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‘Quando Obama me disse que eu ia para Portugal fiquei esfuziante’

‘Quando Obama me disse que eu ia para Portugal fiquei esfuziante’

Miguel Silva José Cabrita Saraiva 30/04/2018 22:11

Depois de três anos em funções, abandonou o nosso país com lágrimas nos olhos, mas tem regressado regularmente para cumprir funções no Novo Banco. Em entrevista, Robert Sherman revela como foi a adaptação à vida em Portugal, o que é para si um dia perfeito e o que existe para lá dos muros da embaixada.

 

Já tinha regressado a Portugal desde que deixou de ser embaixador?

Sim, desde outubro do ano passado tenho voltado todos os meses, faz parte dos meus deveres como membro do conselho geral e de supervisão do Novo Banco. E antes disso já tinha cá estado para receber do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a condecoração da Grande Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, o que foi uma honra para mim. Tenho Portugal no sangue, por isso sempre que volto sinto que estou a regressar a casa.

E o que tem feito desde que deixou de ser embaixador em Portugal?

Voltei a exercer Direito nos EUA, que era o que fazia antes de ser embaixador. Agora o trabalho na administração do Novo Banco permitiu-me manter a ligação a Portugal. A minha mulher também tem regressado, porque faz parte de um programa para mulheres empreendedoras de sucesso. Mantemos os nossos laços com Portugal bem apertados.

Qual vai ser o seu papel como embaixador do Novo Banco Cultura?

O meu papel é ajudar o banco a envolver-se com a sociedade. Há tantos tesouros no banco - a coleção de fotografia, as pinturas históricas, os livros antigos e as 13 mil moedas do núcleo de numismática [ver  reportagem  no suplemento b.i.] - que é a própria história de Portugal que está ali representada através das artes. Isto foi mantido no banco durante demasiado tempo e tem de se abrir à sociedade. Por isso ofereci-me para assumir esse papel, o que ainda me permite manter o título de embaixador. [risos]

Gostaria agora de recuar no tempo. Qual foi a sua reação quando soube que vinha para Portugal?

Fiquei absolutamente esfuziante. Como diplomatas, fazemos uma lista dos países para onde queremos ir. Mas também nos foi dito que o Presidente Obama colocaria as pessoas onde achasse que podiam servir melhor os EUA. Eu cresci em Massachusetts, perto da comunidade portuguesa, conhecia portugueses desde a infância, eram meus amigos, meus colegas na escola. Interessava-me muito pelo país e achava que tinha muito potencial. Estava a passar por uma crise económica naquela altura, mas era o sítio para onde queria ir. Por isso quando o Presidente Obama me chamou e me disse que ia mandar-me para Portugal fiquei muito, muito feliz.

Já cá tinha estado antes?

Nunca. Tínhamos uma viagem marcada, mas tivemos de cancelar. Eu tinha sido nomeado embaixador, mas precisava ainda de ser confirmado pelo Senado, e se viesse cá antes dessa confirmação o Senado acharia que estava a querer condicionar essa decisão. Por isso, mesmo tendo viagem marcada, tivemos de a adiar um ano e quando vim para Portugal foi já como embaixador.

Em regra, os americanos sabem pouco sobre Portugal. Embora esse não fosse o seu caso, teve de se preparar antes de vir, leu livros, falou com pessoas?

Quando representamos o Presidente dos EUA noutro país temos de estar muito bem preparados. Passei meses a consultar pessoas sobre o meu trabalho em Portugal, paralelamente também passei muito tempo a falar com a comunidade portuguesa em Massachusetts, discuti os problemas económicos com especialistas, estudei como se podia atrair pessoas para o turismo e para os negócios. Sobre esse desconhecimento, devo dizer que as coisas mudaram muito e os americanos hoje conhecem Portugal. Todos os meses viajo no voo para Boston e o avião vai cheio. E não é de portugueses. Vai cheio de empresários americanos, de turistas americanos, de famílias americanas que querem descobrir Portugal da mesma forma que, há cinco séculos, Portugal descobriu o mundo.

E foi fácil adaptar-se à sua nova vida em Portugal?

Foi facílimo. Nas conversas que mantive para preparar a minha vinda, andava pelos corredores do Departamento de Estado e de vez em quando havia quem me parasse e dissesse: ‘Soube que vais para Lisboa. Como é que pudeste ter tanta sorte?’. Primeiro achava que estavam a falar do clima, do vinho ou da comida. Mas não. Quem dizia isto eram diplomatas que tinham andado por todo o mundo e o que me estavam a dizer era: ‘Nunca hás de encontrar um povo mais caloroso ou mais hospitaleiro do que aquele que vais encontrar em Portugal’. E foi isso que aconteceu. Desde o instante em que aterrámos as pessoas acolheram-nos não apenas na sua comunidade e nas suas casas, mas também nos seus corações. Sentimos uma ligação muito forte desde o início. E isso explica a quantidade de lágrimas que eu e a minha mulher chorámos quando tivemos de partir.

A adaptação foi fácil. E a língua? Aprendeu a falar português?

Um poco. [Volta ao inglês] Diria que consigo ler português, consigo perceber. Mas toda a gente falava sempre comigo em inglês. Ao princípio achei que era por o meu português ser tão mau, mas depois percebi que era uma questão de cortesia. Nunca tive uma reunião com um ministro que não fosse em inglês.

Os diplomatas americanos têm aulas para aprender a língua do país para onde vão?

Têm. Eu tive aulas antes e continuei a ter depois na embaixada.

O papel dos diplomatas é representarem e defenderem os interesses do seu país. Mas você fala como se tivesse vindo para cá para ajudar Portugal…

Sim: vim para cá para ajudar e apoiar Portugal. Mas porque isso era do interesse dos Estados Unidos. Achamos que os nossos aliados são muito importantes. O governo dos EUA da altura acreditava que quanto mais fortes forem os nossos aliados mais fortes somos todos juntos. Portugal foi o segundo país a reconhecer os Estados Unidos depois da nossa revolução, foi um aliado importante. Portugal e os EUA foram dos países fundadores da NATO. Ajudar o país a sair da crise económica e a crescer significaria que Portugal estaria mais disponível para participar nas operações de segurança - em África, na Europa de Leste, no Médio Oriente - em que a NATO e os EUA estivessem envolvidos. E fortalecer os laços económicos e as trocas era bom para os EUA e era bom para Portugal.

Nos três anos que esteve cá ficou a conhecer bem o país?

Viajei por todo o lado. Estive no Norte - em Bragança, Viana do Castelo… -, no interior, no Sul. Fiz 13 viagens aos Açores e quatro à Madeira. Aqui em Portugal aprendi a andar de mota, comprei uma Harley Davidson e não consigo imaginar nada melhor do que sair num dia lindo como o de hoje e andar para cima e para baixo na serra da Arrábida, parar na Comporta, ter um belo almoço na praia e voltar. Vi todos os bocadinhos do país, porque achei que a minha função não era ser embaixador dos EUA em Lisboa, mas embaixador dos EUA em Portugal.

Também se tornou um apoiante ferrenho da nossa seleção. A propósito, diz football ou soccer?

Dizia soccer quando cheguei e football quando me fui embora.

Gosta mesmo de futebol ou só se interessa pela seleção?

Gosto muito, e até fui assistir a vários jogos quando cá estive. As pessoas perguntavam-me de que clube eu era e eu dizia que só ia revelar no dia em que me fosse embora. Quando fui disse que era do Belenenses, o que foi uma resposta bastante diplomática [risos]. Mas sobretudo adoro a história da seleção. Não era favorita, mas uniu-se, jogou com confiança, como um coletivo. Fui convidado para ir a Paris ver a final com o Presidente e o primeiro-ministro. E tenho em lugar de destaque na minha casa do Massachusetts, numa moldura, a camisola assinada que os jogadores me deram depois da vitória no Europeu. Mas há outro aspeto. Se queremos ter um papel numa comunidade, temos de saber de que é que as pessoas falam, o que é que lhes interessa. E o futebol é uma paixão tão grande que seria impossível ligar-me à sociedade portuguesa sem gostar de futebol. 

Quando se passa pela embaixada americana, vê-se uma espécie de fortaleza, superprotegida e vigiada. Pode descrever, a quem nunca lá entrou, como é o interior?

Se acha que a nossa embaixada em Lisboa é uma fortaleza então vá a uma do Médio Oriente. Todas as embaixadas americanas são construídas assumindo que a América é hoje um alvo. E um embaixador na Europa ocidental é tanto um alvo como um embaixador no Médio Oriente. Havendo esse perímetro de segurança, se transpuser esse muro o que vai encontrar é americanos e portugueses a trabalhar juntos. Pessoas que gostam umas das outras. Também vai descobrir que a espinha dorsal de qualquer embaixada é o staff local. Os americanos vão e vêm, os funcionários de cá estão há 20, 30 anos, sabem tudo e nós confiamos neles.

E como é o espaço lá dentro?

A paisagem é muito bonita, há muitas flores, terrenos para passear e uma piscina para os funcionários levarem os filhos no verão. É um sítio muito bonito. Mas devo acrescentar que enquanto cá estive nunca quis ficar só na embaixada, tentei sair para lá dos muros tanto quanto foi possível.

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