20/9/18
 
 
Mário João Fernandes 27/04/2018
Mário João Fernandes

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Macron, french kissing in Washington?

Mais do que a coreografia dos beijinhos, contam os resultados. O adagio do pas de deux EUA-UE começa hoje

A sra. Merkel chega hoje a Washington para a segunda visita a Trump. A primeira ficou marcada pela absoluta falta de empatia entre os dois, pela ausência de uma agenda comum e pelo exacerbar dos pontos de desacordo: orçamento NATO, alterações climáticas, comércio internacional, acordo nuclear com o Irão,…

Merkel já não goza, como no tempo de Obama, do estatuto de única representante credível da UE junto dos EUA. As vicissitudes do início do quarto mandato como chanceler tornaram evidentes a fraqueza da GroKo, a grande coligação feita em estado de necessidade e de nenhuma esperança entre uma CDU que tem de prestar contas à CSU e um SPD que teme a morte política às mãos da coligação.

Par contre, do lado francês, a juventude e o activismo de Macron fizeram da recente visita a Washington uma montanha russa de expectativas, elevadas no início, mitigadas aquando do discurso perante as duas câmaras do Congresso, reduzidas a quase nada na conferência de imprensa final.

Ao contrário de Macron, Merkel chega a Washington envolta em baixíssimas expectativas, o que é o seu terreno ideal. Haverá menos beijinhos e certamente menos aparatosos, ou não haverá beijinhos de todo. Mas poderá haver uma solução negociada para duas das questões mais ruidosas do programa eleitoral de Trump: comércio com a UE e aumento do orçamento de defesa da Alemanha. Nos últimos dias houve por Bruxelas um acelerar das negociações comerciais e há já uma base negociada e equilibrada que permitirá a Trump anunciar uma vitória política, com uma diminuição das tarifas de importação dos automóveis produzidos nos EUA. Esta “vitória”, que pesa pouco na balança comercial entre os EUA e a UE, será capitalizada, em ano de midterm election, nos estados do rust belt.

Se for este o preço a pagar pelo evitar de uma guerra comercial, a sra. Merkel pagá-lo-á de bom grado. E poderá pagar já uma segunda prestação, anunciando um aumento significativo da despesa alemã com a defesa, com uma lista de compras que inclua equipamentos e tecnologias de origem americana. O doentio superávite do orçamento federal alemão tem margem mais do que suficiente para acomodar este aumento de despesa pública.

Será o bastante para a visita ser considerada um sucesso, para se retomar alguma normalidade nas relações EUA--UE e para Trump poder repetir ao mundo, sem consciência da origem da expressão, que conseguiu um New Deal e obrigou os alemães a pagar pela defesa.

Sobra a ameaça de Trump fazer implodir a 12 de Maio o acordo nuclear com o Irão. Macron propôs a Trump manter o acordo e acrescentar-lhe um protocolo adicional que alargasse a sua vigência para lá de 2025, limitasse a construção e o uso de mísseis balísticos e condicionasse a actuação regional de Teerão (Síria, Líbano, Iraque, Iémen...). Trump não terá mordido o isco de entrar em negociações infindáveis, mantendo o terrible deal. E Teerão e Moscovo desdobraram-se em declarações de recusa de qualquer alteração ao acordo existente, celebrado com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, a Alemanha e a UE.

Macron pode ter deixado Washington com uma boa dose de frustração. Mas até ao presente não há nenhuma proposta melhor para tentar convencer Trump a não denunciar o acordo com Teerão. Uma corrida nuclear no Médio Oriente, acompanhada pela denúncia por Teerão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, é o caminho mais curto para o apocalipse. Macron lembrou que não há planeta B. Resta saber se Trump tem um plano A.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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