20/9/18
 
 
Luís Menezes Leitão 24/04/2018
Luís Menezes Leitão

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A entente cordiale

Ao insistir num grau de formalização do acordo com Rui Rio em relação à descentralização e à negociação dos fundos com unitários, parece que António Costa resolveu mudar a linha de rumo do navio que comanda, atirando pela borda fora os partidos à sua esquerda

Ficou conhecida como “entente cordiale” a série de acordos celebrada em 1904 entre o Reino Unido e a França, em ordem a pôr fim aos conflitos que historicamente existiam entre esses dois países. A partir do momento em que Rui Rio ascendeu à liderança do PSD, este e o PS entraram igualmente numa fase de “entente cordiale”, formalizando agora um acordo para selar o bom entendimento que sempre existiu entre os dois líderes e que estes querem estender aos seus partidos. Os acordos incidem sobre matérias estruturantes do governo, como a descentralização, a posição portuguesa nas negociações com a União Europeia e o quadro de fundos estruturais do Portugal 2030.

A existência desses acordos não espanta, sendo normal a sua ocorrência entre os partidos do arco da governação. O que já espanta é o grau de formalização que os mesmos tiveram. Efectivamente, António Costa e Rui Rio assinaram os acordos na residência oficial do primeiro-ministro, o que praticamente eleva o PSD à posição de parceiro do governo. Os acordos da geringonça foram, pelo contrário, assinados no parlamento separadamente entre o PS e os três partidos de esquerda. E nunca passaram de acordos de incidência parlamentar, sendo claro para todos que o PS governa sozinho, não assumindo os restantes partidos de esquerda qualquer responsabilidade na governação do país.

Parece assim que António Costa resolveu mudar a linha de rumo do navio que comanda, atirando pela borda fora os partidos à sua esquerda. Na verdade, já se verificou que Rui Rio está disponível para entendimentos, pelo que não se compreenderia que o PSD não garantisse a passagem do próximo Orçamento do Estado com a sua abstenção. Afinal que sentido faria rejeitar o Orçamento do Estado do país, depois de se ter celebrado um acordo em relação às negociações dos orçamentos comunitários? Não admira, por isso, que Marcelo Rebelo de Sousa, que se tinha mostrado preocupado com os riscos de não aprovação do Orçamento, tenha vindo saudar entusiasticamente este acordo.

António Costa ganhou assim a aposta que fez, de que depois de ter tirado o PSD do governo, fazendo a geringonça, este acabaria por voltar à mesa das negociações e viabilizar um governo PS, apesar de o PS ter tido menos votos que o PSD. Enganou desta forma os seus parceiros da geringonça que agora aparecem com propostas cada vez mais radicais para segurar o seu eleitorado, mas já perceberam, em virtude dos resultados das últimas autárquicas, que a geringonça foi um mau negócio que os empurra para a derrota.

Quanto a Rui Rio, o acordo que celebrou mostra que o seu combate político se está a fazer antes na esfera interna, procurando sobreviver à derrota que tem por segura nas legislativas, para depois derrotar o PS nas autárquicas, o que no limite poderia levar então à queda do governo. Foi o que fez Durão Barroso em relação a António Guterres, e Rui Rio procura seguir-lhe os passos. Mas os protagonistas são muito diferentes e esta ausência de oposição ao governo pode levar a um forte crescimento do CDS de Assunção Cristas, que agora é deixado sozinho na oposição. Ser visto como muleta do governo não é seguramente a melhor estratégia para o PSD.

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