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Black Panther. O lado negro da Marvel

Black Panther. O lado negro da Marvel

Davide Pinheiro 13/02/2018 15:37

Hollywood encara o Séc. XXI de frente e inverte os papéis habituais da história. “Black Panther” é um herói negro de um país africano terceiro-mundista onde se esconde o milagre da salvação. Dilemas e camadas sustentam um ‘blockbuster’ que tem em Kendrick Lamar um braço armado.

No cinema, e em toda a criação que espelha o real, a narrativa global aguarda por superheróis brancos e americanos para salvar o mundo. “Black Panther”, a adaptação cinematográfica da personagem da Marvel apresentada em 1966 no livro “Fantastic Four Vol. 1”, inverte a ordem natural dos acontecimentos, e não só escolhe um protagonista a condizer como todo o elenco e produção são formados por negros. O argumento segue essa mudança histórica de paradigma e em vez de conceder aos EUA o papel de São Salvador do mundo, atribui esses poderes a Wakanda, um país terceiro-mundista aos olhos do planeta onde se esconde o milagre da salvação.

Entre as primeiras intenções de Wesley Snipes tirar “Black Panther” da banda desenhada e adaptá-lo ao cinema, e a rodagem passaram 25 anos. Dos estúdios de Hollywood, 2018 é o momento mais que perfeito para fazer de um negro um superherói e do filme um êxito de bilheteira. Barack Obama deixou um lastro de mudança na Casa Branca, Oprah Winfrey é a voz da consciência americana em horário nobre, e...há um vilão sentado na cadeira do poder em posição de resistência assumida a transformações sociais e culturais que, aparentemente, o primeiro mundo dava por instituídas. Outros sinais não podem ser ignorados. As minorias étnicas e sexuais emanciparam-se. Abusos de poder materializados em abusos sexuais sobre mulheres – e Hollywood é apenas a ponte do rochedo – estão a fazer ruir pequenos grandes impérios de gigantes de pés de barro. Há o hip-hop a ocupar o espaço geracional e subversor do rock e a afirmar-se como a banda sonora do Séc. XXI. E todas as danças de génese rítmica negra a formar uma santa aliança em nome da batida sem fronteiras. 

“Black Panther” assimila o novo “normal” mas não se limita a aceitá-lo sem questionar o choque. Nos vales de Wakanda, há uma montanha de Vibranium, o metal mais raro do planeta, capaz de absorver quase todas as energias e funcionar como um escudo. A nação esconde a riqueza como uma arca perdida e aí nasce o primeiro dilema. Proteger o território ou salvar a humanidade? Viver no isolamento ou queimar a tradição? 

T’Challa, o hesitante herdeiro do trono, enfrenta inimigos internos e externos. Black Panther por direito genético, vive na incerteza entre a proteção da terra santa de Wakanda e a hipótese de liderar o mundo, podendo salvar os menos privilegiados, mas também abrindo o flanco para futuras guerras e ameaças pela exploração do “novo petróleo”. O dilema entre viver em comunidade ou aceitar a globalização é uma das camadas políticas que sustentam a história além dos parâmetros de ação.

Nas montanhas de Wakanda onde o milagre da vida eterna possível, esconde-se um laboratório do admirável mundo novo liderado pela tecnoespecialista Shuri. A irmã de T’Challa e cérebro mais avançado de Wakanda não é um geek de Silicon Valley, nem um japonês trancado no quarto desde a primeira vez que jogou Super Mario. É uma mulher leal, atraente e sensível à moda. Ali, onde a videochamada cabe na palma da mão, e onde os comboios circulam através de levitação, o cenário é de videojogo. As imagens da savana contrastam com o futurismo da cidade. Wakanda habita entre o passado remoto da diáspora e de um mundo pós-racial em que a tecnologia é de facto, pacificadora, permite derrubar muros e estreitar relações. Só que essa fatura tem um preço e a riqueza perpetua a cobiça pelo poder. T’Challa já derrotou as tribos rivais mas terá de se deparar com o inimigo da “civilização ocidental”: Erik Stevens, o filho rejeitado por Wakanda, pretendente do trono para vingar a morte do pai e descarregar ódios acumulados entre dentes. 
Killmonger, como é conhecido, surge no filme, como um produto da apropriação. Alguém que esquece as origens e destrói a memória em nome de um futuro suscetível ao confronto e à mercê do belicismo. Esta figura é uma alegoria das apropriações culturais e do superficialismo com que são tratadas identidades culturais localizadas num território ou época. 

Memória, preservação e evolução sem destruição são camadas essenciais para defender “Black Panther” de um processo nem sempre pacífico entre o rasto de séculos de lutas pela libertação da comunidade negra, e a massificação de uma mensagem que novas consciências normalizaram. Mas prova de que é possível conciliar todas estas dimensões, e materializar num filme de massas, “Black Panther” consegue ser grandioso e eficaz. 

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