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A alucinante morte de Ghuta

A alucinante morte de Ghuta

AFP Félix Ribeiro 25/02/2018 11:11

Mais de 300 pessoas morreram esta semana nos arredores de Damasco, sob as bombas do regime. É a Srebrenica do séc. XXI, dizem médicos em Ghuta.

Nos bairros de Ghuta Oriental, a apenas 20 minutos de autocarro do centro de Damasco, não se reconhecem já os edifícios, hoje transformados em sepulturas de cimento, betão e ferro retorcido, produto dos milhares de bombardeamentos dos últimos sete anos. Os bairros onde antes da guerra viviam sobretudo os operários da indústria síria dos laticínios, comerciantes e agricultores são hoje o domínio rebelde mais inconveniente para Damasco e também o que Bashar al-Assad mais procurou aniquilar no conflito. Há cinco anos explodiram nestes bairros rockets com ogivas do gás nervoso Sarin, matando indiscriminadamente centenas de pessoas. Os Médicos Sem Fronteiras oferecem a estimativa mais conservadora para esse dia de agosto de 2013:355 mortos, entre eles dezenas de crianças. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, o grupo em contacto com ativistas no terreno, estima em 502 mortos. Os Estados Unidos falam em mais de 1400 vítimas. 

Nunca se deixou de morrer em Ghuta desde esse verão. Morreu-se de forma mais silenciosa, da fome provocada por cercos mais ou menos severos, concebidos a centenas de metros, nos edifícios do governo sírio, de forma a fazerem cair os rebeldes islamistas dos bairros dos subúrbios e acabar com o seu enclave mais impertinente. Esta semana, porém, a violência atingiu de novo as proporções de há cinco anos. O regime sírio lançou a maior vaga de ataques aéreos, disparos de artilharia e ondas de rockets de que há memória nos antigos bairros operários, onde por estes dias, segundo os números da ONU, vivem à volta de 400 mil pessoas em condições desumanas, subnutridas, sem acesso ao material médico de que precisam, água limpa e comida. Metade são crianças, a chamada «geração perdida» da Síria. São crianças que morrem como adultos. Esta semana morreram 71 menores e 42 mulheres no ataque à escala «alucinante» de que falavam sobreviventes ao Guardian. No total, segundo as contas do Observatório, morreram só esta semana em Ghuta Oriental 310 pessoas. Quase o triplo das vítimas em Paris nos atentados de 2015. 

Entre domingo e a noite de ontem – e os números, como é habitual na guerra síria, discutem-se ad nauseam – o regime atacou mais de três mil vezes os 97 quilómetros quadrados dos arredores de Damasco, segundo contas do Observatório. «Em cinco anos de cerco, nunca testemunhámos tamanha intensidade de bombardeamentos», dizia esta semana uma médica pediatra na zona rebelde, também diretora de uma das clínicas subterrâneas e descaracterizadas do bairro, identificada pelo El País como Wissam. Enquanto dava uma entrevista por telefone ao diário espanhol, o seu hospital foi atingido pela aviação de Assad. É uma prática habitual. Em Ghuta hoje, como em Alepo antes. É uma forma de desgastar a população. Assad é um veterano da estratégia. Wissam ligou de volta. Não havia estragos de maior. «Toda a Ghuta está fechada nas suas caves e refúgios, e mesmo assim continuam a chegar feridos», explicou. 

A grande ofensiva desta semana contra Ghuta parece ser apenas o preâmbulo de ainda mais violência. Bashar al-Assad tem a sobrevivência garantida, assim como a mão de ferro russa e iraniana, que, mesmo tendo vencido a guerra em nome do ditador, não o conseguem controlar por completo. As forças de Damasco estão em franca expansão territorial. Não se contentaram com Alepo, não se resignaram aos avanços rápidos no noroeste do país contra os grupos rebeldes e islamistas em Idlib e preparam-se para tomar à força os bairros populosos de Ghuta. A morte desta semana pode multiplicar-se em breve e em várias ordens de grandeza. «Prometo que lhes darei uma lição em combate e fogo», ameaçava esta semana um dos generais de Assad, que acompanha as grandes mobilizações que por estes dias se avistam às portas dos bairros operários. «Estamos perante o massacre do séc. XXI», diz, por sua vez, um outro médico de Ghuta Oriental, em declarações aoGuardian. «Se o massacre dos anos 1990 foi Srebrenica, e os massacres dos anos 1980 foram Halabja e Chatila, então o massacre de Ghuta Oriental é o deste século e está a acontecer agora.»

Assad compra novas frentes de combate e dá sinais de, como diz, querer o país todo para si e em breve. No fim de semana passado, milícias armadas que até recentemente combatiam em seu nome no norte do país cruzaram pela primeira vez as linhas do território curdo e preparam-se para lutar contra a pequena mas mortífera invasão turca dos últimos dois meses. Ainda não se deram confrontos diretos, Moscovo tenta impedi-los, mas o risco é grande e as possíveis ramificações são imprevisíveis. A ONU pouco consegue fazer. Está há muito de fora do círculo que controla a guerra. Esse reúne-se em Astana com Vladimir Putin à cabeceira. Staffan de Mistura, o enviado especial das Nações Unidas para a guerra na Síria, pediu ontem uma reunião urgente do núcleo diplomático alinhado com Assad. No início da semana já pedira um mês de cessar-fogo para entregar ajuda humanitária urgente. O enviado especial da Rússia para a ONU, Vassily Nebenzia, respondeu-lhe na quinta. A proposta de apaziguamento, afirmou, é irrealista.

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