16/8/18
 
 
Afonso de Melo 14/02/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Afshin e a porta do cavalo

TEERÃO – “Eu dava um pontapé na bola para o ar com tanta força que até que ela voltasse ao chão dava tempo para tomar uma bica”, gaba-se Afshin no seu português às vezes atrapalhado. Jogou no Belas e nos miúdos do Belenenses.

Fugiu à primeira guerra Irão-Iraque e veio para Lisboa. Viveu 20 anos em Portugal. Conheci-o aqui, em Teerão, em 2006, quando se passeava pelas avenidas ao volante de um enorme Studebaker. “Agora é muito raro falar português. Em minha casa, ninguém fala. Quando ligo para a RTP Internacional, a minha mulher reclama: ‘Não percebo nada disso! Muda!’” 

Ficámos amigos para sempre, atravessámos o seu país magnífico de norte a sul e de sul a norte, entre Ormuz e Tabriz, com Pasárgada e Isfahan pelo meio. “Precisas de um carro e de cerveja!”, decide quando nos reencontramos. “Amanhã trago-te. Depois podes andar por aí à vontade sem estares dependente”. Conversa de louco. E só se também eu fosse atacado por uma crise de bexigas loucas é que me aventuraria a conduzir no infernal trânsito de Teerão, ainda por cima com as ruas entupidas de neve e bermas invadidas por veículos abandonados pelos donos desesperados com tamanha tempestade.

Não! Prefiro ir a pé, nem que me vá enterrando até aos joelhos. Já quanto à cervejinha pela porta do cavalo, não recusaria a simpatia deste meu amigo único que tem saudades dos manjericos à varanda das janelas da Madragoa.

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