12/11/18
 
 
Alexandra Duarte 26/03/2018
Alexandra Duarte

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Foi a última vez que “desandámos” os relógios?

Este pode ser o último ano em que tenhamos que andar e “desandar” os relógios que nos rodeiam: o de pulso, o do micro-ondas, o da sala, o do carro, o do telemóvel…

Todos os anos é a mesma coisa. Chega a primavera e lá temos nós de adiantar os relógios; chega o outono e lá temos de os atrasar. Entre o adiantar e o atrasar, ainda há quem se confunda com estas alterações e faça exatamente o oposto ao que é recomendado, criando a confusão nos seus primeiros dias até que se aperceba a quantas anda. 
Desde que me lembro que existem estes dois momentos no ano e recordo também a forma como os fui encarando à medida que fui crescendo.

Quando era mais pequena não tinha a noção da mudança de hora, até porque os meus horários não eram definidos por mim, mas, mais tarde, na minha juventude, ficava entusiasmada com aquele sábado em que se ganhava mais uma hora durante a noite, ficando a sensação que aquela noite contava a meu favor e do programa que tinha escolhido. Uma hora tinha muito valor nesse tempo… 

Depois vieram os filhos e aí comecei a questionar as razões de tal mudança e a sua utilidade. No meu pequeno mundo e das minhas crianças, este pequeno “desandar” de horas assumiu uma importância que derivava do transtorno que imprimia a todos nós. No outono, os dias ficavam subitamente mais pequenos e quando os ia buscar ao infantário já nem sequer apetecia ir para outro lugar que não fosse a nossa casa. De um dia para o outro, lá fora, a escuridão empurrava--nos para regressarmos diretamente a casa, sem paragens em parques infantis ou qualquer outro apeadeiro. Era um mês em que os dias eram, sem dúvida, pequenos, por imposição legal, e em que a nossa cabeça demorava um pouco mais a adaptar-se a esta visão noturna mais repentina. Normalmente, por altura das iluminações de Natal, já não resistia àqueles dias mais curtos e, se o tempo permitisse, já me aventurava com os pequenos a passear ao final do dia. A par disto, andava ali uma semana a acertar horários de deitar e de acordar (não havia muito a fazer nestes últimos…) e o primeiro domingo com as refeições era também um desafio. Mas a segunda-feira… essa doía! A hora de acordar era um reboliço e nunca tinham vontade de tomar pequeno-almoço. Pensava eu que seria pela alteração do horário.

Já a mudança de hora na primavera é sempre agradável porque regressam os dias mais longos, acompanhados do sol próprio da primavera, fazendo com que estejamos perante uma alteração “solar” que influi na nossa forma de estar mais expansiva e recetiva. Cada um de nós sente de forma diferente estas alterações e demora o seu tempo a incorporar o novo horário na sua rotina, o que tem a ver com o biorritmo de cada um. É-se afetado por uma hora a mais ou a menos, o que para muitos faz diferença.

Este pode ser o último ano em que tenhamos de andar e “desandar” os relógios que nos rodeiam: o de pulso, o do micro-ondas, o da sala, o do carro, o do telemóvel, etc… O tempo cerca-nos para nos relembrar da nossa finitude e, neste processo, até o peso de uma hora conseguimos sentir intensamente nos primeiros dias. Que o digam os mais novos e os mais idosos, que são os mais sensíveis a estas mudanças.

As razões que estiveram na origem deste procedimento já não encontram paralelo nos dias de hoje. Vejamos: a primeira vez que surgiu a ideia de se alterar as horas prendia-se com o aproveitamento da luz solar e ocorreu no séc. xviii, com Benjamin Franklin a dirigir-se aos parisienses, sugerindo que prolongassem o dia para pouparem na cera das velas. Efetivamente, a introdução de um novo horário aconteceu em 1916, em plena i Guerra Mundial, com a Alemanha a intentar um esforço de poupar energia, leia-se carvão, matéria-prima que era indispensável para outras produções mais emergentes no cenário de guerra em que estava envolvida.

A partir daí, e pelas mesmas razões avançadas pela Alemanha, que derivaram de um texto escrito por um britânico chamado William Willett, em 1907, intitulado “O Desperdício da Luz do Dia”, quase todos os países se associaram e comungaram desta nova disposição do tempo. Passado um século, 82 países ainda se mantêm com esta alteração e na União Europeia todos os Estados-membros cumprem esta norma para facilitar as relações entre si. À nossa volta, a Rússia, a Turquia e a Islândia há já algum tempo que dispensaram esta modalidade, alegando estudos que comprovam os efeitos nefastos sobre a saúde das pessoas, especificamente no que se refere ao stresse e ansiedade.
O Parlamento Europeu aprovou, em fevereiro deste ano, uma recomendação à Comissão Europeia para que sejam realizados estudos que verifiquem qual o impacto que a mudança da hora tem não só nos cidadãos, mas também nas relações entre os Estados-membros. As vozes críticas são cada vez mais audíveis e aludem a que o cidadão é sujeito a riscos de saúde que não são comparáveis com os benefícios económicos e políticos. Os riscos apontados são: variação de humor, dores de cabeça, perturbações no sono, irritabilidade, stresse, ansiedade… O corpo humano pode demorar até 14 dias a adaptar-se a esta alteração. Entretanto, pode vir a sofrer de falta de atenção, sono fragmentado ou dificuldades de memória. Precisamos urgentemente de pessoas bem-humoradas, saudáveis e de bem com a vida. Se para isso for necessário acabar com esta mudança de hora, acabe-se já com ela!

Escreve quinzenalmente às segundas-feiras

 

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