17/11/18
 
 
João Lemos Esteves 01/05/2018
João Lemos Esteves

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A intolerância da esquerda está a matar o 25 de Abril

Ser livre é continuar a lutar contra a ditadura do politicamente correto que pretende uniformizar o pensamento, sancionar a dissidência, criar uma democracia em que só os amigos da esquerda podem participar e intervir – mesmo que tal implique a obrigação de lutar mais, de trabalhar mais, de resistir mais do que as “pessoas queridas” do regime

1. Mais um ano, mais um 25 de abril no calendário, mais uma oportunidade para os políticos portugueses se declararem, urbi et orbi, os verdadeiros arautos da liberdade. É um dogma antigo, incontestado, da esquerda (e de alguma direita nacional: uma vez por ano mete-se o cravo na lapela, almoça-se com o Vasco Lourenço, desce-se a Avenida da Liberdade – e (qual passe de magia!) é-se automaticamente convertido no defensor por excelência da liberdade. Como se o cravo, acompanhado pelo trautear mais ou menos tímido das músicas do Zeca Afonso, funcionasse como uma espécie de elemento expiador dos pecados cometidos pela esquerda sectária (e, repetimos, por alguma direita que a acompanha sempre): durante o ano, andam a difundir o ódio e a intolerância contra os que pensam diferente e a perseguir todos aqueles que reputam como adversários políticos – mas, no dia 25 de abril, aparecem com ar blasé a proferir lindos e maravilhosos discursos sobre o significado pungente da liberdade para eles. 

2. A maioria daqueles que discursaram na Assembleia da República, que tiraram selfies todas catitas com o cravinho sob a aparência de uma nostalgia sentida, são exatamente os mesmos que nos restantes 364 dias do ano andam a engendrar esquemas de controlo da comunicação social, a perseguir a opinião dissonante, a utilizar os tribunais para instaurar novas formas de censura, a recorrer aos blogues e comentários anónimos para lançar autênticos ataques de caráter contra aqueles que têm a extrema ousadia de não se conformarem com a perpetuação dos mesmos de sempre nas estruturas de poder, de denunciar o apetite voraz e insaciável da esquerda (e da direita dos interesses) de tudo controlar – se Salazar fosse vivo, seria um orgulhoso militante desta esquerda sectária que gosta de liberdade, mas só sabe mesmo soletrar esta palavra. Desconhece o seu significado – muito menos a consegue viver. A esquerda é radical no seu sectarismo; é radical no seu discurso; é radical na sua intolerância. Contudo, esta mesma esquerda revela-se incapaz de ter a experiência mais radical de todas: ser (efetivamente) livre. Percebemos hoje que a esquerda que nos deu esse legado único de uma Constituição democrática que pôs termo a décadas de autoritarismo é precisamente a mesma esquerda que despreza a liberdade. Ou melhor: que manipula a liberdade à medida dos seus interesses e conveniências mais ou menos momentâneas. 

3. Na visão desta esquerda intolerantemente radical (e radicalmente intolerante), a liberdade não é um valor absoluto, nem sequer um direito inerente a todos os seres humanos: antes, a liberdade deve ser um privilégio reservado a alguns – aos seus camaradas e amigos. Atentemos, por exemplo, nas declarações de Fernando Rosas – hoje, cada vez mais um Fernando Rosinhas (convertido que está ao partido que até há bem pouco associava aos interesses do grande capital o PS, o partido das… rosinhas). Ora, Rosinhas afirmou que o CDS está “ui, ui tão modernaço” porque tem um dirigente gay (referindo-se, claro está, a Adolfo Mesquita Nunes). Tal asseveração evidencia o quão hipócrita e sectária é a esquerda: dizem-se os grandes defensores dos direitos dos homossexuais, assumem-se como progressistas; porém, na verdade, revelam-se os conservadores mais retrógrados e totalitários da vida política portuguesa. Para o nosso Professor Rosinhas (nova estrela parda dos órgãos de comunicação social do sistema, desde a RTP até ao “Público” – órgãos de comunicação social muito democratas, claro…), os homossexuais são seres humanos exemplares que merecem a proteção do Estado e da comunidade se forem de esquerda; se forem de direita, não passam de uma modernice de “reacionários efeminados” (Rosinhas não o disse, mas insinuou), verdadeiros cidadãos de segunda ou de terceira. Os direitos dos cidadãos homossexuais de esquerda são uma questão de direitos humanos, não podendo o Estado ignorá-la; já os direitos dos cidadãos homossexuais de direita são apenas – ui, ui! – uma “mariquice de neofascistas”. Infelizmente, esta conceção de Fernando Rosas é muito comum na esquerda: utilizam a defesa dos direitos dos homossexuais, como de outras minorias, como mero expediente eleitoral. Não querem saber das pessoas concretas, de carne e osso, que sofrem pela exclusão e discriminação social: querem apenas saber dos votos que tais pessoas significam. 

4. E, à boa maneira estalinista e trotskista (o que é o trotskismo senão um estalinismo frustrado e mal resolvido?), consideram os cidadãos homossexuais que não sejam de esquerda como “ traidores da Pátria”, como “traidores do seu grupo”. É, com efeito, esta visão da sociedade que é perniciosa para a coesão da comunidade – é, no entanto, esta conceção da sociedade que permite à esquerda sobreviver e crescer. Fernando Rosas é um distinto biógrafo de António Oliveira Salazar, dedicando a sua vida ao estudo do ditador português: pois bem, como sucede tantas vezes, o biógrafo adquiriu tiques do biografado. E aí temos o resultado de tantos anos de estudo de Salazar: Fernando Rosas(inhas) converteu-se num salazarento (expressão que lhe é particularmente cara). Mas, claro, no dia 25 de abril lá pôs o cravo na lapela e foi, cantando e rindo, levado, levado, sim, pela voz sectária e intolerante da esquerda a que pertence. 

5. Por nós, recusamos qualquer lição sobre democracia e liberdade dos que no dia 25 de abril fingiram amar a liberdade. O amor à liberdade – como tantos outros – não se proclama: pratica-se. Não se declara: vive-se. Não, não – viver a liberdade não é uma mera proclamação teórica: pelo contrário, viver a liberdade reflete-se indelevelmente no nosso quotidiano. Entendemos mesmo que a expressão “viver a liberdade” é uma redundância, porquanto não concebemos uma vida que não seja livre – liberdade é vida; vida é liberdade. Quarenta e quatro anos volvidos sobre o 25 de Abril, importa (finalmente!) começar a construir uma sociedade livre. O 25 de Abril de 1974 deu-nos a democracia – não nos deu, porém, a liberdade. 

6. O que é a liberdade? A liberdade é a predisposição para afirmarmos as nossas posições, as nossas convicções sem medo de retaliações, sejam elas quais forem. Liberdade é não temer ser impedido de colaborar num órgão de comunicação social por não agradarmos a este ou àquele político ou personalidade com poder – como nós já fomos noutro órgão de comunicação social português. 

7. Ser livre é continuar a lutar contra a ditadura do politicamente correto que pretende uniformizar o pensamento, sancionar a dissidência, criar uma democracia em que só os amigos da esquerda podem participar e intervir – mesmo que tal implique a obrigação de lutar mais, de trabalhar mais, de resistir mais do que as “pessoas queridas” do regime. E ter uma resiliência de espírito suficiente para aceitar (combatendo!) não ser contratado para este ou aquele lugar, para este ou aquele trabalho, em função do desagrado que se provoca em certos setores imobilistas da sociedade portuguesa. Numa frase linear: viver livremente, apesar do incómodo que causa. Ou viver incomodamente, apesar da liberdade que nos enleva (e eleva). 

8. Em Portugal, hoje, maio de 2018, nada custa mais do que ser livre. Este é, aliás, o desafio desta geração e das gerações subsequentes: construir a liberdade. O 25 de Abril, infelizmente, por culpa da esquerda intolerante que temos, não mais é o dia da liberdade: é o dia da democracia. Porque se a Mariana Mortágua, um jornalista ou um humorista de esquerda for alguma vez prejudicado pelo exercício livre do seu pensamento, nós estaremos com eles na sua defesa, marcharemos com eles – no entanto, temos muitas dúvidas que a Mariana Mortágua ou alguém de esquerda nos defenda, esteja ao nosso lado caso sejamos discriminados pela expressão do nosso pensamento político. 

9. Pelo contrário: a Mariana Mortágua e seus camaradas de esquerda aplaudirão e, se necessário, condenar-nos-ão ao ostracismo perpétuo. Livres? Não somos. Seremos? Depende de nós, de cada um de nós – sabendo que a liberdade é o valor aspiracional supremo da existência humana. E é demasiado frágil para ser deixada ao critério de vanguardas revolucionárias que ainda choram por Estaline, Che Guevara ou Hugo Chávez…

joaolemosesteves@gmail.com 
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