16/11/18
 
 
Filipe Baptista 12/04/2018
Filipe Baptista

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Portugal na linha da frente

Devemos enaltecer e orgulhar-nos da coragem dos tripulantes de cabina portugueses da Ryanair. Colocaram o dedo na ferida e disseram basta a uma situação de exploração e de clima intimidatório

A confirmar-se a notícia, Portugal pode, uma vez mais, dar um exemplo de grandeza e de liderança numa Europa que nos últimos anos parece esquecida dos seus valores fundamentais. E logo na véspera do dia 25 de abril, uma data histórica e não apenas para os portugueses, mas para muitos outros povos que durante anos lutaram pela liberdade e dignidade, contra a opressão das ditaduras.

O motivo é uma reunião dos sindicatos europeus dos tripulantes de cabina, convocada para Lisboa na sequência da greve dos tripulantes da Ryanair portugueses. Em cima da mesa está a possibilidade de uma greve europeia conjunta para defender os direitos (ou a falta deles) dos funcionários dessa empresa.

E comecemos precisamente por aí, pela classe dos tripulantes de cabina. O glamour que muitas vezes se associa a esta profissão esconde muita coisa. Desde logo, um grande desgaste físico devido às constantes mudanças de fuso horário e variações de pressão. Ao que se juntam descansos mínimos, semanas que podem ir às 60 horas de trabalho e, como se isto não bastasse, a grande dificuldade de conciliação da vida profissional com a vida familiar. 

Já lá vai o tempo em que a hospedeira ou o comissário de bordo eram boas profissões e sinónimo de glamour. Hoje, os tempos são outros. Já não há hospedeiras nem comissários - são simplesmente tripulantes de cabina e o trabalho não tem nada a ver com o de antigamente.

Voar, hoje em dia, já não é um privilégio nem está apenas ao alcance de um pequeno grupo de pessoas. 

Hoje, já ninguém se veste a rigor para viajar em executiva. Muita gente desloca-se para o aeroporto como se de um terminal rodoviário se tratasse.

A indústria massificou-se e a globalização deu um empurrão. O resultado foi uma clara degradação do serviço, a sobrecarga das horas de trabalho e o corte de muitas das regalias que grande parte do pessoal de bordo tinha.

Esta massificação abriu espaço às low-cost, as quais beneficiaram de dois fenómenos: por um lado, a procura cada vez maior de viagens (resultado do aumento do poder de compra dos europeus), e, por outro, uma crise de emprego severa nas camadas mais jovens (e mais bem qualificadas da Europa), que encontraram na aviação civil a oportunidade de um primeiro emprego.

À medida que as low-cost foram surgindo (que nem cogumelos) e as principais e tradicionais empresas de aviação europeias se foram adaptando ao novo modelo de negócio, os direitos dos tripulantes de cabina foram sendo esmagados e diminuídos. Esta foi a fórmula recorrente em todas as companhias e a principal linha de gestão para dar competitividade às empresas.

O resultado ficou à vista, e a par da exploração desta classe, aquilo a que assistimos (não apenas nas low-cost) é à degradação do serviço, tripulações diminuídas, desgastadas, e constantes problemas na gestão das rotas.

Por motivos profissionais faço, há cerca de 17 anos, milhares de milhas por ano em aviões e constatei todo este fenómeno. Apenas por duas ou três vezes voei em companhias low-cost e aquilo a que se assiste é a uma definição moderna de escravatura e um risco sério para a segurança dos passageiros.

Devemos enaltecer e orgulhar-nos da coragem dos tripulantes de cabina portugueses da Ryanair. Colocaram o dedo na ferida e disseram basta a uma situação de exploração e de clima intimidatório. Os contratos de trabalho que assinam e que são obrigados a cumprir são vergonhosos, imorais e, em alguns casos, inconstitucionais.

As pressões a que estão submetidos pelas chefias envergonham qualquer capataz de uma plantação de algodão do séc. XIX. E a incompreensão e a falta de apoio que esta classe tem, um pouco por todo o lado, obriga a que milhares de homens e mulheres sejam explorados diariamente.

Fiquei genuinamente feliz por ver que o bater do pé dos tripulantes portugueses despertou, em primeiro lugar, outros colegas de outras bases europeias, que se recusaram a fazer os voos dos grevistas (algo que, como se sabe, é totalmente ilegal). E mais contente fiquei quando me dei conta de que os sindicatos desta classe a nível europeu vão concentrar-se em Lisboa para definir uma estratégia de defesa conjunta.

Espero, honestamente, que no dia 25 de abril possamos assistir a uma tomada de posição a uma só voz, contra os abusos e pela defesa dos direitos dos trabalhadores.

Mais do que a defesa de uma classe, está em causa um exemplo para a Europa na defesa dos principais valores que nos fundaram e com Portugal na linha da frente. 

Escreve à quinta-feira

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