16/11/18
 
 
Bento XVI. Cinco anos de retiro e oração para preparar o “regresso a casa”

Bento XVI. Cinco anos de retiro e oração para preparar o “regresso a casa”

Shutterstock José Cabrita Saraiva 28/02/2018 17:52

A 28 de fevereiro de 2013, Bento XVI apanhava um helicóptero para Castel Gandolfo e deixava vago o trono de São Pedro. A retirada de cena do Papa alemão foi há precisamente cinco ano

Nas páginas iniciais de “Conclave”, o romancista britânico Robert Harris descreve pormenorizadamente a destruição do anel do Papa que marca o fim de um pontificado.

“Mas por fim [o anel] soltou-se e ele levou-o na palma da mão estendida a Tremblay [o camerlengo], que tirou uma tesoura da caixa de prata – o tipo de instrumento que poderia usar-se para podar roseiras […] – e inseriu o selo do anel entre as lâminas dela. Premiu com força, fazendo uma careta com o esforço. Houve um súbito estalido e o disco metálico que representa São Pedro a puxar a rede de pesca foi cortado.

– Sede vacante – anunciou Tremblay. – O trono da Santa Sé está vago.”

Em circunstâncias normais, o ritual de destruição do anel do pescador é desencadeado após a morte do Pontífice. Mas há cinco anos foi diferente.

Bento XVI, que sucedera a João Paulo II a 19 de abril de 2005, decidiu retirar-se de cena ao fim de menos de oito anos a comandar os destinos da Igreja Católica. Poucos esperavam que uma figura tão frágil pudesse assumir um gesto tão radical. Afinal, era preciso recuar 600 anos para encontrar outro Papa que tinha renunciado ao seu mandato.

A decisão fora comunicada numa reunião de cardeais no Vaticano, a 10 de fevereiro daquele ano de 2013.

“Queridos amigos, convoquei-vos para este Consistório não apenas por causa das três canonizações, mas para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter repetidamente examinado a minha consciência perante Deus, obtive a certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são adequadas para prosseguir um adequado exercício do ministério Petrino”.

Curiosamente, de início nem todos se aperceberam da importância do que acabavam de ouvir, fosse porque o Papa de 85 anos tinha já a voz fraca, fosse porque escolhera discursar em latim.

“Tudo poderá acabar muito rapidamente” Quando assumira o Papado, Bento já sofria de problemas cardíacos e usava um pacemaker. Nestes últimos cinco anos, multiplicaram-se os rumores sobre o agravamento do seu estado de saúde.

O Papa emérito – que hoje prefere ser tratado por “Padre Bento” – respondeu-lhes com uma carta publicada nas páginas do Corriere della Sera de 7 de fevereiro. “Apenas posso dizer que, com a lento decair das minhas forças físicas, estou numa peregrinação em direção a casa”, escreveu. “É um grande presente para mim estar rodeado, nesta última etapa de uma estrada por vezes cansativa, de um grau de amor e boa vontade que nunca teria imaginado”.

Numa entrevista publicada uma semana depois pela revista alemã “Neue Post”, Georg Ratzinger, o irmão mais velho do Papa emérito (e também ele sacerdote) mostrava-se apreensivo. “A maior preocupação é que a paralisia possa acabar por chegar-lhe ao coração e aí tudo poderá acabar muito rapidamente”. O entrevistado continuava: “Todos os dias rezo a Deus a pedir a graça de uma boa morte, num bom momento, para o meu irmão e para mim. Ambos temos este grande desejo”.

Logo em seguida o gabinete de imprensa da Santa Sé desmentia que Bento tivesse qualquer “doença paralisante ou degenerativa”. Reconhecia, no entanto, “o peso dos anos, que é normal nesta idade.” Ratzinger fará 92 anos a 16 de abril.

A preparar-se para o encontro final Depois de se reunir com o colégio dos cardeais na manhã de 28 de fevereiro, Bento entrou num helicóptero e voou para Castel Gandolfo. Manteve-se naquela que é a residência de férias dos Papas, no Norte de Itália, enquanto a sua futura casa era preparada para o receber.

Hoje, Ratzinger habita um apartamento do pequeno mosteiro Mater Ecclesiae, dentro dos muros do Vaticano, a poucas centenas de metros da residência de Francisco. Como referiu o Papa atual: “Temos o privilégio de ter o nosso ‘avô’ em casa connosco”.

Desde que se retirou para orar, meditar e preparar a derradeira viagem de “regresso a casa”, o Papa emérito tem um quotidiano decerto bem mais tranquilo do que tinha quando ocupava a cátedra de São Pedro, numa época em que a Igreja foi abalada por escândalos financeiros do Banco do Vaticano e por casos de pedofilia no topo da hierarquia católica.

O seu dia começa invariavelmente com a participação numa missa às oito da manhã. Só depois toma o pequeno-almoço. Além da oração, ocupa os seus tempos livres em passeios pelos jardins do mosteiro ou a ouvir música clássica (Mozart é o seu compositor favorito e já em jovem a sua música lhe “penetrava profundamente na alma”). Aliás, ele próprio sabe tocar piano. De tempos a tempos também recebe amigos, como a comitiva da Baviera (região da Alemanha da qual é natural) que costuma visitá-lo por ocasião do seu aniversário, aproveitando para levar-lhe uma boa caneca de cerveja alemã.

O Monsenhor Alfred Xuereb, o antigo secretário pessoal de Ratzinger, foi uma das pessoas que estiveram com ele nos últimos tempos. “Convidou-me para o meu aniversário, para celebrar a missa e tomarmos o pequeno-almoço. Achei-o com uma mente muito ativa; perguntou-me muitas coisas”, descreveu Xuereb. “Também se lembrava de muitos pormenores sobre a minha família, a minha mãe, até os gatos da minha mãe”. O antigo secretário confirma a debilidade física do Papa emérito e recorda os motivos que o levaram a renunciar. “Ele tomou a decisão de viver uma vida retirada precisamente para se poder preparar para o encontro final com o Senhor; entretanto, está a viver uma espiritualidade profunda, oferecendo orações e oferecendo também a fragilidade da sua saúde”.

“Prometo a minha total obediência” O conclave que se seguiu à renúncia de Bento XVI elegeu um Papa que está, de certo modo, nos antípodas do anterior. Se Ratzinger era um intelectual respeitado e reservado, Francisco é próximo e afetuoso. O que não impede uma relação de respeito recíproco.

“Joseph Ratzinger continua a ser um mestre e um interlocutor amigo para todos os que exercem o dom da razão para responder à vocação humana de procura da verdade”, elogiou Francisco. Já o Papa emérito terá dito ao seu sucessor: “Sua Santidade, deste momento em diante, prometo a minha total obediência e as minhas preces”.

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