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Seis meses depois do fogo, Luís, Jorge e Pedro tentam recuperar o que perderam

Seis meses depois do fogo, Luís, Jorge e Pedro tentam recuperar o que perderam

Diana Tinoco Marta F. Reis 15/04/2018 10:01

Naquele domingo de outubro, as chamas avançaram sem piedade. Causaram a morte a 49 pessoas, destruíram quase 2000 casas de primeira habitação, devastaram perto de 250 mil hectares e afetaram centenas de empresas. Luís, Jorge e Pedro perderam muito, como tantos outros, e contam as suas histórias. Depois da euforia de que tudo ia ficar bem, a burocracia pesa. O futuro é incerto e nem tudo dá para reaver

Luís – 50 anos, Travanca de Lagos

“Aquilo que herdamos não é nosso, é para os nossos netos. É só isso que me faz não abandonar a região” 

"Exmo. Senhor. Chamo-me Luís Falcão de Brito, técnico agroflorestal, 50 anos. PERDI TUDO no fogo de 15 de outubro. Sinto que estou a ser tratado pelos nossos governantes como um criminoso.” Começa assim uma carta que Luís dirigiu a Xavier Viegas, um dos investigadores que tem estudado os incêndios em Portugal e ainda está a trabalhar num relatório sobre a tragédia de outubro. Entre as 20 horas de 15 de outubro e a meia-noite de 16 de outubro, o fatídico domingo em que as chamas tornaram a matar em Portugal e consumiram quase 250 mil hectares, Luís perdeu 70 hectares de floresta, 30 hectares de olival e quatro casas. Ajudou a salvar outras dez e a socorrer populares, só com os seus meios. 

Todas as suas terras estavam limpas, “todas eram geridas, todas arderam”, insiste na carta, com que quis ajudar a repor a verdade até perante um relatório da comissão independente de peritos que acredita que dá “uma no cravo e outra na ferradura”, para não comprometer ninguém. “Nada do que aconteceu em Oliveira do Hospital teve a ver com gestão florestal, mas sim com o facto de ‘levarmos’ com um fogo que não podia ter começado, que devia ter sido apagado à nascença ou controlado na primeira hora.”

Seis meses depois, é esta a convicção de Luís. Nascido e criado em Travanca de Lagos, no concelho de Oliveira do Hospital, 15 de outubro era um domingo normal, em que o empresário agroalimentar estava a trabalhar no escritório ali perto, em Lagares da Beira. Explorava um olival familiar cujos primeiros registos remontam a 1870, quando a sua tetravó chegou a ganhar um prémio para o melhor azeite numa exposição em Lisboa, lembra. Além de oliveiras centenárias, tinha outras em produção e algumas árvores jovens que só começariam a dar azeitona daqui a quatro anos. Numa noite desapareceu tudo, sem que tenha chegado a ver bombeiros debruçarem-se sobre os seus terrenos. 
“Apercebi-me de que o fogo estava a aproximar-se. Fui pegar num trator e equipá-lo com um depósito de água. Achei muito estranho não haver bombeiros, quando no concelho há duas corporações”, conta Luís. 

Os corpos estavam mobilizados para Seia, onde as chamas chegaram mais cedo e, quando quiseram voltar, parte dos carros já não encontraram passagem. “Percebi logo que não ia ser Pedrógão, que ia ser infinitamente mais trágico a nível económico. Só na zona de Oliveira de Hospital, os prejuízos são dez vezes superiores”, diz o empresário.

Com experiência em gestão florestal e incêndios, Luís passou a noite de povoação em povoação num trator cabinado e vidros temperados, a tentar manter a calma. A certa altura arriscou percorrer dois quilómetros debaixo de fogo para ir de Lagares da Beira até casa, em Travanca de Lagos, onde estavam a mulher e os filhos. “Fui devagarinho. Quando cheguei queimei as mãos no interior do trator ao encostá-las aos vidros, estavam em brasa mas não partiram.” Se tivessem partido, não teria resistido, mas admite que teria tornado a fazer o mesmo para ir saber da família e proteger a sua casa. O filho mais velho, de 13 anos, passou boa parte da noite com a mãe apagar as fagulhas que lhes caíram no jardim. Luís passou a noite a apagar fogos.

Agora que o tempo vai passando, não sente melhorias, apenas a revolta e a sensação de abandono a acentuar-se. Entre o olival carbonizado e a área florestal destruída, estima um prejuízo na casa de um milhão de euros, quando os apoios abertos pelo Estado para agricultores iam até 5 mil euros – abrangeram cerca de 20 mil proprietários. “O governo decidiu investir 5 mil euros em pequenos projetos e gastou 60 milhões de euros, e quem vive mesmo da agricultura não recebeu nada. Não há seguros contra incêndios em terrenos agrícolas e floresta, não temos outro meio de compensação”, diz.

Luís fez um projeto para recuperar o olival com financiamento do PDR2020. Rondava os 300 mil euros, mas como a comparticipação é de 50% e não tinha 150 mil euros disponíveis, reduziu o plano a metade do terreno. Mesmo assim, só foram aprovados 30 mil euros, sem explicação, acusa, lamentando também que, em todo o processo, nunca lhes tenha sido disponibilizada, por exemplo, ajuda técnica por parte do Ministério da Agricultura para encontrar soluções para recuperar os projetos agrícolas. Não perdeu o lagar, que divide com uma sociedade, mas para poder continuar a usá-lo tem de comprar azeitonas fora da região e o projeto fica desvirtuado, além de encarecer. Este ano, a campanha que terminou em janeiro foi feita com azeitonas do Alentejo e Trás-os-Montes. “Acho que vou ter de desistir e não aceitar as verbas. Podia pôr as terrasà venda e ir refazer a vida noutro lugar, até neste ramo do azeite, que está a crescer em países como a Austrália. Tenho um problema de consciência: costumava dizer antes do fogo que aquilo que é herdado não é nosso, é para os nossos netos, e isso está a impedir-me de abandonar a região.”

Depois do fogo veio uma fase de euforia em que acreditou que ia haver apoios. Nos últimos tempos, aumentou apenas a indignação com o futuro hipotecado e a incompreensão de como é que os avisos meteorológicos não foram levados mais a sério e os meios não foram reforçados. “O Estado falhou no incêndio: se eu sabia que havia condições meteorológicas de risco, até com a passagem do furacão Ophelia, muito mais saberia a ministra da Administração Interna”, diz.

Avançar contra uma queixa-crime contra governantes é uma das hipóteses, além de uma eventual queixa coletiva através da associação de vítimas de incêndios de Midões. Grande parte dos seus terrenos ainda mantêm as árvores de pé, negras, a apodrecer. “Os madeireiros não têm onde entregar árvores. Vão cortando pequenas parcelas e levam a algumas fábricas; em grandes terrenos, não há hipótese.” 

E agora que os olhos parecem estar no futuro, diz não perceber as regras para limpeza das matas e corte de árvores, que acredita que contribuirão para mais vegetação rasteira em redor das casas e maior risco – aquela que foi “a única parte assertiva do relatório da comissão de peritos”, constata. A interpretação é só uma: “As pessoas foram assustadas pelo governo, mas parece--me que fazem estas leis para se protegerem de eventuais queixas-crime, para dizerem ‘isto ardeu em outubro devido ao furacão e porque as áreas estavam sujas’. Isto ardeu por incompetência”, lamenta.

Pedro – 42 anos, Bobadela

“Fica a memória, a história desapareceu”

Como todos os domingos, Pedro, os irmãos e as famílias de cada um estavam a jantar em casa dos pais junto à aldeia de Bobadela, em Oliveira do Hospital. “Calhou estarmos cá, se não tinham morrido aqui os dois.” As memória de 15 de outubro ainda estão bem vivas. Deviam ser umas 19 horas quando a sirene começou a tocar, aflita, conta Pedro, de 42 anos, funcionário de uma IPSS local. 

Até por ter sido bombeiro, percebe bem as diferenças. Quando é mais alternado, é um fogo normal. Naquele dia era diferente. Foi ao quartel, em Vila Nova de Oliveirinha, ver o que se passava e deu com uma conhecida em pânico, acabada de chegar de Coimbra. “Só dizia que ia ser pior que Pedrógão e que já não saía dali.” 

Determinado a trazer-lhe o jantar mais tarde, Pedro regressou para junto da família. Ainda jantaram todos até o sino de Bobadela começar a tocar a rebate. “Quando viemos cá fora já havia fogo por todo o lado, bolas de fogo. Durante os anos em que fui bombeiro nunca tinha visto nada assim.”

Os pais e o resto da família fugiram para o centro da aldeia e Pedro ainda tentou salvar os animais, sem sucesso. “As ovelhas tornaram a entrar para dentro do curral com o fumo e morreram queimadas.” Dali seguiu para Vila Nova de Oliveirinha, onde vivia no primeiro andar de uma casa da sogra enquanto andava a recuperar uma casa antiga que comprara para si, a mulher e o filho de 12 anos. “Mal cheguei disseram-me que já tinha as madeiras de casa a arder. Pensei que fosse a minha, mas era a da minha sogra.” 

Os bombeiros estavam ocupados com uma casa em chamas e foi procurar ajuda ao quartel. Encontrou uma antiga colega com um carro e pediu-lhe ajuda. Mas quando estavam a começar a apagar o fogo que lhe entrara pela garagem, tiveram ordem para ir para outra ocorrência. “Ainda perguntei: já me ardeu tudo na Bobadela, vão deixar arder aqui também? Fiquei sozinho, sem nada, a ver a casa a arder”, lembra Pedro, uma revolta que, por mais que o tempo passe, não vai embora. “Um dia fui lá ao quartel e perguntei ao comandante porque é que estando os bombeiros num sinistro, abandonam o sinistro e a casa arde? Disse-me que não tinha resposta.” Pôr a associação em tribunal, não quis: “Achei que não era a associação que tinha culpa da incompetência.”

Como é que se recupera? Pedro fala da ajuda que recebeu depois de ficarem apenas com a roupa que tinham no corpo, contra o blá-blá que se ouve na televisão: a irmã deu-lhes guarida, ofereceram-lhe quatro ovelhas, os colegas ajudaram com um computador e uma máquina de lavar. “Houve uma fase em que comecei a pensar em desistir de tudo, mas depois penso na minha família, no meu filho de 12 anos, na minha mãe. Se desistir das coisas, pior para todos. É andar para a frente, com um pontapé daqui e ali”, resume. 

Apoios do Estado, ainda não viu. “Fui à Segurança Social na altura por causa dos meus pais e só me perguntaram quanto é que eles gastavam em água por mês, em gás, em medicamentos. Só lhes respondi: ‘Está-me a perguntar o que é que eles gastavam quando tinham posses? Devia perguntar de que é precisam agora, que não têm nada.’ Virei as costas e vim-me embora.”

Se os mais novos ainda aguentam, para os mais velhos é duro. O pai, de 79 anos, faleceu na véspera de Natal, de problemas de coração, mas Pedro acredita que o que viveram, também com o diagnóstico de doença na família, foi um abalo demasiado forte para alguém já com alguma idade. 

Com forças para trabalhar e refazer o que conseguir, Pedro tem pena do que já não conseguirá reaver. Desde os 16 anos que estava a construir, na casa dos pais, uma espécie de museu com a história da freguesia, a partir de peças cedidas pelos mais velhos ou compradas. Começou tudo em criança, quando o avô paterno, pastor e moleiro, estava acamado. Todas as manhãs ficava junto à cama dele a ouvir as histórias, que com os anos foi complementando com livros antigos ou uma coleção de chocalhos e campainhas que já ia nos 600 exemplares. ”Andei lá esta semana a remexer e não resta nada. Das ferramentas, só aparecem uns ferritos. Das grafonolas e rádios, só o que era metálico, as bobinas de cobre. Tinha tudo registado num caderno para um dia catalogar e agora olhe: fica a memória, a história acabou.” O fogo parece só ter poupado uma escultura que mandara fazer num penedo do terreno, em homenagem ao avô pastor, ladeado por uma ovelha e um cão. “Passou do lado esquerdo e do lado direito e o meio ficou verde. São coisas que não se explicam.” 

Jorge – 41 anos, Oliveira do Hospital

“A tragédia ainda vai ser maior. Aqui não vai arder mais nada, mas não há sombra, os rios estão poluídos, vai haver muito menos gente a vir cá no verão”

Na manhã de 15 de outubro, Jorge e o irmão, praticantes de enduro, saíram de casa cedo para os treinos de mota. Foram na direção da serra da Estrela e quando pararam no bar dos bombeiros, em Loriga, perceberam que o dia se estava a pôr complicado. Calhou estarem lá quando chegou a comunicação de que uma projeção de um fogo em Seia tinha iniciado um incêndio perto de Torrozelo. Sem saberem, seria a propagação dessas chamas descontroladas e dezenas de fagulhas que, ao final do dia, viriam a consumir-lhes as duas empresas de família na zona industrial de Oliveira do Hospital.

Passados seis meses, hoje não é certo como irão recuperar. Jorge Gouveia, 41 anos, aponta para prejuízos na casa dos 2,5 milhões de euros na Construções Gouveia e Filho e na Carpintaria Gouveia e Costa. Ardeu tudo, dos armazéns a uma dezena de carros, conta o empresário, natural mesmo da cidade de Oliveira do Hospital. Os seguros que tinham só cobriram danos no edifício. “Como foi uma situação de calamidade... são as letrinhas pequeninas dos contratos.”

Jorge e o irmão António só se aperceberam de que tinham perdido o negócio na madrugada de segunda-feira. Depois de saberem da sucessão de incêndios na manhã de domingo, iniciaram o regresso a casa, parando em algumas povoações onde ajudaram conhecidos e familiares a defender as suas casas, com o cenário a tornar-se cada vez mais assustador à medida que as horas passavam. “Havia estradas cortadas pelo fogo, com as árvores caídas”, recorda Jorge, que não esquece o pânico nas pessoas, os feridos, o barulho da destruição. Ao passarem por um aviário em chamas, viu os pintos a arder e rebentarem, um som que nunca vai esquecer. E da casa do sogro, em Pinheiro dos Abraços, para Oliveira do Hospital pensou que a tragédia de Pedrógão estava mesmo a repetir-se. “A certa altura, num troço da estrada, só vimos carros parados, todos carbonizados e com os faróis acesos. Pensei que estariam ali pessoas.”

No meio do caos, não havia comunicações nem forma de perceber como estavam as coisas na cidade, que veriam cercada por fogo como não havia memória. Só pelas 3 horas da madrugada decidiram ir à zona industrial e perceberam que nada seria salvo, inclusive o negócio na família há 30 anos. Oliveira do Hospital foi o segundo concelho com mais prejuízos empresariais nos fogos de 15 de outubro depois de Oliveira de Frades, com cerca de 60 milhões de euros contabilizados pelas empresas – parte deles ficaram naquele perímetro.

Ainda a pensar em como recuperar, Jorge e o irmão estão desde o final do ano passado à espera de desenvolvimentos da candidatura ao apoio do Estado, o que, dada a dimensão dos prejuízos, tem exigido diferentes passos e relatórios. 
O empresário lamenta que o “Estado burocrático” não tenha em conta que quanto mais tempo estiverem sem operar, mais oportunidades perderão de se recomporem. “Se houve o compromisso de apoio à empresa, deveria ter sido logo atribuído um apoio mínimo.” Conseguem fazer alguns trabalhos pela construtora, mas a carpintaria onde fabricavam todo o tipo de mobiliário está completamente parada. “Os nossos clientes acabam por não poder ficar à espera indefinidamente. Esta é uma zona onde há pouco investimento, a interioridade é muito grande e a concorrência acaba por ficar com o espaço.”

Jorge partilha que basta andar por Oliveira do Hospital para perceber que as marcas vão durar muito tempo e que “parte da tragédia ainda está para vir”: na Páscoa já houve menos movimento, e no verão, que era uma altura que trazia algum negócio e procura à região, Jorge teme uma grande quebra, o que diz já se sentir em muito comércio. “Arderam muitas casas de segunda habitação. Os rios estão poluídos, a água está negra e cheia de detritos, para não falar que estão contaminados. Não há uma sombra.” 

E depois há marcas ainda mais profundas, como naqueles que perderam familiares, e a ansiedade que ficou, em particular nos mais novos. Jorge fala de dois irmãos que perderam a vida a proteger animais e como, quando estava com o irmão a defender a casa do sogro em Pinheiro dos Abraços, também teve medo. “Quando cheguei a casa, o meu filho de cinco anos disse-me ‘estás vivo’, são coisas que não se esquecem.” Na última reunião na escola, a educadora partilhou que algumas crianças, quando lhes é pedido para fazerem um desenho livre, ainda hoje fazem casas e florestas em chamas. “No agrupamento de escolas com mais de 2 mil alunos havia um psicólogo. Hoje são quatro e, mesmo assim, têm muito trabalho.” 

 

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