14/11/18
 
 
Mumtazz. Um murmúrio de restos, uma oração extraordinária

Mumtazz. Um murmúrio de restos, uma oração extraordinária

Diogo Vaz Pinto 14/02/2018 13:23

A grande discrição desta artista portuguesa contrasta com a alegria irreverente com que vem conquistando o quotidiano para uma infindável e tão sedutora revolta

É raro o olhar que dá com um objeto derrubado em si mesmo. Deitado nos seus contornos, espreguiçando-se, indo de um bocejo a um gesto obsceno - e das coisas inanimadas, qualquer gesto seria para a maioria de nós uma ofensa -, como se houvesse perdido o juízo. Gritasse: “Chega, eu desisto! Não brinco mais a isto.” O objeto - uma vassoura, por hipótese, cansada de ir e vir, cumprir com a limpeza para logo ser arrumada a um canto - atualizado nalgum detalhe, nas irregularidades que lhe são próprias: o modo como se desfralda, como atira a farda ao chão e se raspa, nem que por um instante, para escapar à sua função. A essa utilidade que lhe é reconhecida e que, a todos os outros níveis, o encerra numa cena dolorosamente finita. Assim, são os objetos de uso quotidiano os mais difíceis de olhar de novo, de encarar como encostam a cabeça nas grades, à janela da necessidade que satisfazem. Suspirando. 

Mumtazz exprime-se por meio de uma humorada provocação ao mais vasto sistema das formas reais, e o seu espaço de criação parece nascer de uma longa ressaca. Utilizando diversos suportes e linguagens - seja o som, o bordado, a fotografia, a instalação, e fazendo-se valer do efémero, desdobrando materiais insuspeitos, muitos deles orgânicos, num inventário mutante -, vai arrolando as suas testemunhas para um processo que evidencia o quanto a criação ainda ouve muito, e acata o: “vai brincar lá para fora”.

Entre o final do passado mês de outubro e o início deste mês, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães recebeu a exposição “Hilaritas: Ascensor D’Mente”, uma mostra antológica do percurso de duas décadas da artista nascida em Lisboa, em 1970, com uma prática desafiadora, mas que, na sua ação política e ecológica, não fica reduzida ao desgosto, antes retira sentido dessa expressão, Hilaritas, vinda do latim, e que significa “alegria ou leveza”.

O modo como os elementos de diferentes culturas e tempos históricos conversam e se afrontam produz uma cumplicidade jubilante. E este “efeito de expansão poética”, sublinhado por Nuno Faria, curador da exposição, não apenas questiona fronteiras e limites, como zomba deles, dança sobre linhas e zonas de interdição. O seu universo criativo nasce de um deitar a língua de fora à solenidade das coisas, à rigidez e à ordem, sugerindo uma abertura em que a fantasia pede a mão ao real, puxa-o para uma dança evolutiva. E a poesia, essa que Maurice Lefèvre entendeu como o fenómeno que se opera quando o quotidiano se vinga e cai no domínio do extraordinário, é uma influência que nos convida a um desbragar, como música, um despautério, um despropósito, uma coisa que nos encha, a nós e às coisas, até derrubá-las, até que se derramem.

O desenho é só o princípio, formas e cores; os sons, uma paleta que a nada se recusa, e é claro que se a comida não é para desperdiçar, não se pode apenas comê-la, não se pode não brincar do modo mais sério com ela. Por isso, Mumtazz tem peças com vegetais, pão, fazendo colagens, usando a arte em píxeis, tornando impossível a mera paráfrase verbal da sua arte, das realidades que exponencia, porque se trata precisamente de criar esse ascensor, um deslimite que obrigue a mente a passar pela demência de ver os elementos mais mundanos, os mais comedidos no uso que lhes damos, a adquirirem uma atitude sorridente, disponível. As peças de Mumtazz não só sorriem como rezam.

Nesta exposição observa-se um talento para cortar a película, expor as entranhas e o fogo, fazer com que o que estava selado na sua circunspecção já não queira saber daquilo que era suposto ter sido o seu fim. Um bando de peças amotinadas, que não correm, no entanto, para a agressão artificial, mas usam o seu despudor de forma mais sedutora, mostram como a alternativa é ainda mais pregnante.

E podiam citar-se muitos poemas, dado que esta artista consegue com um vocabulário mais vasto fazer o que outros fazem recorrendo primeiramente às palavras, e estas parecem assumir a denúncia do que acaba por ser o verdadeiro desperdício, que é o estar tudo tão caído, tão explorado por uma só função que “morre à míngua de excesso”. Se Mumtazz há muito tem evitado o circuito das galerias de arte comerciais e os seus ditames, e se isto leva a que a sua arte viva da boca para o ouvido, como um segredo, e se integra no seu processo de invenção a busca de outras formas e locais de exposição, estas luminosas peças, deixam a sombra de uma acusação, perante um mundo em que “há poucos fenómenos do fogo”, como “água há pouca”, como a energia dos elementos, e a natureza tão pouco parecem hoje ser capazes de nos infundir algo mais que um distante respeito, patéticas formas de admiração. Falta este jeito e graça, este modo de amar as coisas na sua mais “bárbara maravilha”.

 


 

 

A Arte Sacra de Mumtazz

Um conjunto de reflexões suscitadas pela emoção estética experimentada por António Barahona perante uma figura da actual exposição, contemplada na intimidade da sua oficina

 

“A beleza e a oração constituem a syntese mais elevada da vida.”

Dostoiewsky

 

A essência da Arte Transcende a Natureza, devido à aspiração de beleza, que se manifesta até no homem aparentemente mais primitivo, que não se contenta com a realidade que o rodeia e procura algo de diferente e de mais elevado: por isso o homem primitivo se tatua, se pinta de vermelho ou de azul, ou se cobre de cinza, ou trespassa as narinas com uma espinha de peixe, etc, atribuindo a todos estes actos um conteúdo religioso e utilizando o seu próprio corpo como suporte da arte sacra que o liberta, num flash, da matéria circundante, em troca da emoção estética que perdura. 

O homem inicial concebe o corpo tal um objecto rutilante de côr, rico de contornos inéditos, em contacto com imagens fulgurantes e fugitivas.

O homem inicial é, simultaneamente, iniciático.

A Arte contemporânea interioriza esta exposição corporal e só o espírito participa da obra que exibe a nudez.

Mumtazz segue o caminho inverso: exterioriza, à imagem do homem primevo, o seu próprio corpo que torna o seu espírito visível, na unidade de uma poética intemporal e visionária.

A Arte e a Religião são contíguas e geminadas: vai-se de uma para a outra, sem sair de casa. 

Na religião da Arte predomina a mudança e na arte da Religião a continuidade da Tradição primordial, conforme a doutrina expressa nas Escrituras, desde os Vêdas até ao Alcorão.

E, além de contínuas e geminadas, a Arte e a Religião são também absolutamente interdependentes: não há Arte sem Religião nem Religião sem Arte.

Na Arte predomina a obscuridade e na Religião a claridade: amigas inseparáveis, não podem viver uma sem a outra.

O poeta é obrigado a casar com as duas.

Neste contexto, portanto, em que impera a complementaridade necessária à conciliação dos contrários, já não se verifica oposição entre o real e o imaginário, porque o real provém igualmente da nossa imaginação.

Poder-se-ia dizer, como já asseverou alguém a propósito da Poesia, que a imaginação reina sozinha ou abdica.

Mumtaz projectou e esculpiu o seu corpo de glória, situado no reverso da folha em que foi desenhado; e, atrás da sombra do seu perfil, descobriu a luz multicolor e pormenorizada de vidrilhos e vastidão de vitrais: armadura d’Anjo, ciente da armadilha e da luta sem nenhuma estratégia e sem tréguas. 

 

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