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Ouvido no Ovídio. As metamorfoses literárias de Bob Dylan

Ouvido no Ovídio. As metamorfoses literárias de Bob Dylan

DR Mariano Alejandro Ribeiro 23/03/2018 16:32

Da sua paixão por Rimbaud e Whitman, já toda a gente sabe. Do pseudónimo à Dylan Thomas e dos convívios com a geração Beat, também. Ontem assinalou-se o regresso do bardo americano à capital portuguesa, para um concerto no antigo Altice Arena. Uma boa oportunidade para revisitar o não tão discutido diálogo que a obra de Bob Dylan mantém com os clássicos da nossa literatura ocidental

Não havia muito entretenimento para um adolescente durante os gélidos invernos de Hibbing, Minnesota. O seu tio era dono de um cinema e era lá que ele passava as tardes. Tinha preferência pelas representações da Roma antiga, filmes como “Demétrio, o Gladiador” ou “Júlio César”, onde Marlon Brando aparecia como Marco António. Numa notícia do jornal da Secundária de Hibbing, a 30 de novembro de 1956, relatava-se a chegada de um novo membro do Societas Latina, o clube de latim da escola. O seu nome era Robert Zimmerman e tinha 15 anos.

O fascínio de Bob Dylan pelos clássicos é tão antigo quanto a sua carreira e tem--se aprofundado com o passar dos anos. Em 1962, na sua primeira viagem a Europa, visitava Itália e dessa visita resultava uma canção intitulada “Goin’ Back to Rome”, cantada ao público uma única vez, na sala de concertos Gerde’s Folk City, no Greenwich Village dos anos 60. “I’m goin’ back to Rome/ That’s where I was born”. Esta canção marcará o início de uma intertextualidade vívida entre o seu repertório e os clássicos greco-romanos, um diálogo que se estende durante os quase 60 anos da sua carreira musical. Em 2001, numa conferência de imprensa dada na capital italiana por motivo do lançamento do seu álbum “Love & Theft”, Dylan afirmava dedicar uma considerável parte das suas leituras aos grandes poetas romanos, em particular a Virgílio, cujos versos da Eneida pedira “emprestados” para compor “Lonesome Day Blues”:

“I’m going spare the defeated, boys, I’m going to speak to the crowd/ I am going to teach peace to the conquered/ I’m going to tame the proud” – Lonesome Day Blues, Bob Dylan.

“Remember, Roman, these will be your arts:/ to teach the ways of peace to those you conquer,/ to spare defeated peoples, tame the proud” – “A Eneida”, Virgílio (tradução inglesa).

Em outubro de 2006, uma descoberta reveladora aparecia num jornal local da Nova Zelândia. Um professor de Língua Inglesa lia os poemas do exílio de Ovídio, traduzidos para o inglês por Peter Green, quando se apercebeu que lhes reconhecia uma melodia. Os versos ouvira-os no álbum “Modern Times”, lançado nesse mesmo ano por Bob Dylan. Em “Modern Times” encontravam-se pelo menos 30 referências às cartas elegíacas e aos poemas que Ovídio escrevera durante o seu misterioso exílio. Estavam também presentes os mesmos traços de ironia, perspicácia e caráter reconhecíveis tanto na obra do poeta romano como na de Dylan.

Como Ovídio, Dylan inspirava-se na tradição oral dos seus antepassados e na reapropriação de narrativas históricas. Como Ovídio, Dylan identificava-se também com as peripécias vividas pelo herói da “Odisseia”. O seu álbum “Tempest”, de 2012, assinala a transição do tom ovidiano não para um canto homérico, mas para a própria voz de Odisseu. As faixas de “Tempest” são compostas por narrativas que ecoam a odisseia de Ulisses a cada verso. “Early Roman Kings” ou “Pay in Blood”, duas canções que é bem provável que venham a ser ouvidas esta noite em Lisboa, são exemplos disso:

“I can strip you of life, strip you of breath/ Ship you down, to the house of death” – “Early Roman Kings”, Bob Dylan.

“Here was my parting shot, ‘Would to god I could strip you/ of life and breath and ship you down to the House of Death” – “A Odisseia”, Homero (tradução inglesa).

Neste excerto do livro nono da “Odisseia”, Ulisses encontra-se com Polifemo, filho de Poseidon, deus dos mares. Recordemos que o álbum se chama “Tempestade”, que é também o título de uma faixa cujo tema é o afundamento do Titanic. “Early Roman Kings” relembra os versos de uma outra canção de Dylan, de 1965. Trata-se de “Desolation Row”: “Praise be to Nero’s Neptune/ The Titanic sails at dawn/ And everybody’s shouting/ Which side are you on?”. A menção a Nero e Neptuno não vem ao acaso. Neptuno é o equivalente romano do deus Poseidon. Há nesta estrofe pelo menos três elementos do imaginário greco-romano que voltariam a manifestar-se na obra de Dylan.

Interpretar esta intertextualidade como plágio e não como um instrumento literário é um erro no qual se pode facilmente cair. A tentativa explícita de Dylan de incorporar referências clássicas deve antes ser considerada como um esforço da sua parte para escapar da limitada tradição do rock e reclamar a herança não só do cancioneiro americano, mas da própria história universal da cultura ocidental.

Dylan interfere na transfiguração da canção e da literatura contemporânea utilizando elementos e significados vindos de Roma ou mesmo de Homero. De certo modo, é ele o elo criativo e transformado do presente ao princípio da literatura do Ocidente. No adiado recebimento do prémio Nobel da Literatura, encerrou o seu discurso onde Homero começou a sua canção, nos primeiros versos da Odisseia: “Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou.”

“Níobe, solitária, guia-me numa dança animada”, escreveu Ovídio. “Estou só e à tua espera para que me guies numa dança animada”, escreveu, dois mil anos depois, Bob Dylan. O primeiro conta-nos em “Metamorfoses” sobre a natureza inconstante do nosso universo, o segundo avisa-nos que os tempos estão a mudar. E estão. Esta noite, nem que seja nos nossos lugares, poderemos dançar ao som animado do último grande trovador americano.

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