23/4/18
 
 
Ana Sá Lopes 12/04/2018
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

As famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira

A geringonça deixou de ser uma família feliz. Ou seja, nem todos os elementos que compõem a solução de governo são felizes.

Tolstoi abriu “Ana Karenina” com a famosa frase: “As famílias felizes são todas iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira.” PS, governo, Costa e Centeno são hoje uma família feliz. Funcionam como um governo de “minoria absoluta” – na expressão usada por Mariana Mortágua esta semana – e dão-se ao luxo de decidir sozinhos coisas como o défice de 2018 como se o lugar onde reside o poder real, o da maioria parlamentar, fosse dispensável.

Mário Centeno, o liberal que pragmática e disciplinadamente se sujeitou a negociar com BE e PCP, já percebeu que não precisa de continuar a ser disciplinado. Veja-se o artigo autoglorificador que saiu, na segunda-feira, no “Público”. Centeno já tem vida própria. Presidente do Eurogrupo, rosto do sucesso português fora de portas, já só lhe falta reproduzir o famoso discurso castigador dominante no governo Passos/Portas.

Em termos semânticos, estamos a assistir a algum déjà-vu. Não é o diabo, mas parece. Os membros infelizes desta família disfuncional são Bloco e PCP. Percebem a autossuficiência do governo que ajudaram a construir. Não podem quebrar, têm um caminho estreito até às legislativas de 2019. Se provocassem uma crise já, o risco de uma maioria absoluta do PS era enorme.

A vitimização de Centeno renderia milhões e os sucessos da geringonça, à luz dos eleitores, não são tão partilháveis como Bloco e PCP gostariam. BE e PCP são infelizes cada um à sua maneira. Há uma velha canção de Chico Buarque que explica este tipo de infelicidade. Chama-se “Você Vai Me Seguir”: “Você vai me seguir/ Aonde quer que eu vá/ Você vai me servir/ Você vai se curvar/ Você vai resistir/ Mas vai se acostumar/ Você vai me agredir/ Você vai me adorar/ (...) Você vai me cegar/ E eu vou consentir/ Você vai conseguir/ Enfim, me apunhalar/ Você vai me velar/ (...) E me ninar.”

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