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Incubadora espacial. Pode o espaço descer à Terra?

Incubadora espacial. Pode o espaço descer à Terra?

Mafalda Gomes Beatriz Dias Coelho 19/03/2018 18:31

O espaço pode parecer uma realidade distante, com aplicações práticas que só os especialistas da área compreendem, mas o Business Incubation Centre da Agência Espacial Europeia apoia inúmeras startups tecnológicas que mostram que não é assim. O i foi ao ESA BIC Portugal para perceber como os dados recolhidos no espaço podem influenciar – e facilitar – o dia-a-dia

O sobrinho de Paulo Caridade é doente asmático e sofre de forma recorrente de ataques de asma. Geógrafo de formação, estava empenhado em encontrar uma solução em conjunto com o seu irmão Pedro, químico. E assim nasceu uma nova startup. “A SpaceLayer nasce com o propósito de aproximar indicadores da qualidade do ar do cidadão”, explica Paulo ao i no escritório da empresa, com uma equipa de 10 pessoas. E pode ajudar pessoas asmáticas, como seu sobrinho, mas outras, com diferentes doenças respiratórias. Para tal, a equipa está a criar uma aplicação que cruza os índices de poluição com o perfil de doença do utilizador.

Concorreram com a ideia ao Business Incubation Centre da European Space Agency (ESA BIC Portugal) e, hoje, são uma das cerca de 40 startups que encontram no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, as condições de que precisam para crescer. Como explicam Carla Duarte e Alexandra Almeida, gestoras do ESA BIC Portugal, “todas têm uma característica comum: usam ativos espaciais, isto é, dados recolhidos no Espaço”. No caso da SpaceLayer, em causa está a utilização de imagens de satélite que monitorizam a qualidade do ar. “Queremos que os pais possam precaver-se atempadamente para este tipo de crises: se souberem que daqui a duas horas, no centro da cidade, vai haver um pico de dióxido de carbono, vão pôr na mochila do filho a bomba da asma, porque é quase certo que virá uma crise asmática”, descreve o cofundador da SpaceLayer.

A incubadora da ESA “Queremos trazer o espaço para a Terra”, diz ao i o diretor de inovação do Instituto Pedro Nunes, Carlos Cerqueira. Foi em 2014 que a entidade acolheu o centro de Incubação da Agência Espacial Europeia, um dos 16 existentes no continente europeu. Nessa altura, recorda o diretor de inovação do Instituto Pedro Nunes, Portugal afirmava-se cada vez mais no setor aeroespacial. Com concursos abertos três vezes por ano, o programa foi lançado com a Fundação Para a Ciência e Tecnologia e conta com dois polos: o Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto e a agência DNA Cascais.

Os projetos selecionados – oriundos de áreas tão diversas como a saúde, os transportes ou o património – são apoiados com 50 mil euros para a construção de protótipos e aquisição de propriedade intelectual. Recebem ainda apoio técnico e apoio para o negócio. E têm acesso a uma ampla rede de futuros parceiros, investidores e clientes. Anualmente, a nível europeu, o ESA BIC lança 130 startups. Em Portugal, diz ao i Carlos Cerqueira, o programa superou todas as expectativas quanto a participações. Até porque, hoje, por cá, o setor aeroespacial, num todo, tem “uma dinâmica ainda mais forte e uma enorme capacidade empregadora”, dando trabalho a cerca de vinte mil pessoas.

Carlos Cerqueira assinala que “Portugal tem muita gente com ideias e vontade de arriscar” e mostra-se, por isso, entusiasmado com a Estratégia Nacional para o Espaço, aprovada esta semana. “Estamos todos muito entusiasmados nesta área porque está prevista, além da criação de um centro nos Açores, a criação de uma Agência Espacial Portuguesa. Isso significaria a autonomização desta área e uma aposta no seu crescimento”, acredita. “É um setor que emprega muita gente altamente qualificada, gera emprego, gera retorno para os seus acionistas e investidores, gera riqueza e é essencial que o país aposte nessa área”.

E é uma das grandes áreas do futuro em Portugal? “Tem potencial para isso, claramente. No futuro vamos ter de perceber onde é que podemos estar – não nos vamos comparar aos Estados Unidos da América ou à China – e temos algumas especificações que podem ter uma enorme vantagem competitiva para Portugal. Muito do que é feito hoje na exploração do espaço pode ser usado na exploração dos oceanos, e nós temos uma das maiores zonas económicas marítimas e essa tecnologia pode ser vertida para a exploração dos oceanos e tudo isso pode servir para gerar mais riqueza”.

O espaço entre nós A incubadora é prova de que o espaço está diariamente entre nós – mesmo que isso não seja visível logo à partida. Lá em casa, por exemplo, é possível que as paredes sejam isoladas com aerogel criado pela Active Aerogels – outra das startups acolhida na Incubadora da ESA BIC Portugal – com o intuito de ser aplicado como revestimento em foguetões para isolamento térmico e acústico.

É que, se no início o produto era produzido apenas para aplicação no setor aeroespacial – foi com esse objetivo que concorreram ao ESA BIC Portugal –, agora já não é assim. “Nos últimos tempos tentámo-nos desviar e estamos a desenvolver o produto para fins mais terrestres, mais de pé no chão, como a construção civil”, conta ao i Fábio Silva, responsável de vendas.

À entrada da pequena sala onde a empresa, que emprega sete pessoas, está sediada, uma estante exibe as várias apresentações do produto. Um pequeno frasco transparente guarda o material em forma de espuma, branca, a fazer lembrar espuma de barbear. É precisamente essa a analogia que Fábio faz: “Assemelha-se a espuma de barbear. É excelente porque pode-se aplicar em qualquer material e formato, seca e fica rígida”. Na mesma prateleira, como explica, há também o painel flexível – um retângulo branco que passaria despercebido a qualquer pessoa que desconheça a sua função – e o pó, “que serve para misturar com tintas ou cimentos”.

A produção é feita mesmo ali na porta ao lado, no laboratório, cuja entrada é proibida devido à “perigosidade” – algo que, de resto, é evidenciado pelos autocolantes com símbolos clássicos a alertar, por exemplo, para a corrosividade do que ali se faz.

A visita pela incubadora segue pela mão de Carla e Alexandra. A paragem seguinte é a Undersee, que numa sala igualmente exígua está empenhada em desenvolver um multisensor para monitorização da qualidade da água, através de imagens de satélite. “O nosso multisensor mede os parâmetros da qualidade da água em determinado sítio e transmite-os para a cloud, onde é feita a fusão com os dados de satélite”, explica o cofundador Tiago Cristóvão.

A ideia é que o utilizador vá à cloud ver ambas as medições para que, com esses dados, possa desenvolver melhor a sua atividade. Este, assinalam os criadores, é um modelo de negócio inovador. “Normalmente, o tipo de serviço de monitorização ambiental tradicional pressupõe que o cliente compre equipamento ou compre serviço, e o que nós queremos é vender dados numa plataforma, onde o utilizador pode criar campanhas sozinho ou com outras entidades”.

Neste momento, a startup está a fazer testes piloto na Ria de Aveiro. “Instalámos o primeiro satélite marítimo numa casa flutuante – uma embarcação pequenina – e começámos a retirar imagens de satélite para tentar fundir”, descreve Tiago. E quem seriam potenciais clientes? “Se várias entidades dependem de um mesmo asset (recurso), como uma praia ou um lago, por exemplo, podem criar uma campanha em conjunto para terem noção da qualidade da água”, explica o cofundador. O negócio também pode ser bom para benfeitores que, não estando diretamente ligadas ao recurso, queiram investir em campanhas ambientais para melhorar a sua imagem corporativa.

Como destino final, uma startup orientada para a arqueologia e para o património cultural que entrou recentemente na Incubadora. Chama-se Theia e está a criar um sistema de monitorização de áreas arqueológicas em risco de ser destruídas.

“A ideia é usar diferentes tipos de imagens de satélite, processar essas imagens e montar um sistema semanal de monitorização e alerta aplicado para, por exemplo, no caso dos centros históricos, perceber que tipo de danos possam estar a acontecer nas estruturas”, especifica Ricardo Cabral, um dos cofundadores.

Por agora, a equipa de três elementos ainda está a desenvolver o protótipo, mas já está a pensar em começar a atrair os primeiros clientes.

Palavra de ordem: criatividade Quando o trabalho gera sucesso, o crescimento é inevitável. Evidência disso é a Stratio, que começou na incubadora como as startups que conhecemos. Hoje ocupa já uma sala maior, com uma equipa de 27 pessoas, na “Aceleradora” – o passo seguinte para as empresas que integram a Incubadora ESA BIC Portugal.

Lá fora, contam já com três escritórios de vendas, em Espanha, Inglaterra e nos Estados Unidos da América.

Recorrendo a tecnologia de aviação e espacial, a empresa aplica o conceito de predição no setor dos transportes, em frotas de camiões e autocarros. O cofundador Rui Sales explica ao i que “através desta tecnologia, é possível detetar avarias antes de elas acontecerem”.

É através de um dispositivo que se liga aos autocarros e camiões que a empresa consegue tirar todos os dados dos veículos em tempo real.

O dispositivo, depois, transmite esses dados em tempo real para os servidores da Stratio, onde a equipa de engenharia mecânica define regras de como deve estar o sistema do veículo. “A partir dessas regras, conseguimos identificar problemas, e através de inteligência artificial conseguimos prever problemas antes de acontecerem de uma forma que é impossível o olho humano identificar”, acrescenta Rui Sales. Para as transportadoras, a Stratio é sinónimo de redução de custos de manutenção e uma maior segurança para condutores e passageiros.

“Estas empresas usam todas dados vindos do Espaço”, remata a gestora da ESA BIC Portugal Alexandra Almeida. “Os dados têm enorme potencial, podem ser usados para tudo, é preciso é ser criativo”.

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