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Filipe Baptista 15/03/2018
Filipe Baptista

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Diplomacia?

Grande parte do sucesso da diplomacia de países com os EUA, o Reino Unido ou França assenta em “formiguinhas” das relações externas. Por cá, nos organismos públicos não existe uma orientação geral para essa área

Não fiz o levantamento do número de entidades, direções, departamentos, divisões ou áreas que desenvolvem atividades de relações exteriores no aparelho da administração central do Estado, mas uma coisa é certa, são muitos. E, ao contrário do que se possa pensar, esta panóplia de entidades e microrganismos faz um trabalho muito importante e não visível para a maioria das pessoas, que, típica mas erradamente, o associam a viajar.

Sempre que me cruzo com alguém que trabalha na área, não evito um rol de perguntas. Talvez por defeito de formação, mas a verdade é que me interessa e gosto de saber o que fazem. Não ao detalhe, naturalmente, mas, em termos gerais, qual a visão, as estratégias e o que procuram atingir com o trabalho que desenvolvem.

As respostas e visões são bastante variadas e, por vezes, díspares.

A conclusão é que não existe, na prática, uma linha de orientação geral do que deve ser uma área de relações externas de um organismo público, linha essa que deveria ser definida de forma genérica, transversal e ao mais alto nível. Como, aliás, acontece noutros países, tais como França, Reino Unido ou EUA. Podem pensar que é patetice ou obra do acaso, mas grande parte do sucesso da diplomacia destes países, seja ela política ou económica, assenta, e muito, no trabalho de formiguinhas que as áreas de relações externas, nos diversos serviços do Estado, desenvolvem diariamente.

E isto só acontece porque existe uma linha condutora e de comunicação entre governo, embaixadas e entidades públicas em que nada é deixado ao acaso.

Não é complicado e é essencial (sobretudo com a tecnologia de que hoje dispomos) que exista esta linha condutora que permita comunicação e troca de informações que sustentem uma visão global e transversal de atuação.

Além desta linha comum dentro da orgânica da máquina estatal, é também importante que haja um canal de comunicação com o setor privado, permitindo de forma consciente e transparente o apoio à indústria nacional, afastando discriminações, clientelismo,  favorecimentos e, em última análise, corrupção.

Mas vou mais longe: para que uma estratégia de relações externas seja sólida, eficaz e, sobretudo, de longo prazo é essencial juntar à equação a componente formativa, as academias, se quiserem, fechando assim o triângulo entre setor público, setor privado e setor académico (devendo a componente de I&D ter neste último um papel bastante acentuado). Este último vértice da capacitação torna-se bastante relevante por ser a melhor forma de captar os quadros dirigentes e decisores políticos do futuro nos países com os quais se têm relações e interesses estratégicos específicos e que, mais tarde, poderá fazer a diferença no momento de tomada de decisão.

A verdade é que, em bom rigor, isto não acontece no nosso país de forma sustentada e coordenada e, desta forma, aquilo a que assistimos são sucessivas oportunidades perdidas. Nos casos de sucesso, grande parte deles resulta da perseverança e da iniciativa dos atores, que ultrapassam muitas vezes as suas competências.

Dou-vos dois exemplos concretos a que assisti: um da diplomacia francesa e outro da americana. Há uns anos, a simples mudança de um diretor de uma área de relações externas de um organismo público em Portugal deu direito a um pedido de reunião por parte da embaixada francesa. Para quê? Nada em concreto, apenas conhecer e mapear o novo “decisor diplomático” daquele organismo. Meses mais tarde, a razão ficou evidente: havia eleições numa agência internacional, havia um candidato francês e o canal já havia sido estabelecido. Anos depois, e numa área totalmente diferente, integrei uma missão ao Departamento de Estado e Departamento de Justiça dos EUA. Na agenda, uma série de iniciativas de interesse mútuo e que, naturalmente, tocavam as duas áreas (justiça e segurança). No hiato de tempo que a delegação levou de uma entidade para a outra, a segunda tinha já um relatório detalhado de quem éramos e ao que vínhamos.

Em Portugal, isto, infelizmente, não acontece. As embaixadas e o MNE não estão formalmente articulados com os diversos organismos públicos que lhes permitam atuar em conformidade sempre que se justifique uma ação diplomática. Por outro lado, uma informação de um ministério para outro pode levar semanas, senão meses, mesmo estando nós na era digital.

Seria importante que os decisores políticos pensassem sobre este assunto. Mas de forma séria e tendo uma visão de longo prazo que se sobrepusesse aos ciclos governativos. Presidência, Assembleia da República e governo deveriam criar um grupo de trabalho que estabelecesse para o país uma verdadeira estratégia de diplomacia nacional que permitisse rentabilizar o esforço financeiro e humano que, diariamente, investimos em cooperação.

 

Escreve à quinta-feira

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