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Trabalhos e dias e amores. Luís Filipe Castro Mendes: um Ulisses lusitano

Trabalhos e dias e amores. Luís Filipe Castro Mendes: um Ulisses lusitano

Teresa Carvalho 14/03/2018 14:00

São mais de 800 páginas, num itinerário poético que vai de “Seis Elegias” (1985) a “Outro Ulisses Regressa a Casa” (2016). “Poemas Reunidos” produzem a própria sensação do tempo – o que se escoa mas também esse tempo vivido que persiste em nos habitar

Há poetas que sempre procuraram separar a vida profissional do trabalho poético. Wallace Stevens, empresário do ramo dos seguros, costumava transportar uma pasta meticulosamente dividida em “gavetinhas”: uma para as apólices disto, outra para as daquilo e uma outra que reservava aos poemas. Fácil. Luís Filipe Castro Mendes assume com desinibida clareza o duplo estatuto do poeta-diplomata que até há bem pouco tempo foi, e até já se debruçou sobre esse “estranho animal de duas cabeças” que encontra em João Cabral de Melo Neto um ilustre representante. Muito embora a sua poesia mantenha com os aspectos biográficos uma relação algo distante (apenas o tanto que lhe convém), poeta e diplomata chegam a cruzar-se no mapa da escrita para melhor se distinguirem, como deixa entender um semi-sorridente poema inspirado pela superficial professora paulista: “Faz versos como todo o diplomata…/ Senti peso mortal no coração!/ Talvez tenha razão, talvez a nata/ da minha poesia seja então// um mero entretém profissional,/ berliques e berloques de carreira,/ bijuteria made in Portugal…”.

Quem tenha acompanhado o seu itinerário poético, onde se fazem sentir os ecos da sua vivência diplomática, dirá talvez que o poeta beneficiou bastante com o que o diplomata carreou para os poemas, por vezes com irónico recurso à tradição literária: um caldo de culturas sorvido entre “sobras e restos de saudades”, mas também secretárias, gavetas, relatórios, papéis velhos e outros materiais pertinentes no glossário irónico do “poeta burocrata” (“Vou ali. Deixei uns versos./ Sustentarem-se é um desperdício”). Esquece-se, no entanto, de que o poema não se faz com experiências, mas com palavras, procuradas, perseguidas, achadas, sopesadas, num exercício de reflexão verbal sobre a realidade, o mundo e sobre a natureza da relação da linguagem com eles. Sem as palavras certas não há poema.

A capa que veste estes “Poemas Reunidos”, a exibir um quadro de David Friedrich – “Barco à vela” – é uma boa porta de entrada na poesia de Castro Mendes. Lá estão o cenário marítimo e viajante, a experiência do amor, a cidade buscada, a ideia do percurso e do regresso, tão presente, sobretudo nos últimos livros. Lá está também o sol negro da melancolia (o astro-rei da sua poesia) e, com ele, a expressão de um tempo interior, e até uma harmonia que a ideia do inesperado ou a da brusca interrupção, logo vem tragar, sem resgate possível. Se a estas dominantes juntarmos uma qualidade culta, que lhe vem do trato íntimo e assíduo com a tradição literária ocidental, e a limpidez da emoção lírica que a percorre teremos esboçado o quadro de referência dentro do qual há que acompanhar estes 35 anos de trabalho literário, sob a forma de um volume que a Assírio & Alvim acaba de publicar com prefácio de Nuno Júdice.

As edições que reúnem a obra de um poeta num único volume têm duas grandes e óbvias vantagens. A primeira é permitir-nos o acesso a livros que não adquirimos em devido tempo e entretanto desapareceram das livrarias, esgotados, inacessíveis ou mortos por acção da guilhotina. A segunda é a possibilidade da leitura da obra como um todo, com as suas evoluções, rupturas, continuidades, obsessões.

Assim reunida, a poesia de Castro Mendes, que foi ganhando corpo, peso crítico e ironia, faz sobressair um dos seus grandes méritos: a capacidade de fazer uso do mesmo e do velho para melhor significar o novo e o diferente. O poema “O Cabo da Ásia”, preenchido por atropelos mitológicos, é bem o exemplo da conjugação da segurança da tradição com uma perturbante modernidade. É dedicado a Vasco Graça Moura, seu par na arte da contrafacção irónica: “Porque cai a Europa do touro ferido,/ agora que Zeus não tem força para andar?/ Os Persas triunfaram dos livros antigos,/ mas perde o marinheiro toda a graça do mar.//Vai Ulisses buscá-la ou será Marco Polo?/ Dinamene sabia, mas o barco afundou./ Os chineses escreveram essa lei nos seus rolos,/ que Fernão Mendes Pinto há muito nos contou.//Nós, os descobridores, assistimos ao caos/ O ocidente calou-se e no horizonte sai/ um sol do oriente, o sol dos dias maus,/um sol que não aquece quem entende que cai”

Não se veja pois no cultivo do soneto – uma forma que conta já com uma idade respeitável: mais de 700 anos – a insistência numa velharia de museu literário. Se por um lado ele permite reclamar uma herança cultural, por outro abre caminho para um ‘desdizer’. O efémero e o permanente, a morte e a ironia, o trágico e o risível, o valor e a inutilidade (“um soneto não serve para coisa nenhuma”) – tudo se equilibra nos seus sonetos como se nenhum limite viesse perturbar essa forma fixa. Do mesmo modo, não se leia no recurso a um género como o epigrama o mero apego a uma milenar regularidade. Os epigramas que preenchem a última parte de “Os Dias Inventados” são antes a expressão de uma irregularidade moral, o espelho em que o actual mundo literário se pode mirar. Tão-pouco se pretenda ver na identificação do poeta com a figura de Ulisses um exercício de estilo, gasto por uso excessivo.   

Os sapatos do mítico herói não lhe ficam a nadar, como barcas: ajustam-se-lhe, não fosse o poeta um intérprete privilegiado da temática da viagem. Ele é também o homem que “de muitos homens visitou as cidades e conheceu o pensamento” (Odisseia, I, 3), a personagem actuante de um enredo de viagens (com momentos elegíacos mas também com os seus lances divertidos), o que experimenta a saudade, o que procura respostas, o que viaja pelo mundo dos mortos. Os laços com a tradição homérica quebram-se por aqui. O que no herói homérico é ânsia do regresso corresponde em Castro Mendes à inquieta aceitação de quem se sabe condenado à eterna busca, figura de uma epopeia impossível. Para o poeta não há casa nem regresso: “todos os lugares me são ausência,/por isso nunca posso regressar”. Nem facúndia, trocada pela conversa desencantada (“Feira do Livro”), pela bem-humorada conversa poética (“A vingança do Senhor Kappus”) ou mesmo pela desconversa, como acontece no poema “Resposta”: “Sim, andei por fora, / por vezes não reconheço as ruas da minha cidade/ e há rostos que me envelhecem o coração […] Sim, eu sei que estou a fugir ao assunto/ Importa-se de repetir a sua pergunta?”

Ulisses sem Penélope (que tanto mais lhe escapa quanto mais importaria alcança-la), enamorado da Palavra e seduzido pelo prazer das formas clássicas, que são também uma forma do prazer. Como Ulisses, é rico em recursos: géneros, formas, ritmos (dos ritmos quinhentistas à fraseologia dos registos de fala corrente, aproximando-se por vezes da prosa, mas sem resvalar nela, como propunha Eugénio Montale). E destro a manobrar o arco que une a Antiguidade clássica à modernidade. E onde não chega a seta do lirismo vai a ironia, a natural aliada do “poeta funcionário”, braço estendido a apontar para “A misericórdia dos mercados”. Virtuosismo ao leme, vemo-lo navegar num mar largo de intertextos. Vêm então à superfície lugares selectos da literatura portuguesa, pontos de trânsito mas também de estadia, a surgirem alguns com a frequência de uma obsessão, espécie de eterno retorno: “a vida pelo mundo em pedaços repartida” (Camões), “conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos” (Camilo Pessanha), “as suaves raparigas” (Ruy Belo), “uma pequenina luz bruxuleante” (Jorge de Sena). Todas as rotas vão dar ao mesmo ponto: o sol negro da melancolia – “não bronzeia nem alivia”.

Eterno Ulisses da escrita, ei-lo regressado “já voltei a casa/ as portam rangem…” – sem tempo nem vocação para (se) contar: “O tempo que resta não é para confissões/ nem para ajustes de contas:/ pois quem guarda o guardião, quem despe a roupa/ das vestais do templo?”

Acontece que um regresso não é uma viagem ao contrário. A Ítaca que se procura nunca é aquela a que se chega. Regressar pode não significar um reencontro com o espaço familiar e o aconchego a reconquistar, à maneira de Ulisses. Anos volvidos, é inóspita a imagem que o seu olhar colhe. Resta-lhe sempre bater à porta da melancolia, com a qual mantém uma cumplicidade activa, instalar-se nessa casa ampla que é a literatura – um dos seus grandes lugares de viver – ou manter viva a esperança do regresso, como se ele não houvera ainda acontecido.

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