avenidas. O Tiago. O sinal. O sinal. Travar

Acelerou pela avenida e fez a curva demasiado depressa. Sim, teve consciência disso, mas o caso não era para menos. O Tiago estava a sangrar da cabeça e, apesar de ter posto logo gelo, conseguia ver pelo espelho retrovisor o sangue a pingar, mesmo que lentamente, pela cara do rapaz, assustado e infeliz, sentindo- -se mal na pele de um menino de dois anos que acabava de se ter ferido.

Fez a curva e sentiu o guinchar dos pneus. Oito da noite. Iam jantar, estava tudo preparado. Oito da noite. Estaria muita gente no hospital? O serviço de urgência estava sempre cheio mas, com o Tiago assim, decerto os deixariam ser atendidos primeiro. As ruas laterais passavam, uma após outra, enquanto seguia na principal. Sabia que estava a conduzir muito acima dos 50 km/h a que o Código da Estrada limitava, mas tinha medo que a pancada que o Tiago sofrera pudesse ter feito pior do que o enorme «galo» que tinha e a ferida que, persistentemente, teimava em “babar” sangue. E se ele desmaiava?

A ideia foi demasiado horrível e a consequência foi acelerar um pouco mais. O carro guinou uma vez mais. Que queda mais estúpida. O Tiago estava a brincar no sofá, a fazer piruetas, e uma saíra-lhe mal. Batera com a parte lateral da cabeça na mesa que estava ao lado do sofá, ainda por cima desequilibrando o candeeiro, que lhe dera uma segunda pancada no mesmo sítio. Chorara. Muito. De dor e de medo, ao ver o sangue correr a fio.

Estava na cozinha a preparar o jantar quando ouviu o estrondo, o grito, não se lembrava já de qual tinha sido primeiro. Teve consciência de que acabara de passar um sinal vermelho. Mesmo antes de ouvir uma buzinadela estridente do carro que atravessava o cruzamento. Abrandou ligeiramente e olhou para o retrovisor – o Tiago parecia ter adormecido. E se não era dormir, se desmaiara?

De repente, o sinal fechado. Os carros a cruzarem-se na transversal. Um autocarro de passageiros, enorme, cada vez mais perto. Travou. Travou com todas as suas forças. O carro estremeceu, rodopiou e embateu no lancil, rodopiou outra vez, ouviu o grito do Tiago, uma pancada, e ficaram imobilizados com a parte lateral da frente do carro esmagada num candeeiro.

Olhou para trás e viu o filho, morto de medo. Constatou que não estava a sangrar nem tinha nada aparentemente partido, abriu a porta, saiu a cambalear, e o seu primeiro gesto foi tirar o Tiago e segurá-lo. Estremeceu. A polícia chegou passados uns instantes – breves, pareceu-lhe.

“Sopre!” À primeira pensou que algo estava errado. “Sopre!”, insistiu o agente. “O meu filho”, gritou. “Tem uma ferida, deve ter batido com a cabeça no lado do carro.” “Provavelmente não o pôs corretamente na cadeira.” “Pus.” “Sopre!” “Pus, senhor guarda. A ferida não foi disso. Foi em casa. Eu ia até mesmo para o hospital.” “Sopre”, insistiu o agente e, voltando-se para o colega que estava ao lado: “Nem imaginas o bafo. Se calhar foi mesmo em casa, chegou-lhe valentemente, eu já cá ando há muito tempo.”

Soprou. 0,9. 0,9! Não podia ser.

“Pois. Lá em casa parece que não foram só quedas. E depois as crianças é que se tramam com esta gente. Leva o miúdo, Carlos, para o hospital já. Entra com ele e explica o que se passou. Tens aqui a cadeira. Eu fico aqui a tratar deste assunto. Sabe? Por sua causa, teve um acidente. A sua alcoolemia é quase crime. Copos a mais, mania das grandezas, reis do mundo, excesso de velocidade, a estrada é toda vossa. Não? Não sabia? Nunca lhe tinham dito o que podia acontecer se guiasse neste estado? Fico pior que estragado, sabe, sobretudo quando envolve inocentes. O seu filho é um inocente. Comigo não vai fazer farinha, lhe garanto. Já vi muito e já tenho idade para me irritar!”

Um, ou teriam sido dois martinis? Tinha chegado a casa num grau extremo de cansaço, depois de ir buscar o Tiago ao infantário. Só pensava em dar--lhe jantar e meter-se na cama. O clima de tensão no emprego era demais. Tanto trabalho. E havia prazos e cada vez mais contratos para fazer, a crise para vencer, a economia a exigir… e os colegas a insistirem que devia ficar mais umas horas, só umas horas, umas horinhas… mas tinha de ir buscar o filho e ir para casa e relaxar. Um – ou teriam sido dois, ou três… – martinis para descansar. Para relaxar. Para afastar da cabeça a porcaria do trabalho.

Depois, a queda do Tiago do sofá. O estrondo. O sangue. Levá-lo para o hospital. Acelerar. Pode desmaiar. Pode morrer. As avenidas. O Tiago. O sinal. O sinal. Travar. O autocarro. O sinal. Travar. Travar. Travar.

CONCLUSÃO: Se conduzir, não beba. Se estiver só, a tomar conta de crianças, também não.

P.S. Existe uma doença cardíaca chamada síndrome de Nava e Martini. Mas não tem nada a ver com isto...

Pediatra, Escreve à terça-feira

 

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