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MNE. A audição a que o ministro vai (e preferia não ir)

MNE. A audição a que o ministro vai (e preferia não ir)

Bruno Gonçalves Sebastião Bugalho 04/04/2018 08:45

Ontem deu-se o ensaio, hoje vai-se a jogo. Na comissão de economia, Santos Silva só respondeu (e ao de leve) à pergunta do BE sobre a Rússia. Ao CDS, recusou responder. E o PSD nem perguntou 

Atrasado 26 minutos e indisponível para tabus. Se na semana passada Augusto Santos Silva permaneceu distante dos britânicos nas acusações à Federação Russa, esta semana manteve-se longe dos britânicos no que à pontualidade diz respeito. Do fundo da comissão parlamentar de Economia, em que foi recebido ontem, precisamente às 15h26, a oposição expectante comentou mesmo, aí já com humor inglês: “Por menos que isto, um ministro demitiu-se em Westminster!”. Mas Augusto Santos Silva não é inglês - nem um lorde conservador -, não tendo, nesse sentido, tomado medidas tão drásticas perante o seu próprio atraso. Manteve-se tanto no cargo quanto na ambiguidade que o cargo exige - e lhe vai exigindo.

Uma promessa ao Bloco “Eu faço uma distinção clara entre o relacionamento económico e os direitos humanos”, foi a frase mais concreta com que o ministro dos Negócios Estrangeiros brindou ontem a comissão de economia sobre o assunto que atualmente circunde a sua pasta: a decisão de, contrariamente à maioria dos parceiros ocidentais de Portugal, não expulsar diplomatas russos em solidariedade com o ataque químico ocorrido em Inglaterra.

Augusto Santos Silva assegurou que uma “ordem internacional com regras” é aquilo que o governo pretende - e, de facto, um ataque químico em solo europeu, feito seja por quem for, representa uma clara violação do Direito Internacional.

“Não é por Portugal ter um relacionamento económico que vou deixar de ser exigente em matéria de cumprimento da lei internacional”, assegurou o ministro, sem se referir diretamente à Rússia.

Da feira de gado para a feira do livro Quando Luís Pedro Mota Soares, deputado do CDS-PP, procurou aprofundar a siberiana controvérsia, nada se deu. Mota Soares, ex-ministro, falou do “urso na sala” - a crise diplomática “sem precedentes” entre o ocidente e a Rússia de Vladimir Putin -, mas Santos Silva não lhe deu qualquer troco. “Nós sabemos que a diplomacia económica é muito importante e da relevância da feira do livro de Guadalajara, mas há temas que têm prioridade pela sua urgência política”, sublinhou Mota Soares, depois de ouvir Santos Silva elevar a importância da celebração do 10 de junho deste ano na costa leste americana (“com a presença do primeiro-ministro na promoção económica”, informou o MNE) e também a relevância da feira do livro de Guadalajara, cuja vertente comercial, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros, não será de descartar. Santos Silva puxava pela feira do livro, Mota Soares empurrava para Sergei Skripal. “Não podemos aceitar que o governo coloque Portugal numa situação de fragilidade”, insistia o centrista, apelando a uma clarificação do governo. E clarificação, nesta comissão, não houve. E, lamenta ao i o próprio Mota Soares, “havia um assunto bem mais urgente a debater” do que aqueles que o ministro preferiu. A justificação veio logo a seguir.

“A comissão competente - a dos Negócios Estrangeiros - aceitou a proposta que foi feita, de se realizar a audição sobre a crise diplomática com a Rússia amanhã, quarta-feira de manhã [hoje]. Não cometerei a indelicadeza a todos os outros grupos parlamentares de responder-lhe agora sobre o tema que será objeto dessa audição”, referiu Santos Silva, lembrando que já dissera que “sim” ao requerimento para uma audição “urgente” que o PSD lhe endereçara na semana passada.

Ainda ontem, o PSD optou por não colocar qualquer questão sobre aquele que admitiu, na voz do seu deputado Cristóvão Norte, ser “o assunto do dia”, na medida em que, para os sociais-democratas, o tema russo devesse ser devidamente abordado na comissão competente, hoje. “Não faremos nenhuma observação a respeito da crise diplomática com a Rússia e respeitaremos escrupulosamente o âmbito desta comissão [a de Economia]”, afirmou Norte.

Vinda que se tornou "inevitável" A ida do ministro, hoje, à comissão dos Negócios Estrangeiros tornou-se “inevitável”, sabe o i, depois de os deputados dessa comissão saberem que iria ontem à comissão de Economia. "O facto de ter vindo ontem ao parlamento falar sobre exportações, a meio de uma crise diplomática, fez com que não tivesse outro remédio que não vir hoje clarificar essa crise ao parlamento", evidencia uma deputada da oposição, ao i. E, ao que o i apurou, houve mais do que uma razão para o MNE ceder à pressão e vir fazer essa clarificação à Assembleia da República. Por um lado, porque a audição da sua secretária de Estado na comissão dos Assuntos Europeus foi parca em explicações sobre a não expulsão de diplomatas russos e, por outro, devido ao requerimento do CDS-PP, já com algumas semanas, para ouvir Santos Silva na comissão dos Negócios Estrangeiros sobre ataques cibernéticos, precisamente com origem russa. O ministro não se havia indisponibilizado para esclarecer essa controvérsia - desde que à porta fechada. Para amanhã, os ataques cibernéticos ficam na gaveta - e assim as portas da audição, por escolha do governo, abrem-se. Santos Silva será ouvido, contrariamente à sua inicial vontade, antes da reunião do Conselho Europeu focada nas relações diplomáticas com a Rússia e antes da Organização para a Proibição de Armas Químicas apresentar um relatório sobre o ataque em Salisbury contra o ex-espião Sergei Skripal. O

O pedido de espera para que “as autoridades russas tomem iniciativas que permitam superar esta crise”, aludido por Santos Silva antes do fim de semana de Páscoa, não se cumprirá. Hoje, terá mesmo de explicar porque não expulsou nenhum diplomata russo apesar de subscrever a probabilidade de a Rússia ter cometido um ataque químico em solo europeu.

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