18/9/18
 
 
André Abrantes Amaral 01/03/2018
André Abrantes Amaral

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A política e a cultura

Em outubro, a jornalista Laure Adler escreveu um pequeno texto na “Revue des Deux Mondes” sobre as semelhanças entre Macron e Mitterrand. Achei a analogia interessante pois, apesar de todas as diferenças entre os dois - Mitterrand foi presidente aos 65 anos depois de duas tentativas falhadas, Macron com 39 anos e qual meteoro para grande surpresa de todos -, desde o princípio também encontrei neles certas semelhanças.

O momento em que a sensação se tornou certeza foi quando Macron, logo depois de eleito, surgiu a caminhar sozinho no Louvre em direção ao púlpito para falar ao povo. A sua figura e pose lembravam as de Mitterrand. Seguro de si, andar direito, embora diferente da figura rígida que era a de De Gaulle, mas acima de tudo consciente do papel que a partir daí desempenhava. Tanto um como outro cedo tomaram consciência de que, depois de eleitos, deixavam de ser apenas Mitterrand e Macron, e tornavam-se presidentes de França. 

Porque conviveu com Mitterrand - foi sua conselheira para a cultura -, Adler tem mais consciência da parecença entre os dois. Até na perceção da cultura como elemento indispensável para cimentar o prestígio de um chefe de Estado como o francês. Mitterrand preferia a literatura e as artes; Macron, a filosofia, puxando dos galões que se estendem a membros do governo como Édouard Philippe, coautor de duas obras de ficção publicadas, e Bruno Le Maire, ministro da Economia e Finanças, o homem que largou Les Républicains para abraçar a nova geração no poder, já com várias obras publicadas, entre elas um romance, “Musique Absolue, une répétition avec Carlos Kleiber” (Gallimard), onde faz renascer o maestro austríaco que não dava entrevistas, pouco gravava e despachava com respostas secas os mais insistentes.

Mas porque o texto é de outubro e Macron só era presidente há pouco mais de quatro meses - Mitterrand foi-o durante quase 14 anos -, Adler termina o artigo mais com perguntas que com respostas. Mulher de esquerda que é, apoiou Ségolène Royal em 2007 e tem algumas dúvidas relativamente ao atual presidente francês. É que, ao contrário do socialista, Macron não parece querer deixar a sua marca na cidade de Paris nem investir 1% do PIB na cultura. É verdade que os tempos são outros, e neste ponto concreto ainda bem, porque a ideia é atroz, mas para certos setores mais estatizantes levanta dúvidas sobre a veracidade cultural de Macron. Como se ser culto equivalesse a gastar.

Por cá temos um presidente que gosta de ler e está bem assessorado na área cultural. No referido artigo, Laure Adler refere que a forma como Mitterrand apreciava a pintura e os livros foi determinante no modo como agiu politicamente. Talvez o gosto pela leitura de Marcelo tenha ajudado na resposta humana que teve no drama dos incêndios. O certo é que esta perspetiva diz-nos muito sobre a importância da cultura: mais que educar um povo com políticas, sempre dúbias, o gosto pelas artes, quaisquer que estas sejam, eleva-nos. Civiliza-nos. A apreciação do belo pode ajudar a decidir em consciência. 

 

Advogado 

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