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De fora cá dentro. Simpatia e tolerância, menos atrás do volante

De fora cá dentro. Simpatia e tolerância, menos atrás do volante

Shutterstock Jornal i 25/03/2018 15:50

Houve quem indicasse a língua como principal dificuldade, outros a ineficiência e os sistemas disfuncionais. Uns garantiram que ficaram espantados com o facto de os portugueses não devolverem as chamadas, outros com os gritos em público – e houve ainda quem mencionasse que nunca percebeu o costume de se falar tanto para dizer uma coisa simples. Mas todos assinalam uma característica em comum: parece que os portugueses são mesmo simpáticos e tolerantes e o país é incrivelmente bonito

Tristan Walker
Especialista em SEO, Reino Unido

Tristan Walker é especialista em Redes Sociais e SEO, uma atividade que, em palavras mais portuguesas, diz respeito ao estudo e melhoria de motores de busca. Está em Portugal desde o ano 2000, e, tendo passado por diversas empresas, trabalha neste momento em Lisboa. “A língua foi, de longe”, aquilo com que teve mais dificuldade quando veio viver para Portugal, país onde se casou e teve os seus três filhos:a sua melhor experiência. O que ao início achou mais estranho foi as “pessoas gritarem alto em público durante uma conversa e acharem que isso é normal”, o que não invalida que considere os portugueses “extremamente simpáticos, muito amigáveis e tolerantes para com os estrangeiros”. No entanto, diz, “uns com os outros, os portugueses podem rapidamente ficar mal humorados”.

Tristan Walker considera que não há muita falta de civismo - “há 20 anos havia menos, mas tem-se tornado muito melhor” – mas afirma que, quando chega a altura de guiar, “o pior defeito dos portugueses”, é diferente. “É extraordinário que fora do carro, os portugueses sejam simpáticos e gentis. Mas, atrás do volante, tudo muda”, argumenta, considerando que a condução dos portugueses é “terrível, mesmo muito má”.

Sobre o custo de vida, o gestor afirma que em Lisboa ainda se vive “mais ou menos barato”, embora isso seja algo que “está a mudar rapidamente”. No entanto, fora de Lisboa, “Portugal é barato quando comparado com a maioria dos outros países da União Europeia” e  onde é possível “uma pessoa viver bastante bem como pouco dinheiro”.
Tristan considera que a gastronomia portuguesa é“uma das melhores da Europa em tudo o que seja relacionado com a comida (carne, fruta, vegetais, peixe, marisco, bolos e sobremesa)”, porque a comida portuguesa é “tão saborosa que uma pessoa não precisa de disfarçar com os molhos”. Para além disso, há “vinhos maravilhosos que acompanham a comida especialmente saborosa”.  

Segundo Tristan Walker, e por comparação com o Reino Unido, os “portugueses na generalidade vestem bem, têm cuidado com a sua aparência” e são um povo “atraente, em especial as gerações mais novas, que têm mais cuidado com o visual”.

Mathilde Costa
Assessora da embaixada da Noruega

A assessora da embaixada da Noruega em Portugal considera que a “tolerância é o mais lindo e o mais irritante nos portugueses”. Mathilde Costa diz que em Portugal há “tolerância e espaço para todos, não só para os mais produtivos ou os mais bem-sucedidos”. Há também espaço para o engano, o que na sua opinião “é uma coisa linda e rara numa sociedade”. 

Mas isto não significa que os portugueses não se queixam. Ou, melhor, “queixam-se mas não alertam ou não protestam quando as coisas não funcionam e quando as pessoas abusam” e desta forma ajudam a “manter o sistema disfuncional”. Para além disso, apesar de, na sua opinião, a falta de civismo em Portugal não ser maior “do que em outros países”, os portugueses têm essa mania. “Acham tão mal do seu próprio povo. ‘Isso nunca daria em Portugal’.

Mas dá”, garante, acrescentando que os “os portugueses são lindos e atenciosos”. Para além disso são “honestos. Não estão é muito habituados a receber confiança”. Quando chegou a Portugal, aquilo que mais lhe custou a habituar-se foi a “a ineficiência, trabalhos mal feitos e sistemas sem sentido, incluindo ter de ir pessoalmente para arranjar coisas ou obter informações em vez de obter por e-mail ou telefone”. Para além disso, chateia-a “ter de ir várias vezes ao mesmo sítio por causa do mesmo assunto porque não pedem todos os documentos que são necessários à primeira vez”. Ainda assim, Mathilide Costa prefere “viver num país com tolerância para todos (...) do que em países sem tolerância nenhuma. As suas “queixinhas em cima mencionadas tem de ser lidas nesse contexto”. Para a assessora da embaixada da Noruega, em Portugal o divertimento é “razoavelmente barato (táxi, saídas, álcool, jantar fora, concertos, etc.”, mas a “vida de família, no entanto, não é barata”. As fraldas, por exemplo, “custam mais do que na Noruega” e as escolas ou jardins de infância “tem até o dobro do preço da Noruega”. As atividades para crianças não são “especialmente baratas” e a “água e eletricidade : caríssimas”. Mas, salienta Mathilde Costa, “felizmente com este tempo e clima há muita coisa a fazer que não custa nada! Ir ao parque, à praia, passear, jogar bola, piqueniques, churrascos... então dá para ter uma vida boa mesmo com pouco dinheiro”. 

Chakall
Chef, Argentina

É uma cara bem conhecida e próxima dos portugueses, tanto pelas suas participações em programas de culinária televisivos e pelos livros editados, como pela sua imagem de marca: o turbante com que se apresenta sempre em público. Nos últimos tempos, deslocou o seu teatro de operações para Marvila, onde abriu o restaurante e clube El Bulo e, mais recentemente, uma pizzaria e um bar nos antigos armazéns da Abel Pereira da Fonseca. 

Mudou-se para Portugal há 18 anos, e o hábito que mais o espantou estava, como seria de esperar, relacionado com o seu trabalho. “O que achei mais estranho ou curioso quando cá cheguei foi a quantidade de peixe que se come, comparado com o meu país”. Mas não lhe custou a adaptar-se a nada: “Sou um camaleão, adapto-me a tudo”. Inclusivamente ao trânsito, uma vez que considera que os portugueses só conduzem mal se comparados com o Norte da Europa, estando nos parâmetros da Europa do Sul. E falta de civismo? “Comparado com a Argentina, não”, diz o chef. Para Chakall, a maior qualidade dos portugueses – que considera “muito simpáticos” – é a “humildade”. Como pior defeito, indica a “falta de confiança no momento de tomar decisões”. E consegue viver-se bem com pouco dinheiro? “Isso depende para quem”.

Como melhor experiência, Chakall elege ter “conhecido a esposa” – a pior é ter “contas por saldar com 15 anos”. Já nas questões da mesa nota que Portugal, “para um país tão pequeno, tem uma gastronomia muito variada e rica em sabores”. 

Mudando do garfo e faca para os arraiais da moda: e os portugueses, vestem-se bem? Pelos vistos é um trabalho em desenvolvimento. “Nos 20 anos a elegância mudou muito, hoje em dia vestem-se muito melhor, mas eu sou péssimo com roupa.

Na hora de responder à pergunta sobre a beleza – ou fealdade – das gentes lusas, sai-lhe uma resposta romântica e volta à sua melhor experiência por cá: “A minha esposa é portuguesa”.

Richard Zimler
Escritor, EUA

Richard Zimler vive em Portugal há 28 anos. Tendo nascido em 1956 em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque, em 1990, veio viver para o Porto. Aí lecionou Jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto. Tem atualmente dupla nacionalidade, americana e portuguesa. Desde 1996, publicou onze romances, uma coletânea de contos e quatro livros para crianças e a sua obra encontra-se traduzida para 23 línguas.

Da sua experiência no nosso país, diz que o hábito português que achou mais estranho ou curioso quando cá chegou é das pessoas fumarem nos elevadores e outros sítios fechados. O que mais lhe custou a habituar-se quando cá chegou foi “a maneira que a gente tem de falar muito e dizer pouco”. Quanto à simpatia dos portugueses (ou falta dela), nota que “como em qualquer país, há um leque enorme de personalidades e feitios. Os meus amigos são muito simpáticos.” Perguntámos também se acha que os portugueses conduzem mal? A resposta dele é o oposto de uma rotunda: “Sim. E depois de ter um acidente, queixam-se do estado da estrada, da chuva, do governo, de Deus... Tudo para não assumir responsabilidade.” Quanto à falta de civismo, refere que “basta guiar em Lisboa ou no Porto para confirmar que um português ao volante é uma criatura perigosa.” A experiência que teve cá foi casar-se com Alexandre Quintanilha, publicar o seu primeiro romance, “O Último Cabalista de Lisboa”, receber a medalha de honra da Cidade do Porto e “visitar maravilhosas aldeias, vilas e cidades, como Castelo de Vide, Marvão e Castelo Rodrigo”. As piores: “tentar ajudar a minha mãe e dar aulas na Universidade do Porto ao mesmo tempo (vivi um stress terrível durante 4 anos devido aos problemas de saúde da minha mãe)”. Acha mais barato viver em Portugal “do que Nova Iorque, Londres, Paris, etc..., mas nesses sítios as pessoas também ganham mais. E acrescenta: “Consigo viver bem aqui com os rendimentos que tenho. E estou grato.” Quanto à beleza, reparou que “alguns portugueses têm os olhos mais lindos do mundo!” E destaca as pestanas longas. No capítulo da gastronomia portuguesa, a sua preferência é para o peixe grelhado. “Temos excelente pão também. Algumas sopas são deliciosas (canja, caldo verde, etc...). Tudo com ingredientes frescos como eu gosto.”

Robert Knight
Investidor, Grã-Bretanha

Robert Knight – que até já assina Roberto Cavaleiro – chegou pela primeira vez a Portugal em 1981 vindo do Reino Unido para montar uma filial da sua imobiliária ‘George Knight & Partners’. E não olhou mais para trás. “A decisão foi tão bem sucedida que, depois de vender o meu negócio em Londres à poderosa Prudential, mudei-me definitivamente para Portugal e embarquei numa forma de vida completamente diferente”, lembra. “Tornei-me importador de equipamento e barcos para desportos náuticos e fui fundador e gestor de centros como o ‘Centro Náutico de Zêzere’ na Albufeira de Castelo de Bode”. Rodeou-se para isso, tal como na sua agência imobiliária, apenas de portugueses. “Mantive esta atividade até dezembro de 2000, ano em que fui submetido a uma operação cardíaca com um bypass triplo que me obrigou a reduzir o negócio até que o vendi em 2002. Desde então que estou ‘aposentado’”, diz ao i. Mas nem por isso quis sair do país, onde já viveu o flagelo dos incêndios. Radicado há mais de 30 anos em Tomar, dedica-se também ajudar os animais – criou, inclusivamente, uma instituição: o Fundo Samaritano dos Animais.

Dos primeiros tempos, Robert lembra atitudes e costumes diferentes. “A vida nos anos de 1980 e 1990 era bastante diferente do que a vida no novo milénio. Naqueles anos havia uma regulação rígida em relação aos ‘estrangeiros’ que compravam propriedades e, para investir em negócios, o Banco de Portugal cobrava uma taxa de 1% quando permitia a importação de capital”, conta, sublinhando outra particularidade: “As mulheres casadas tinham de ter autorização dos maridos para vender aquilo de que eram proprietárias”. E recorda outra especificidade desses primeiros tempos em que morou em Portugal e que agora já parecem tão longínquos: “As linhas telefónicas demoravam anos e requeriam muitas vezes ‘favores’ para serem instaladas e a compra de uma televisão a cores para apenas ter acesso às transmissões portuguesas de fraca qualidade era considerada uma grande excentricidade”.

Emilis Rut
Lituânia, DJ



O DJ lituano Emilys (nome de código de Emilis Rut) estranhou não receber de volta as mensagens e chamadas não atendidas. “Até dos amigos”, confessa. “Acontece muitas vezes”, explica. Assim como o “meio fechado” dos DJ e da música em geral. Por isso, não foi fácil a “profissionalização” no ofício iniciado na pátria ex-soviética. DJ de hip-hop de vistas largas, com antenas sintonizadas na batida eletrónica contemporânea, já passou por algumas das cabines mais apetecíveis de Lisboa como Lux ou Musicbox. Emilis Rut chegou em 2011, quando uma nova imigração se anunciou para a cidade e por cá continua. “Uma das principais razões é a simpatia. Não pretendo ir a lado nenhum”, afirma decidido. Para o DJ, as maiores qualidades dos portugueses são a “comunicação e as competências sociais”. As piores “o pensamento pequeno e a indiferença”. Quando lhe é perguntado se há falta de civismo, divide-se. “Antes de aprender a língua, teria respondido NÃO, ponto. Mas assim que aprendi, comecei a ouvir mais e mais palavrões.

"Depende da zona”, diz. Na estrada, o diagnóstico é mais drástico. Genericamente, considera que os portugueses conduzem mal. E aponta motivos: “Há uma enorme falta de respeito pelos outros passageiros – pedestres, ciclistas ou condutores. Infringir os sinais de trânsito e passar no vermelho são um hábito comum”, observa. De Portugal, recorda as viagens e a beleza como a melhor experiência de sete anos. “Não imaginaria não passar uma ou duas semanas das minhas férias em Portugal todos os anos”. O pior do país para Emilis é a falta de meritocracia. “A parte pior é observar pessoas incompetentes liderar setores público e privado, baseados em contactos, em vez de talento ou esforço”. Ainda assim, refere, consegue viver-se com pouco dinheiro em Portugal. Já em Lisboa “não tanto”. Pelo menos, “por agora”. Para compensar, a gastronomia portuguesa “é a melhor”, assume. “Desde que me mudei para cá, tornei-me um foodie. Cozinho melhor à maneira portuguesa do que em qualquer uma outra”. Na geração de Emilis, os portugueses vestem-se bem. Os mais velhos menos, mas é uma população bem parecida, retrata.

Umberto Mortara
Estudante de Medicina, Itália



Umberto é italiano, tem 23 anos e é de Turim, mas atualmente vive em Coimbra, onde estuda Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Está em Portugal desde setembro do ano passado, através do programa Erasmus, e por cá continua por mais uns meses, pelo menos até julho. Mas porquê Portugal para fazer Erasmus? A resposta foi simples: “A língua é parecida, não faz frio e há o mar.”

Da sua curta experiência em Portugal, o italiano diz ter ficado surpreendido com o hábito que os portugueses têm de acenar para cumprimentar alguém e depois “ir embora sem ouvir a resposta”. No entanto, não foi isto que mais estranhou – aquilo que mais lhe custou foi mesmo o facto de os portugueses serem muito desorganizados na maior parte das coisas que fazem. “Há sempre filas nos bares, nas caixas de supermercado e mesmo nas cantinas da universidade.” Mas a sua experiência não é só feita de hábitos estranhos. O italiano gosta dos portugueses, acha que são simpáticos, mas “muito tímidos”, e quanto ao civismo do país afirma que “os portugueses conduzem bem” e que são, na sua maioria, bastante “bem educados e muito divertidos”. Relativamente às maiores qualidades dos portugueses e, consequentemente, as piores, para Umberto são “muito tranquilos em tudo o que fazem, mas muito lentos a executar as tarefas”. Por outro lado, no que toca a festas, Coimbra é a cidade dos estudantes, e os jantares e convívios que tem com as pessoas do seu curso são das melhores experiências que tem tido em Portugal. “É sempre tudo muito animado, mas há uma coisa que me deixou muito chocado: quando vi as pessoas a cortarem a massa com a faca.” No que diz respeito ao custo de vida em Portugal, o italiano diz que “se vive bem com pouco dinheiro no país”, uma vez que comparando com Itália “é muito mais barato”. A beleza dos portugueses não o fascina: “Há pessoas bonitas e feias, como em todo o lado.” A gastronomia portuguesa também não lhe diz muito, mas aprecia bastante o “hábito de se comer sopa antes do prato principal”, algo que em Itália não acontece, conta o italiano.

Anette Dujisin 
Programadora de cinema, Equador



Anette Dujisin, nascida no Equador, é programadora da Semana da Crítica do Festival de Veneza e coordenadora da plataforma Filmin Portugal, e já é uma portuguesa quase de gema: chegou cá com oito anos, vinda de Itália, embora em adulta já tenha morado noutros países antes de voltar para Portugal.

Oito anos são uma idade muito curiosa para captar diferenças: “O mais estranho foi o facto de os portugueses só terem dois canais de televisão! Achei isso absurdo... em Itália havia centenas de canais. Mas fez-me bem, porque assim passei mais tempo a brincar na rua.” Sobre a falta de civismo, diz que “não chegaria a tanto, havia mais há alguns anos, especialmente em relação aos comentários que se faziam às mulheres que caminhavam sozinhas na rua...”. E defeitos e qualidades? “A maior qualidade dos portugueses é sempre me terem feito sentir em casa, como mais uma portuguesa. E tendo já em idade adulta vivido vários anos fora de Portugal, quis voltar porque realmente é aqui que mais me sinto em casa. Sempre me disseram que eu podia ter muitas nacionalidades e vários passaportes, mas que no fundo, no fundo.... eu era ‘tuga’ como eles, e isto é algo que para mim é precioso. O pior defeito... uma certa falta de iniciativa e alguma mesquinhez típica de meios pequenos.” 

Sobre a questão se aqui se vive bem com pouco dinheiro, Anette nota que essa é uma ideia ilusória: “Portugal parece barato! Mas é bem mais caro do que parece. O café e a imperial são baratos, mas as contas da eletricidade, gás, água são das mais caras da Europa e os preços das rendas e da compra de casa estão a níveis escandalosos. E como os salários não são altos, isto torna viver em Portugal cada vez mais complicado e caro.” E os portugueses, são bonitos? “Estão cada vez mais bonitos, e felizmente também mais altos!” E embora na sua maioria “não se vistam grande coisa”, este é um capítulo em que também vê melhorias, apesar de os homens ainda serem, na “sua maioria, bastante conservadores a vestir”. 

Relativamente à comida, Anette diz gostar mas acha que a culinária poderia ser “mais imaginativa no que toca às verduras”. “Mas no geral gosto muito, já faz parte da minha maneira de me alimentar e acho que tem muitas opções saudáveis. Não há nada como a sopinha portuguesa e um bom peixinho grelhado!”, remata.
 

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