16/11/18
 
 
Pedro Ferros 26/04/2018
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica dos políticos sem ética e do estranho caso da vergonha alheia!

Por alguma razão que nos escapa, Carlos César olhou para toda uma floresta luxuriante mas só viu e escolheufalar sobre uma pequena árvore: o seu correligionário Manuel Pinho

Provavelmente regressado dos CTT, onde terá sido reembolsado de uma qualquer viagem aos Açores paga com o subsídio de deslocação oportunamente recebido da Assembleia da República – e já devidamente confortado com a opinião quase unânime de que esse aberrante expediente é legal, inatacável e costumeiro –, Carlos César, usando da independência e distância que todo um percurso pessoal e familiar ligado à causa pública lhe permite, decidiu tecer algumas pesadas críticas sobre Manuel Pinho, anterior ministro do governo do seu partido.

Divagando sobre a ética alheia – matéria, aliás, relativamente à qual é reconhecidamente versado e exemplar –, César exprimiu a sua indignação pelo facto de os dados da investigação ao GES terem descoberto pagamentos ao insignificante Pinho de relativamente insignificantes quantias, se olharmos à grandeza do saco e aos restantes destinatários das prebendas.

Por alguma razão que nos escapa, César olhou para toda uma floresta luxuriante mas só viu e escolheu falar sobre esta pequena árvore que é Pinho.

Outros costumados moralizadores do sistema também teceram relevantes considerações sobre o estado da arte do saque aos cofres públicos, da fuga ao fisco, do peculato e da corrupção e dessa ocupação principal de vários agentes que vão ardendo na fogueira mediática que acumularam com a função de rapidamente enriquecer de forma ilícita cargos políticos instrumentais desta desbragada forma de vida.

É neste contexto que, dias antes e com o mesmo desassombro com que a espaços tanto diz verdades incómodas como também investe contra castelos de vento, ouvimos as declarações absolutamente lapidares de Ana Gomes sobre a percepção interna que esta tem sobre a qualidade das suas próprias instituições.

Indignou-se esta, confrontada com as mesmas notícias e factos, mais do que contra Pinho, contra o próprio PS, que segundo a própria se tornou um “instrumento de corruptos e criminosos”, mais advertindo para o facto de que “o PS não pode continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga”.

É muito curiosa e também desassombrada a óbvia diferença que se vê nas abordagens dos deputados César e Gomes.

Não é fácil, mas tentaremos traçar algumas aparentes linhas que separam a percepção ética dos factos e a postura dos referidos deputados perante esta questão fundamental – temos como certo que, para César, o nepotismo qua tale não é ilegal nem, porventura, sequer imoral onde não seja proibido – e, portanto, não é fácil, sem rir, perceber por que razão entendeu César dar esta (singular) reprimenda censória a Pinho.

É que, no cenário da referida investigação em que Pinho cai, não é fácil compreender este claro ataque ad hominem quando o primeiro-ministro do último governo PS e correligionário de César aparece envolvido de forma igual no mesmo fenómeno, sem uma palavra deste.

Talvez por isso faça sentido dissecar o mais que disse Carlos César sobre Manuel Pinho relativamente a quem disse que tal caso seria “incompreensível e lamentável” e concluiu, a acreditar-se na afirmação que a imprensa atribui a Carlos César, não que Pinho tenha ou deva ter vergonha; ou porventura que o PS, na confirmação de que os factos relatados são reais e criminosos, tem vergonha e deve um pedido de desculpas aos portugueses; ou numa atitude que deve ser da tal abstracção inclusiva que gira no meio como ética republicana, do humilde reconhecimento do seu papel de servidor público que, qua tale, como os demais políticos, que todos estão envergonhados com os indícios daquilo que parece saber-se e perante os seus eleitores lhe devem a satisfação política das tais desculpas e do repúdio intransigente de tais actuações. Esta seria a atitude expectável!

Aliás, Ana Gomes, neste especial conspecto e em Dezembro de 2017, já referia que: “O PS [deve] demarcar-se claramente desse tipo de comportamentos. A direção do partido e o partido, no seu conjunto, devem demarcar-se. Tem de haver um momento, e na minha opinião já devia ter havido — mas, se calhar, vamos ter de esperar que a justiça apure tudo o que há para apurar — para o próprio PS fazer uma introspeção de como é que se deixou tornar instrumento de um indivíduo com um projeto pessoal de poder, mas não só, de enriquecimento pessoal, tão nefasta e tão contrária àquilo que são os ideias e os valores socialistas. Esse é um trabalho de introspeção que o PS tem de fazer.”

Porventura no auge do seu poder introspectivo, saídos da ultrajante (mesmo que legal, seguramente iníqua) pouca-vergonha da duplicação dos subsídios das viagens reembolsadas, ao paladino da ética republicana não lhe aprouve uma palavra de condenação ou outra de introspectiva mea culpa.

César, pondo-se à margem da sua condição de correligionário de Pinho, militante e dirigente do PS, político, parlamentar e representante das regiões autónomas, não tem um momento de catarse nem uma pequena admissão da culpa.

Note-se, na subtileza megalómana e delirante da sua reflexão, não é Pinho nem os políticos nem o PS quem deve envergonhar-se de isto acontecer: num espectacular volte-face, estas condutas, curiosamente, “envergonham o país”, ou seja, relativamente à pouca-vergonha instalada, acha César que estaremos perante um caso claro de provável vergonha alheia e que não são os agentes das iniquidades abjectas da classe dele mas, sim, os pobres governados que devem sentir-se envergonhados quando refere que “o país tem razões, neste caso como em outros que se comprovem, para se envergonhar com determinadas condutas”.

Há um problema de percepção óbvio e um grave transtorno de personalidade nesta construção do sr. César que parece olhar de cima para o Estado como se fosse uma espécie de dádiva divina ao seu governo que paira sobre a nação: é que não são os portugueses que devem sentir-se envergonhados pelo que os senhores fazem, são os senhores que têm de se sentir, mas não sentem, pessoalmente envergonhados perante os vossos governados por fazerem ou deixarem fazer, de forma silenciosamente cúmplice e acrítica, cair o país nesta pouca-vergonha terceiro-mundista em que nos tornámos.

Vergonha do país, por isso, só se for, e é, vergonha alheia!

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt

Escreve à quinta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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