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Flores do Imperador. O jardim encantado de Calouste Gulbenkian

Flores do Imperador. O jardim encantado de Calouste Gulbenkian

José Cabrita Saraiva 13/02/2018 15:43

No Museu Gulbenkian, em Lisboa, há flores e plantas que espelham as descobertas botânicas dos europeus e o esplendor da corte mogol nos séculos xvi e xvii. Livros, gravuras, têxteis, marfins e objetos de cerâmica para ver até 21 de maio.

Um “olhar cruzado entre Oriente e Ocidente” – eis como Teresa Nobre de Carvalho, curadora e investigadora do Centro de Humanidades da FCSH, Universidade Nova, define “As Flores do Imperador. Do bolbo ao tapete”, a exposição que inaugurou na passada semana na Fundação Calouste Gulbenkian. Localizada na galeria mesmo em frente da Biblioteca de Arte, a mostra reúne livros antigos, ilustrações de botânica, dois tapetes de grandes dimensões e ainda outros objetos diversos, como marfins ou uma caneca de cerâmica turca do século XVI. Em comum, estes artefactos possuem a decoração com motivos vegetalistas, designadamente representações de espécies de flores que os europeus descobriram no Oriente e trouxeram para a Europa.

“Para esta viagem partimos da Europa do final do século XV, onde se pensava que todas as plantas que era necessário conhecer já tinham sido descritas pelos autores da Antiguidade”, explica Teresa Nobre de Carvalho. “Mas o início do século XVI vai mudar radicalmente esta postura, principalmente pelas viagens de exploração à América e Ásia”.
Clara Serra, também curadora da exposição, continua:“Os portugueses chegaram a terras muito distantes e depararam-se com uma realidade muito diferente, uma natureza exuberante. A partir de certa altura começam a chegar aos portos europeus variados produtos até então desconhecidos, e entre eles sementes de plantas e bolbos de espécies que foram desde logo aclimatados, plantados e descritos por botânicos e por estudiosos”.

Em parte graças a esse confronto com uma natureza desconhecida, “os europeus apercebem-se de que conhecem pouco as suas próprias plantas e vão começar a fazer expedições botânicas mesmo na Europa”, nota Teresa Nobre de Carvalho. “Universidades italianas, alemãs e francesas vão começar a ter alunos e professores a fazer levantamentos da flora”.
Assim nascem, a partir de 1530, alguns álbuns de botânica ilustrados que descrevem ao pormenor as recentes descobertas, bem como jardins que se tornam verdadeiras “bibliotecas” de espécies endógenas ou exóticas. Ojardim botânico de Leiden, na Holanda, o jardim de Henrique IV, Rei de França, e o jardim do bispo de Eichstätt, na Baviera, são três exemplos acabados do espírito que animava aquela época.

Mas mesmo depois de serem plantadas e de ganharem raízes na Europa, as plantas oriundas do Oriente não deixaram de viajar. Clara Serra explica-nos como: “Os imperadores mogóis [império fundado em 1526, que dominou o subcontinente indiano e atingiu o seu apogeu entre meados do século XVI e o início do século XVIII, entrando depois em declínio] destacaram-se pelo seu gosto refinado, pela sua cultura, pelo seu interesse e patrocínio das artes, e também pela sua abertura relativamente a outras culturas. E foi nesse âmbito que o imperador Akbar promoveu debates religiosos, para os quais convidou líderes de outras religiões para discutir ideias e textos. Os jesuítas tiveram um papel muito importante, porque eram abertos ao diálogo, interessavam-se pelo Islão e levaram para a corte mogol uma quantidade de gravuras, pinturas e álbuns de plantas”. 

Opulência natural

Ao chegarem ao Oriente, os desenhos e gravuras europeus fecundaram o panorama artístico ali vigente, contribuindo para mudanças sensíveis na forma como se representavam as plantas daquelas paragens: se antes os artistas locais as apresentavam de forma esquemática, a partir de então começaram a incluir pormenores que acrescentavam realismo.

Algo que pode ser constatado, por exemplo, nos dois enormes tapetes que constituem o ponto alto e o fulcro da exposição. Outrora na residência de Calouste Gulbenkian em Paris, foram feitos provavelmente em Lahore (atual Paquistão) no século XVIIe terão pertencido ao marajá de Jaipur. Símbolo de luxo e de conforto, veiculavam também um rico conteúdo simbólico (ainda hoje os muçulmanos não dispensam o seu tapete para as orações, por exemplo), exibindo representações de jardins paradisíacos.

“A produção têxtil na Índia desde cedo esteve ligada às classes de elevado estatuto social. A sua utilização na decoração dos palácios e tendas foi desde sempre empregue numa cultura em que o mobiliário, tal como o conhecemos, não existia – as paredes eram revestidas de sumptuosos têxteis, o chão coberto de tapetes em cima dos quais se dispunham estrados e mesas forradas de tecidos. Estes ambientes ‘atapetados’ impressionaram os viajantes que chegavam àquelas terras”, refere Clara Serra num texto do catálogo.

A presença destes tapetes na coleção de Gulbenkian condiz perfeitamente com a sua personalidade, quer pela sua origem oriental, quer pelo seu estatuto social. Masdenota também um traço importante do seu gosto:“A natureza é uma constante nesta coleção. Aliás na biblioteca pessoal de Gulbenkian há imensas obras sobre jardins, sobre flores, sobre maneiras plantar”, revela Clara Serra. “Ele gostava imenso de usufruir da natureza e tinha uma propriedade na Normandia, Les Enclos, onde gostava de se recolher para pensar. A natureza esteve sempre muito presente” na sua vida e no seu gosto, “e isso nota-se na seleção que fez das suas obras”.

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