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Berlusconi, o regresso

Berlusconi, o regresso

AFP Photo Nuno Ramos de Almeida 03/03/2018 17:33

Longe vão os tempos que a UE queria a cabeça dele: neste momento Il Cavaliere é a melhor esperança de Berlim.

Em dezembro passado, durante a realização da reunião do Partido Popular Europeu em Bruxelas, Angela Merkel desejou sorte a Silvio Berlusconi para as eleições de 4 de Março. Já dizia um conhecido filósofo alemão que a história acontece em tragédia e repete-se em comédia.

A perda de popularidade do Partido Democrático e a emergência do anti-europeísta Movimento 5 Estrelas como primeiro partido italiano levam os líderes da União Europeia a reaproximarem-se de Il Cavalieri. Uma aproximação ditada por razões de força maior, como revela a correspondente em Berlim do La Repubblica, Tonia Mastroubuoni, ao britânico Express: «Falei com vários responsáveis da CDU que me confirmaram que estavam assustados com a possibilidade do Movimento 5 Estrelas ganhar as eleições, porque não se percebia qual era a sua atitude perante a Europa. São muito agressivos em relação à Alemanha, enquanto Berlusconi é mais moderado».

O que se chama uma ironia histórica. As relações entre Berlusconi e a chanceler alemã nunca foram boas. O antigo líder italiano chegou mesmo, segundo o jornalista italiano Valter Lavitola, acusado de ter procurado prostitutas jovens para Berlusconi, a dizer ao telefone ao jornalista que Angela Merkel era «um gajo infodí...», comentário que Berlusconi desmente na sua biografia, garantindo que foi divulgado para piorar as suas relações com a mulher mais poderosa da Europa, a quem, no entanto, acusa de o ter derrubado.

Berlusconi perdeu a maioria no parlamento e foi obrigado a resignar em novembro de 2011, depois de várias pressões de dirigentes europeus e de um telefonema de Angela Merkel, a 20 de outubro de 2011, ao então presidente de Itália Giorgio Napolitano, em que a chanceler alemã terá dito, segundo reporta o Wall Street Journal. que era necessário tirar Berlusconi do poder. A presidência italiana nunca desmentiu o telefonema, tendo apenas dito que se «discutiu assuntos de política geral». Mas a acusação do líder italiano é confirmada por um antigo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geither, que nas suas memórias narra os esforços da UE para colocar no poder o antigo comissário europeu e conselheiro da Goldman Sachs, Mario Monti: «Uma série de dirigentes europeus propuseram-nos um esquema para correr com Berlusconi do poder, condicionando o apoio do FMI à sua saída», um golpe que os norte-americanos recusaram, obrigando os europeus a assumi-lo.

Mas qual a situação que pode levar a UE a apoiar um homem que está inabilitado para ser eleito para cargos públicos e que foi acusado de fraude nos impostos e de sexo com menores?

As últimas sondagens dão a primazia ao seu campo político: o centro-direita da Força Itália, com o apoio dos xenófobos da Liga Norte e dos herdeiros do Movimento Social Italiano (neofascista) dos Irmãos de Itália obteria 37% dos votos; o Movimento 5 Estrelas seria, contudo, o partido mais votado, com 28% dos sufrágios; seguido do Partido Democrático (PD), que lidera o atual governo, que teria no máximo 27% das preferências.

No caso de Berlusconi não ser absolvido pelo Tribunal de Estrasburgo, fala-se, caso o centro-direita obtenha a maioria, no nome de Antonio Tajani, atual presidente do Parlamento Europeu, para dirigir o governo, o que permitiria realçar a atual postura europeísta da Força Itália, em contraposição com o alegado ‘populismo’ do Movimento 5 Estrelas. Mas para isso acontecer é preciso não só que o centro-direita seja maioritário como que nele ganhe a Força Itália à Liga (novo nome da Liga Norte), o que é provável, mas não garantido. As últimas sondagens dão 15 a 17% à Força Itália, 12 a 15% aos xenófobos e antieuropeístas da Liga, agora dirigidos por Matteo Salvini, e cerca de 5% aos Irmãos de Itália.

Este alinhamento de Berlusconi com a Europa abre outros dois cenários possíveis de governo: uma grande coligação de europeístas que colocasse no governo a Força Itália e o Partido Democrático; ou uma coligação, caso obtivessem a maioria dos lugares, dos dois partidos antieuropeus e contra a imigração: o Movimento 5 Estrelas e a Liga Norte. Nesse caso, seria provável que o país se visse confrontado a curto prazo com um referendo sobre a permanência no euro que poderia abrir caminho a um ‘Italexit’.

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