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PSD. Acabou o discurso de defesa do défice e da banca?

PSD. Acabou o discurso de defesa do défice e da banca?

Miguel Silva Margarida Davim 16/04/2018 08:51

Rui Rio tem afirmado que quer o país com superavits. Mas os seus principais apoiantes defendem que o governo devia manter a meta de 1,1% para 2018. E, ontem, o líder do PSD veio pedir aumentos de 1,4% para a Função Pública e questionar os 8 mil milhões injetados na banca

Quem estava à espera de ouvir as ideias de Rui Rio, ficou a conhecer ontem uma surpreendente: a defesa de aumentos na Função Pública e o ataque às injeções de capital na banca. O líder do PSD acha que os funcionários públicos devem ser aumentados em 1,4% – o valor da inflação – em 2019, ano de eleições legislativas. E critica a opção de dar dinheiro aos bancos em vez de subir os salários.

Rui Rio aproveitou, ontem, o discurso de encerramento do congresso da JSD para questionar o facto de o governo ter injetado 8 mil milhões de euros na CGD e no Novo Banco, quando Mário Centeno tem dado sinais de não ter 300 milhões para “aumentar os rendimentos da Função Pública”.

CDS regista flic flac “É o discurso mais bloquista que já ouvi no PSD”, diz ao i um crítico da liderança, que não entende como é que Rui Rio pode questionar as injeções de capital na banca. “Qual era a alternativa? Deixar a banca afundar?”, pergunta o social-democrata que teve funções de responsabilidade no tempo de Pedro Passos Coelho. “Rui Rio é muito mais populista do que as pessoas pensam”, remata.

“É um flic flac. Não parece ser o mesmo partido que esteve connosco no governo”, comenta um dirigente centrista, que prefere não ser identificado.

A mudança de posição em relação ao PSD de Passos Coelho é grande. Basta pensar que António Costa só conseguiu viabilizar a solução para o Banif com os votos da bancada do PSD (à esquerda não tinha apoio para isso).

O único ponto de contacto com a anterior liderança nesta posição sobre a banca tem que ver com a CGD. Rui Rio questionou a recapitalização da Caixa e Passos também achava exagerada a injeção de capital de cinco mil milhões de euros.

Rio exigiu conhecer os credores da CGD que “ficaram com o nosso dinheiro”, retomando aquele que foi um dos ‘cavalos de batalha’ do PSD na comissão parlamentar de inquérito à Caixa. Mas a exigência deve cair em saco roto, porque, apesar de os tribunais terem dado razão à pretensão do PSD e do CDS, a comissão esgotou o seu prazo antes de as sentenças terem transitado em julgado e já nada obriga a CGD a revelar a lista dos seus devedores

pensamento estratégico O discurso sobre os aumentos na Função Pública só apanhou, porém, de surpresa quem não conhecia o pensamento do economista que desenhou a estratégia de Rui Rio.

“Na Função Pública, é preciso olhar para as carreiras. Os funcionários têm que ter aumentos se a economia crescer. Isso parece-me óbvio. O crescimento deve remunerar e deve-se refletir na contribuição que as pessoas deram”, afirmava no início do mês ao “Observador” o economista Fernando Alexandre, que acha que António Costa deve ser chamado a explicar a opção de não aumentar salários.

“Acho errado que se diga que não há aumentos dos salários dos funcionários públicos. É preciso explicar isso. Por que é que não há? Por que não merecem? Não deram contributo nenhum para a recuperação? É porque já tiveram as reposições dos salários? Se a economia estiver a crescer, por que não?”, questionava Fernando Alexandre.

Ao lado do BE e do PCP A estratégia fez mesmo o líder parlamentar de Rio, Fernando Negrão, admitir à Antena 1 apoiar propostas do BE e do PCP na defesa de aumentos salariais para a Função Pública.

“Se verificarmos que, em termos de economia, existem condições para esse efeito, e se houver da parte do governo vontade para iniciar uma reforma do Estado, acho que há uma hipótese provável de acompanhar os partidos [da esquerda] no aumento dos vencimentos”, afirmou Negrão depois de se se saber que Mário Centeno estará contra esses aumentos.

O alinhamento dos próximos de Rui Rio com o BE também se faz em relação à meta do défice inscrita por Centeno no Programa de Estabilidade de 2018. Dois dos principais apoiantes de Rio juntaram-se ao BE na defesa da manutenção do défice que estava previsto no Orçamento para 2018.

“Na minha opinião seria preferível manter o défice no 1,1% como estava previsto”, afirmou à Antena 1 o ministro sombra de Rui Rio para a Solidariedade, Silva Peneda. “Do meu ponto de vista, o défice deve ser controlado, não se deve fazer asneiras, mas não tem nenhum sentido que seja a primeira prioridade”, defendeu Manuela Ferreira Leite na TVI-24.

Baixar o IRC Mas se os bloquistas gostavam de ver esses cerca de mil milhões de euros de diferença aplicados em investimento público, Silva Peneda e Manuela Ferreira Leite preferiam usar a folga para baixar os impostos às empresas.

“O problema da dívida resolve-se através do crescimento económico, não é através do controlo da despesa, e o crescimento económico resolve-se através do alívio de carga fiscal para as empresas”, argumentava Silva Peneda. “Há folga para baixar impostos às empresas sem afetar as contas do Estado”, notava Ferreira Leite.

Duarte Pacheco, outro apoiante de Rio, diz, contudo, não ver qualquer incongruência nas opções políticas do líder social-democrata e até recorre ao mundo das empresas para justificar a estratégia.

“Quando uma empresa passa por dificuldades, muitas vezes tem de cortar benefícios e até salários aos funcionários. Quando as coisas correm bem, é normal que isso se reflita na massa salarial dos funcionários”, defende o deputado do PSD, que acha que “o governo não pode dizer que está tudo ótimo, mas que não pode aumentar os funcionários públicos, quando eles têm os salários congelados há dez anos”.

 

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