25/9/18
 
 
Intendente. Quando só os ricos cabem no centro da cidade

Intendente. Quando só os ricos cabem no centro da cidade

Mafalda Gomes Nuno Ramos de Almeida 26/02/2018 17:40

Numa altura em que se perfila a reabilitação de novas zonas de Lisboa, como a Colina de Santana e Marvila, é tempo de olhar com uma certa distância as transformações ocorridas no Intendente, onde as intenções iniciais da autarquia de querer um bairro equilibrado se confrontaram com a vontade e a pressão do mercado e do turismo

Dizia o escritor Paulo Varela Gomes que “a arquitetura é o mijo dos príncipes” para explicar que os poderosos marcam o território com edifícios que mandam construir para tentarem fugir ao esquecimento do tempo.

O largo deve o seu nome ao facto de o intendente Pina Manique ter mandado construir aí o seu palácio. O edifício em questão mudou de donos e de utilizações ao ritmo da história do bairro. Passou de palácio do chefe da polícia a edifício de habitação e, posteriormente, sede do Sport Clube Intendente, coletividade que está, como todas as da zona, a ser despejada para dar lugar a um empreendimento de habitação de luxo. Se um marciano aterrasse nesta praça há dez anos e regressasse hoje no seu flamejante disco voador, quase não reconheceria o local, pejado de bares da moda, de empreendimentos de luxo em várias fases de construção e de um hotel de cinco estrelas onde antes era uma coletividade local. Mas alguma coisa, mesmo assim, permitiria ao nosso explorador planetário perceber que estava onde tinha aterrado há uma década: a barbearia do sr. Júlio Cunha, cujo pai foi um dos fundadores do Sport Clube Intendente. Ele foi presidente da coletividade e o seu filho Paulo é atualmente o responsável. “Esta barbearia tem mais de 110 anos, segundo me disse a minha avó. Foi o meu avô que a fundou, aqui trabalhou o meu pai e agora trabalho eu”, diz o sr. Júlio, sorridente nos seus 82 anos. “Nasci em 1935, o meu pai nasceu em Torres Vedras. Foi ele que fundou, com outros, o Sport Clube Intendente. Eu fui diretor várias vezes, secretário, presidente, vice-presidente e treinador. Fiz de tudo nesse clube.” Um clube que foi formado em 1933 a partir da junção de duas coletividades, uma delas falida, o Sporting Clube Intendente. “Nós chamamo-nos Sport Clube Intendente para aproveitar as bandeiras e as camisolas com a sigla do anterior clube, e por uma questão de toda a gente do bairro se sentir identificada. O nosso símbolo tem as cores do Sporting, a cruz de Cristo do Belenenses e a águia do Benfica”, um pragmatismo muito típico das gentes do Intendente.

A coletividade está a pouco tempo de ser despejada. No fundo, a sua sorte traduz as mudanças que foram acontecendo no bairro. “Nós chegámos a ter campeões de ténis de mesa. A nossa primeira crise foi quando os grandes clubes passaram a pagar aos atletas, depois veio a perda de hábitos de convívio e de ir para a coletividade, e depois a perda de habitantes do bairro, devido às recentes mudanças”, disse o sr. Júlio há uns meses, numa conversa no Largo do Intendente com gente de várias coletividades locais. Enquanto vai aparando o bigode a um morador e conversando com duas pessoas que esperam, vai discorrendo sobre as mudanças na zona. “O bairro já teve várias fases. Houve uma fase em que havia as camionetas [o largo estava ocupado por várias camionetas de uma empresa de transportes], o que não era mau. Depois houve uma fase em que começou a aparecer a droga, e foi uma fase horrível mesmo, não se podia cá estar. Entretanto veio cá o nosso presidente [António Costa mudou-se em 2010 para o Intendente para iniciar o processo de reabilitação do bairro] e ficou uma zona chique.” O problema, conclui o sr. Júlio enquanto acaba de aparar um farto bigode, “é a falta de habitantes locais. Estão a desaparecer. Uns por causa dos arrendamentos locais – os senhorios estão a aproveitar-se desse facto e a despejar as pessoas. O bairro está cheio mas é de estrangeiros. Antigamente, eu saia à rua e conhecia toda a gente, não só do meu prédio como da rua. Hoje, isso já não existe. Quando era miúdo conhecia a gente toda. Hoje, isso é impossível”.

A Mouraria foi durante séculos um bairro tornado ostensivamente invisível. Foi para lá que foi despejada a população muçulmana depois da conquista da cidade. Essas populações foram colocadas fora das muralhas do castelo e, posteriormente, além da Muralha Fernandina.

A Rua do Benformoso, que deve o seu nome a ser uma via para a passagem dos animais – uma adulteração de “boi formoso” –, foi, com a Rua dos Anjos, um curso de água; posteriormente, um local de acesso aos campos agrícolas que estavam no atual Largo do Intendente, que foram sendo substituídos pelas fábricas da viúva Lamego, transformando-se a Rua Direita, como eram conhecidas as duas ruas, na grande via comercial deste lado da cidade. Esse estatuto só o perderia com a edificação da Avenida Rainha Dona Amélia que, depois da República, se transformou em Almirante Reis, e com a Rua da Palma, que continua essa avenida até ao Martim Moniz.

Como escrevia sobre a zona o poeta Castilho, nuns versos que vamos roubar à tese de Hélène Veiga Gomes: “Gentes, animais, focinhos e caretas/ Pés e patas, caleches e carrões/ Cavalos, burros e peões,/ Saloios, cidadãos, pretos e pretas./ Tudo isto com berros e trembetas,/ Discorde como o uivar dos furacões,/ Um sem cessar de rodas e pregões,/ Um valpúrgis de carros e carretas./ Sobre isto ainda avulta, acres e vivaz,/ O maço d’um latoeiro impertinente/ Noite e dia a bater, zás-trás, zás-trás./ E que é isto? Perguntarás certamente;/ O dia do juíso, pensarás,/ Enganas-te – é o Largo do Intendente.”

Mas concentremo-nos na Rua do Benformoso. No início, perto do largo, tínhamos o Kassim, uma casa de kebabs muito frequentada pelas prostitutas dos bares que havia na rua por ter várias saídas e cozinhar, para as mulheres de ascendência africana, um prato com asas de galinha picante, como descreve Hélène Veiga Gomes no seu trabalho de doutoramento sobre a zona. O restaurante oriental deu lugar ao Bistrot Josephine e, por aí abaixo, a rua foi-se transformando. Símbolo disso é um estabelecimento no enfiamento da Rua do Benformoso com a travessa do mesmo nome. Foi durante décadas um cabaré; há uns anos transformou-se numa hamburgueria gourmet que as rusgas do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) em busca de imigrantes e o ambiente pesado na zona fizeram fechar; posteriormente foi substituído por um restaurante indiano, e agora, quando me aproximo da zona, vejo que mudou outra vez de proprietários. A acompanhar as obras estão três amigos, um catalão e dois portugueses, João, António e Marcelo, que vivem em Barcelona e vão inaugurar em abril um “bar close, uma espécie de clandestino com coisas surpreendentes e uma entrada secreta”. E mais não revelam. Até agora, o processo de gentrificação não tem conseguido penetrar nesta Rua do Benformoso em que se misturam cheiros e sabores de todo o mundo. Quando descemos esta via temos, ainda no início, alguns bares que mantêm os clientes e as mulheres; a meio da rua predominam os restaurantes do Bangladesh e os talhos halal, em que a carne é cortada segundo os preceitos muçulmanos; no final dela começam a aparecer os restaurantes clandestinos chineses e até a sede da associação dos imigrantes chineses.

De tal forma que tanto o novo ano chinês, a 16 de fevereiro, como o fim do Ramadão (Eid al-Fitr), este ano uma data escolhida entre 15 de maio e 14 de junho, enchem as ruas de cores e animações longínquas. Mas mesmo na antiga Rua Direita a mudança de propriedade dos edifícios espelha as alterações de poder na zona. A Coletividade Amigos do Minho, que esteve durante dezenas de anos alojada num palacete, foi despejada. O prédio encontra-se à venda por dois milhões de euros. Os bailes de fim de semana com música portuguesa para os habitantes do bairro, as refeições regionais baratas e o local de reunião de dezenas de associações e movimentos sociais perderam-se na vertigem imobiliária. Já é do passado a imagem de chegar aos Amigos do Minho e ver atrás do balcão do bar as fotografias do Papa e dos pastorinhos de Fátima, enquanto a poucos metros, nas outras salas, se realizava a “Feira do Livro Anarquista”.

A poucos metros da coletividade há um restaurante nepalês. Manisha Jaiswal é nepalesa e está apenas há seis meses em Portugal. Ainda está a ambientar-se ao país e trabalha neste restaurante. A maioria das queixas dos imigrantes vindos maioritariamente da Ásia que trabalham e muitas vezes habitam na rua fazem é que, apesar de trabalharem e terem condições legais para se legalizarem, o processo conduzido pelo SEF é muito lento, e embora a lei preveja um conjunto de apoios sociais, como acesso ao Serviço Nacional de Saúde, essas pessoas são, por vezes, impedidas de aceder a esses serviços, como acontece a muitas mulheres grávidas, a pretexto do desconhecimento do português. Quando falamos com o paquistanês Nur, ele está desesperado. Queixa-se de, apesar de ter pessoas dispostas a investir no seu restaurante e a criar mais postos de trabalho, não ter conseguido legalizar-se desde que cá chegou, há três anos. Queixa-se também de descontar para os impostos e a segurança social, mas o facto de não estar legalizado prejudica-o e obriga-o a trabalhar mesmo estando doente. Mais abaixo, no primeiro restaurante do Bangladesh que se instalou na rua, falamos com Mozzammel está em Portugal desde 2013, demorou 31 meses a conseguir os papéis. Tal como Nur e muitos dos imigrantes mais recentes, pretende fixar--se em Portugal. Antigamente, a maioria dos imigrantes destas regiões da Ásia entravam na Europa por aqui, mas pretendiam ir para o Reino Unido. Mozzammel estudou informática em Chipre, foi em Lisboa chefe de cozinha e já trabalhou em restaurantes portugueses, e gosta bastante de alguns pratos típicos, como filetes de polvo. Neste momento trabalha em computadores, numa loja da rua. Algum tempo depois, temos a informação de que recebeu finalmente os seus papéis de residência.

Quando, em setembro de 2010, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, anuncia que vai instalar provisoriamente a sede da autarquia no número 27 do Largo do Intendente, num edifício pertencente aos herdeiros da viúva Lamego, fá-lo para dar força à intenção de recuperar aquela parte central da cidade. “É preciso romper o estigma e dizer a toda a gente que a praça do Intendente é parte integrante da cidade, que não é perigoso viver, trabalhar e investir aqui, que vale a pena usufruir desta praça que temos em pleno centro da cidade de Lisboa”, declarou o autarca. É inscrita no plano de ação de Lisboa uma verba de 12 milhões de euros. O objetivo é restaurar o pavimento, transformar edifícios públicos em equipamentos sociais, abrir um jardim-de-infância, renovar os edifícios para conseguir fogos de habitação a custos moderados. Menos de oito anos depois, esse plano transformou-se e as casas a custos moderados passaram a casas de luxo.

Uma das primeiras associações que vieram de novo para o bairro, as Residências ao Largo [ver entrevista ao lado], que participou nas atividades culturais que mudaram a imagem do bairro e o tornaram apetecível para a especulação imobiliária, é vítima do seu próprio sucesso. Está ameaçada de despejo pelos herdeiros da viúva Lamego.

Sara Goulart gere as Oficinas Cowork, um dos novos negócios que chegaram ao bairro. A maioria dos utilizadores deste espaço de trabalho dividem-se entre portugueses e estrangeiros, e parte importante destes residem no bairro. “Nestes dois anos e meio, que se confundem com o tempo em que frequentava a zona sem trabalhar aqui, assisti ao momento em que há uma mudança da vontade inicial de António Costa de criar um bairro plural, com os negócios já existentes e os moradores que cá viviam, para um outro modelo. Grande parte das promessas feitas vão por água abaixo e, fora do largo, os problemas mantêm-se. A venda dos edifícios do Estado e do município dá ideia que, mais que uma desistência do poder público da zona, esta gentrificação sempre fez parte do plano em que os projetos culturais foram uma espécie de sua guarda avançada, como o Festival Todos, que já está noutra zona da cidade.”

Uma das iniciativas do Festival Todos para empoderar os moradores do bairro foi fotografá-los e expô-los em grande formato. Quatro fotógrafos, entre os quais Luís Pavão, expuseram dezenas de cidadãos do bairro sob o slogan “Viajar pelo mundo sem sair de Lisboa”, mostrando a diversidade cultural de uma zona. Resta saber, sete anos depois, quantos ainda vivem na zona do Intendente.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×