23/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 02/05/2018
Carlos Zorrinho
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Risco messiânico

Estamos a pisar um risco, mas sosseguem as carpideiras que o risco profanado não nos afastará do bom porto. O risco messiânico é o risco que ninguém melhor do que Fernando Pessoa soube traçar

No seu discurso do 25 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa, fiel ao seu registo de improviso refletido, largueza de espírito e paixão pelo desafio, abriu uma vereda para o caleidoscópio de interpretação política ao identificar em Portugal um risco messiânico - risco, curiosamente, só legível, segundo o próprio Presidente, por gente jovem e sem preconceitos embrenhada no ”Mar Português”.

Este puzzle interpretativo ocorre quando, por estes dias, os termómetros assinalam em Portugal temperaturas abaixo da média para a estação e o cenário político é de acalmia e estabilidade, enquanto, pelo mundo e pela Europa, a política e a geopolítica fervem num contexto de reconfigurações sucessivas e alianças que se formam e se desfazem como estrelas cadentes. 

Ao contrário de alguns prognósticos, o séc. xxi não se tem revelado plano, mas antes profundamente acidentado e acelerado, tornando ingrata qualquer antevisão sobre a evolução dos sistemas políticos e muito menos quanto à sua eventual estabilização. O quadro em que vivemos é de movimento e é o movimento que marca a política e a geopolítica dos nossos dias.

A implosão do pensamento único gerou um “Big Bang” de novas visões e correlações, mais facilmente capturadas pelos movimentos embrionários do que pelas famílias políticas tradicionais. Foi neste cadinho que se formaram os movimentos populistas radicais (e antieuropeus) e estão agora a começar a formar-se outros movimentos que procuram ocupar o espaço dos partidos tradicionais, como o movimento pan-europeu protagonizado por Macron ou o movimento protagonizado, entre outros, por Benoît Hamon, que procura reagrupar os cacos de alguns partidos sociais-democratas e socialistas imolados pelo pensamento único.

O governo do Partido Socialista (PS) em Portugal, com o apoio de toda a esquerda parlamentar, desatou o nó do pensamento único e deu à União Europeia (UE) um novo fôlego democrático, gerando uma alternativa de esquerda para se ser pró-europeu - uma alternativa que é hoje inspiradora para a renovação da esquerda democrática na Europa.

Este passo corajoso e reconhecido permitirá renovar o mandato da esquerda em Portugal, mas não basta por si só para vencer no novo quadro da política em movimento e em movimentos que marca a cena europeia e mundial. É, por isso, assinalável a opção do PS de focar o seu congresso numa nova geração de políticas capazes de impulsionar um partido tradicional para a frente das novas dinâmicas de transformação da sociedade, fortemente marcadas pelo combate às desigualdades, pelas alterações climáticas, pelo desafio demográfico e pela emergência da nova sociedade digital. 

O messianismo português é esta combinação improvável de um Presidente que inova em cada gesto, um partido de governo que enxerga para além da “Taprobana” e um povo que, quando é motivado para a aventura, consegue dar novos mundos ao mundo. 

Estamos a pisar um risco, mas sosseguem as carpideiras que o risco profanado não nos afastará do bom porto. O risco messiânico é o risco que ninguém melhor do que Fernando Pessoa soube traçar. É o risco de ousar e fazer acontecer. É o risco de ser em vez de obedecer.

 

Eurodeputado do PS
 

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