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Alexandra Duarte 09/04/2018
Alexandra Duarte

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O caldeirão da Humanidade e o futuro

Foi do Corno de África que há cerca de 70 mil anos a nossa espécie, o Homo sapiens, saiu por esse mundo fora e colonizou os outros continentes. Agora a região volta a estar no centro das atenções, mas por outros motivos

O continente africano, após atividade sísmica intensa, evidenciou que está num processo de fragmentação ao registar-se a abertura de uma fenda ao longo de 60 kms, com cerca de 15 metros de profundidade e mais de vinte de largura. Segundo a comunidade científica, esta fenda confirma um processo de separação das placas tectónicas de África e da Península Arábica, que dará origem, provavelmente, a uma nova ilha no Oceano Índico. A ilha, que na prática poderá vir a ser um novo continente, será composta por países como a Somália, parte da Etiópia, o Quénia, a Tanzânia e parte de Moçambique. Um processo de que não veremos o resultado final, mas de que presenciamos o seu início e nos faz pensar na finitude da realidade tal como a conhecemos.

Ao ler os vários artigos que foram sendo publicados sobre esta alteração no Grande Vale do Rift, que se estende desde a Somália até Moçambique, não evitei um primeiro pensamento sobre os países afetados, nomeadamente os que se situam no Corno de África – a Somália e a Etiópia. Mais uma vez, por outra razão bem mais diversa, esta região volta a estar no foco das atenções, ainda que seja uma projeção para daqui a uma dezena de milhões de anos.

Se há zonas do mundo onde tudo acontece e nunca pára de acontecer é ali mesmo. Um território esquecido no momento do toque divino, mas que, ainda assim, esteve na origem da sociedade que somos hoje, enquanto humanos. Foi dali que, há cerca de 70 000 anos, a nossa espécie, o Homo sapiens, saiu por esse mundo fora, invadindo os outros continentes e colonizando-os. Existem duas correntes principais que descrevem como poderá ter ocorrido a colonização do Homo sapiens face às outras espécies que foram encontrando na sua caminhada global: uma refere-se à Teoria do Cruzamento das Espécies, em que à medida que esta espécie foi encontrando os neandertais, ou os Homo erectus (os primeiros situavam-se no Médio Oriente e na Europa, enquanto que os segundos na Ásia Oriental) interagiam na plenitude em que as duas espécies, com a miscigenação, acabavam por se fundir numa só; a outra não é tão pacífica, e descreve uma estratégia de ocupação de um território através da eliminação dos seus ocupantes, a Teoria da Substituição.

Parece que o caldeirão da Humanidade foi colocado naquela zona de África, permanentemente em ebulição e a transbordar. As relações frágeis que a Etiópia tem com a Somália e com a Eritreia impedem que a paz se instale entre estes países, subtraindo-lhes as forças para se ocuparem dos seus povos tão fustigados pela fome e pela guerra. Ainda recentemente foi emitido um relatório com projeções preocupantes sobre a fome na região do Corno de África, agravada pela seca severa que arruinou qualquer possibilidade de haver colheitas para alimentar as populações que já se encontram em situação de carência extrema. As perseguições milicianas continuam a ser uma realidade, ainda que já não sejam notícia. São povos abandonados à sua própria sorte, lutando por fronteiras desenhadas por outros e que fazem guerras por procuração, levando-os a tomar posições diametralmente opostas quanto à estabilidade regional. Uma estabilidade que depende de todos os Estados vizinhos e que a todos interessaria, mas, ao invés, é alimentado o conflito entre os mesmos, sem que estes se unam para um mesmo fim: a proteção das suas populações.

Ali o tempo tem outra medida. Se há 150 000 anos os nossos antepassados já aí estavam presentes e só 80 000 anos depois se lançaram numa aventura para descobrirem o que estava e quem estava à sua volta, então este tempo que medeia o nosso e aquele em que outra geografia nascerá da separação do Corno de África do continente africano será mais um grão de areia na ampulheta da História da Humanidade.

 

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