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Pimenta vs. a Razão Insossa

Pimenta vs. a Razão Insossa

Diogo Vaz Pinto 05/05/2018 01:22

Estreia hoje, na Culturgest, o novo filme de Edgar Pêra, «uma prenda» pelos 80 anos de Alberto Pimenta, e um dedicado estudo fílmico da sua radical e provocante obra e pensamento


O diálogo é das artes hoje feridas de morte, com as palavras que vemos por aí como coisas mancas, sem pontaria nenhuma, esvaindo-se à míngua de um sentido menos vulgar que as resgate. Impôs-se a tagarelice, a incapacidade de tratar a língua na sua função íntima, traçar com ela um outro juízo. Assim, um filme que se proponha recolher a rede estendida ao longo de mais de duas décadas de conversas com um poeta da grandeza de Alberto Pimenta, parece-nos uma proposta mais do que aliciante. São, afinal, muitas as vozes, uma cabeça que se estende como uma grande estação terrestre atenta a todo o tipo de frequências. «Alberto Pimenta, cidadão nacional n.º 0727697», fez 80 anos em dezembro passado, e é o sujeito do novo filme de Edgar Pêra, um realizador de quem se pode dizer que não tem um palmarés mas, antes, um cadastro.
Com um percurso marcado por uma espécie de sanha dirigida a tudo o que sejam convenções, este realizador aplica-se aqui numa dissertação irreverente em tudo, caçando pela dispersão os múltiplos reflexos de Pimenta – O Homem-Pykante –, poeta cujo endiabrado génio não fez outra coisa que pôr em marcha uma «insurreição séria e jocosa, satírica e desalentada ou decantada perante o surpreendente espectáculo do mundo», como refere Carlos Nogueira num ensaio a propósito do autor.
Com estreia marcada para este sábado, às 19h, no Grande Auditório da Culturgest, o filme é exibido no âmbito da 15.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Lisboa – IndieLisboa. Nesta colaboração, o realizador monta e reelabora as vozes, filmagens que vem fazendo de uma série de encontros com o poeta e que remontam a 2008, mas serviu-se também  de imagens de arquivo. E, bem para lá de um mero documentário, cria um estudo fílmico a partir da actuação poética deste, que já de si se desdobra entre os ofícios de escritor, ensaísta, performer, professor universitário... não falta assim o cunho mais experimental, que é uma das características centrais da desaustinada obra de um dos poucos escritores que preenche, sem complexos, a noção de maldito. 
Edgar Pêra aproveita para um golpe certeiro na afanosa tromba de um meio cultural que prefere esperar pela morte dos artistas e dedicar-se, a partir daí, a exumações ao contrário de os celebrar ainda vivos. «Muitas vezes, com muitos dos nossos escritores é preciso que eles deixem de existir para existirem na realidade. Isso não me interessava nada, eu tinha que fazer alguma coisa com estes arquivos e acho que foi a altura certa, tanto para mim como para o Alberto», disse o realizador numa entrevista.
Os 80 anos de Pimenta pediam uma boa «prenda de aniversário», mas este filme não cede ao típico articulado de uma homenagem. Alberto Pimenta volta a comparecer sem o manto debruado com que tantas excelências disfarçam os sinais de caquexia. Um entendido nas grandes correntes como nas ciências mínimas, seja a vertigem teórica das ilações de que é capaz, com aquela erudição perfurante que sabe aplicar furos nas dimensão espacio-temporal, e ao mesmo tempo, tão aplicado na hora de escolher fruta e outros víveres numa banca de mercado. Alguém que, no filme, não hesita em dizer: «eu não tenho vocação nenhuma para o passado nem para o futuro, a minha vocação é para o presente». E que fala do presente como uma particular influência do mundo no homem, esse que sente a «inquietação de quem não pôs os pés no chão» . Alguém que come com a boca de um homem, revelando um apetite afinado pela noção da sua mortalidade, mas capaz depois de ir impressionar os deuses com as suas mundanas sensações. Sabe dos clássicos, de há milénios até ontem, habituou-se a seguir de noite a novela das estrelas, trata por tu mitos maiores e menores. 
O filme esforça-se por ler alto, pensar alto com Pimenta. Edgar Pêra deu a este jornal uma versão ainda em montagem, e é possível que aqueles que estejam na exibição no princípio da noite deste sábado assistam a uma obra que tenha levado acertos de última hora nada insignificantes, uma vez que o realizador se desafiou a abarcar não só o pensamento como o modo de operar do poeta, num filme performático que respeita o vigor de uma arte rude, indisposta, tantas vezes bruta e inclemente. É uma abordagem exigida pea própria época, que leva tantas vezes um ser sensível a ficar à beira de um ataque de nervos perante o grau de «insconciência» que lhe é próprio.
«Quando abro os olhos/ é ainda pior/ que quando eles estão fechados:/ é como se o mundo/ tivesse sido exilado,/ fica só/ o motor a trabalhar/ lá fora», escrevia Pimenta em «Beau Monde», um dos poemas que fazem parte do livro Nove fabulo, o mea vox | De novo falo, a meia voz (Pianola, 2016). Poema que termina com os seguintes versos: «O que neste momento respiro/ pertence à temporada petrolífera./ Até os gatos se foram embora.// Tanto abandono/ à minha volta».
E enquanto o realizador testa com que lente, quantos planos, em que luz e se segue e registam as paisagens ininterruptas desta cabeça, o poeta prossegue a sua lição, umas vezes ríspida outras tranquilizadora, e conta-nos, por exemplo, que cresceu numa rua que tinha só casas de um dos lados, e do outro ficava a vista para a elevação de um cemitério desactivado onde, entre outros, descansa Camilo, esse infrene cultor das nossas paixões por extenso. Ali, com cinco ou seis anos, ele ia para o meio daqueles mausoléus «muito chiques», e lembra-se de que gostava de ver do outro lado do muro, a própria casa, como um morto ainda bem fresco ganhando saudades. É um de muitos episódios, reflexões, anedotas ou impressões que marcam os bestiais exercícios de deslocamento, variação de planos, e a infatigável  curiosidade de alguém que cercou sempre e ainda espreita a surpresa pelo buraco da fechadura, nos seus preparos ao erguer-se ou antes de se deitar.
Edgar Pêra recorda que os dois tinham colaborado já em 2002 num vídeo para uma instalação, chamado ‘Fiquem com a Cultura que eu fico com o Brasil, e que, depois disso, ainda fez «pequenos filmes de adaptações de poemas» de Alberto Pimenta. Tendo-se conhecido em 1994, Pêra lembra que segue Pimenta desde 1977, ano em que saiu Discurso sobre o Filho-da-Puta, um dos títulos mais emblemáticos da sua obra poética, e em que realizaou a célebre performance Homo Sapiens, num domingo a meio do Verão em que se encerrou numa jaula de macacos do Jardim Zoológico de Lisboa.  Exposto entre as 16 e as 18h, o happening não passou despercebido à imprensa internacional, e viria a ter repercussão no trabalho de outros performers europeus. Mas, se deu visibilidade a Pimenta, acabou por ser motivo de um dos mais duros golpes que sofreu, depois de lhe ser retirado o convite que recebera para dar aulas numa universidade do Porto. Até por isso, esta é uma desoladora performance ao apontar o dedo ao estreito plano mental e à tacanhez com que os ditos meios intelectuais neste país continuam a açaimar os melhores espíritos que por ele passam.
 

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