24/9/18
 
 
Alexandra Duarte 07/05/2018
Alexandra Duarte

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Os filhos não são nossos

Os filhos levam-nos à exaustão! Abençoados os pais que nunca gritaram, nunca se lembraram de dar uma palmada, nunca se sentiram desesperados de cansaço. Ou têm uma paciência de Jó, ou o tempo que passam com os seus filhos não é o suficiente para serem sujeitos a esta prova, ou então alcançaram este estado perfeito que muitos de nós ambicionamos

Não tarda chegam as férias grandes e encerra-se mais um ano letivo que marcou os nossos filhos, que crescem todos os dias até alcançarem a tão desejada idade da maioridade. Para uns terá sido um ano vitorioso, com conquistas pessoais e escolares que os definirão enquanto adultos daqui a uns anos, e às quais nós assistimos com orgulho, ou até fomos diligentemente  responsáveis por essas provas superadas. Porque esse é o nosso dever enquanto pais ou cuidadores: ensiná-los a crescer com amor e responsabilidade, mesmo quando a tarefa nos parece árdua e custa como se tivéssemos facas debaixo dos pés enquanto caminhamos ao lado destes seres tão frágeis, mas com uma vontade própria que se agiganta perante nós quando menos esperamos. 

Apesar do que as crianças pensam, nem sempre temos a certeza das decisões que tomamos e, não são raras as vezes, em que, à noite, nos deitamos dominados pelas dúvidas que nos desassossegam e tiram horas de sono. Questionamo-nos, vezes sem conta, se estamos a fazer tudo bem, ainda que após algum tempo e consumição aceitemos que não há fórmulas para o crescimento, nem sequer uma equação universal para a felicidade, tal como Mo Gadwat (ex-executivo da Google X) reconheceu na sua recente publicação.

Às vezes cedemos, e desviamo-nos do caminho que tínhamos pensado para nós e para eles, seja porque estamos cansados, ou porque nos rendemos após tanta teimosia, ou simplesmente porque há momentos em que se abate sobre nós um nevoeiro que nos impede de ver mais além, e deixa-nos desorientados. Ser pai ou mãe é viver estas angústias e dúvidas, com a certeza de que o sentimento que nos une será o suficiente para retomarmos o caminho em dias solarengos, e que, um dia, seremos compreendidos, porque já dizia o ditado: “Filho és, pai serás!”.

Não é fácil nos dias de hoje ser pai ou mãe, mas também não o era nas gerações anteriores; as dificuldades é que são outras. Temos problemas com a autoridade que exercemos sobre eles por não sabermos muito bem quais os limites socialmente permitidos, já que a qualquer instante podemos ser avaliados e julgados por quem se encontra ao nosso lado. Essa pressão permanente que paira sobre nós condiciona o nosso comportamento e até a relação que estabelecemos com os nossos filhos. Se falamos um pouco mais alto, somos logo olhadas de soslaio (propositadamente no feminino porque ainda continua a ser uma característica mais predominante entre as mães do que nos pais), se nos lembramos de principiar o gesto de levantar a mão, corremos o sério risco de sermos vaiados ou telefonarem para a proteção de menores, tudo serve para julgar. É tão fácil julgar… Não estou a defender este tipo de comportamentos ou de respostas para situações mais críticas com os filhos, mas também não me imagino a julgar alguém que o faça, tendo eu só presenciado aquele instante. 

Os filhos levam-nos à exaustão! Abençoados os pais que nunca gritaram, nunca se lembraram de dar uma palmada, nunca se sentiram desesperados de cansaço. Ou têm uma paciência de Jó, ou o tempo que passam com os seus filhos não é o suficiente para serem sujeitos a esta prova, ou então alcançaram este estado perfeito que muitos de nós ambicionamos.

Com o tempo deixou de ser politicamente correto dizer que os filhos são nossos. Implicava, sub-repticiamente, uma mensagem que transmitia um poder abusivo dos pais sobre os filhos, como a querer dizer que nos filhos mandam os pais e mais ninguém. Hoje ninguém se atreve a responder dizendo que o filho é seu e que faz o que quer. Até podem ter deixado de ser nossos, no sentido de propriedade e exclusividade dos pais, já que nos dias que correm são resultado de um cruzamento de influências que vão desde a instituição escolar, aos amigos, passando pelas relações virtuais que vão somando. Mas não sendo nossos, são parte de nós.

Os filhos são parte de nós. São a extensão do nosso amor, da força que nos empurra todos os dias, são a dor pejada de lágrimas que nos trespassa quando sofrem, são a dúvida e a certeza na nossa finitude enquanto protetores, desde que nascem até ao dia em que partimos.

Quem melhor que os pais para amparar no crescimento, limitar os caminhos perigosos, orientá-los nas suas escolhas, incentivá-los nas derrotas, ensinar a não desistir na adversidade, contrariar nos erros, dizer que não quando nos custa? 

Cada um de nós faz o melhor que sabe, que sente, impelido por um amor incomparável que não tem medida e, por vezes, até chega a ser incompreensível para os que estão à volta. Mas são os nossos filhos. São nossos. E nós é que sabemos!

 

Escreve quinzenalmente às segundas-feiras

 

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