19/10/18
 
 
Mário Cordeiro 13/02/2018
Mário Cordeiro

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As crianças e a morte

Os efeitos da morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, um grande sentimento de vazio e de ausência… e de insegurança.

Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas. Enterra-se hoje o Carnaval. Morre o Entrudo e abre-se caminho a um período de reflexão e de quaresma (que significa sofrimento e penitência), que culminará com a morte… e a ressurreição. É este o entendimento da moral judaico-cristã e a simbologia destes dias, seja-se crente ou não. E quando a morte é real e surge no seio de uma família onde há crianças? Como agir?

“A morte da avó da Teresa foi de repente. Provavelmente um enfarte, disse o médico. Mas a explicação em nada adiantou ao sofrimento da família, designadamente dos pais da Teresa. Para além do seu drama pessoal, ficaram apreensivos com outra coisa: como dizer à Teresa, de quatro anos, que a avó tinha morrido. A avó para casa de quem ela ia todos os dias, quando saía da escola, e com quem brincava até os pais a irem ‘pescar’, lá pelas oito da noite. A avó que lhe preparava o lanche e conversava com ela. A avó que a Teresa dizia ser “a pessoa mais querida do mundo”, para orgulho e também algum ciúme dos pais.

Como dizer à Teresa? Ou não dizer? Ou inventar um novo esquema de ATL e fingir que a avó, agora, não tinha tempo para a Teresa. Ou contar tudo e estar preparados para tudo?”

Acontecimentos destes são frequentes. Os efeitos de uma morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, e um grande sentimento de vazio, de ausência… e de insegurança – “se aconteceu isto, que nada fazia prever e que eu não queria, tudo o mais pode agora surgir”. A criança sente-se atraiçoada sem saber por quem ou porquê, talvez até pelo destino, sente que não consegue controlar tudo como desejaria, sente que a vida também tem cambiantes de tristeza e de luto, e perde alguma da sua inocência. Pode também pensar que os pais, que supostamente controlam tudo e tudo podem, falharam ou serão incapazes de a proteger, já que não protegeram a pessoa que morreu; para as crianças, os pais – nós – são super-heróis, mesmo que por vezes nos desafiem e façam a vida negra, num salutar processo de autonomia. Somos os seus ídolos, os seus gurus e os seus santos protetores, disso não tenhamos dúvidas.

As crianças vivem a morte, pelo que desiluda-se quem pense que a morte de alguém querido lhes pode passar ao lado. Obviamente que não têm uma conceção filosófica e abstrata como os mais crescidos e os adultos, designadamente no que toca à irreversibilidade do fenómeno – definem-se os seis anos como a altura em que há, em média, uma clara noção de que não se regressa da morte, mas isso depende muito da criança, não apenas do seu desenvolvimento como das experiências que já teve, seja com pessoas, seja com animais ou até em histórias e filmes, por exemplo.

Em todo o caso, os sentimentos que as crianças têm são similares: tristeza, incompreensão, raiva, culpa, ansiedade, desespero. Podem ficar perplexas e descrentes, inquietas e com problemas de sono. A estes estados de alma acresce verem os pais e restantes familiares, também eles, tristes e a chorar (e devem fazê-lo e não tentar esconder o que lhes vai na alma, mesmo que possam ter algum pudor e tentem evitar cenas mais “histéricas”, mas é indispensável não disfarçar os sentimentos). As crianças vivem, pois, uma dupla carga, por vezes muito traumática, e é comum os adultos preocuparem-se em tentar poupar a criança ao sofrimento, o que, repito, é inútil, porque ela sabe e sente, e acaba por se ver arredada do processo de luto familiar, o que acontecerá menos se os pais tentarem falar com ela, percebê-la, acompanhá-la, assumindo que ela sofre. Como se fosse um adulto, mas de forma diferente – sem mentiras, com a verdade, mas a verdade suficiente e não mais do que ela, poupando pormenores escusados e mórbidos, ou incompreensíveis, e com a doçura, mimo e ternura que funcionam como garante de proteção.

Mal estarão os pais que não assumam a condução do processo e deixem o tempo andar, mesmo que estejam, eles próprios, em sofrimento. Por muito que custe ou que se queira poupar a criança ao sofrimento, e o nosso próprio sofrimento ao ver a criança triste e revoltada, vale a pena relembrar alguns dos aspetos que estão em causa:

• A vida não é um mar de rosas, e às vezes é um mar de espinhos – aprende--se isso mais cedo ou mais tarde, seja em que idade for, na vivência de acontecimentos como este;

• As crianças não podem nem devem ser poupadas aos problemas, muito menos os desta dimensão, e têm o direito (sim, é um direito!) de sentir tristeza e de a sofrer;

• A verdade deve ser sempre dita, e preferencialmente pelos pais. Mentir ou fingir só serve para que, quando ela a souber (e pode intuí-la do próximo telefonema ou nas entrelinhas de qualquer conversa), fique para sempre a pensar que os pais não lha disseram e com a sensação irreparável de que eles falharam no momento mais crítico, deixando de acreditar neles, com a insegurança correspondente;

• A verdade deve ser dita de modo soft, poupando os pormenores mais mórbidos, e numa linguagem acessível à criança;

• Deve sempre garantir-se à criança que a avó (ou seja quem for) está bem, que não sofre nem tem frio, sono, fome, enfim, as coisas de que a criança não gosta e com as quais sofre, e que fazem parte da sua vida e da sua maneira objetiva e concreta de ver e viver o mundo;

• Deve também relativizar-se o facto e “garantir” que ela, criança, bem como os pais e os outros familiares não vão morrer num futuro próximo – pode usar-se um ligeiro humor para suavizar o momento; é grande o medo de um eventual “efeito de dominó”;

• A avó (ou quem seja!) tem de ser lembrada, por exemplo através das fotografias expostas ou de álbuns, e deve falar--se dela como estando presente, embora fisicamente ausente – mas é bom a criança poder olhar para o céu e adivinhar a avó algures, onde ela quiser. A criança escolherá se é numa flor ou numa estrela – um qualquer “código secreto”. Há que se insistir, de igual modo, que a avó estará a acompanhá-la e que rirá com o seu riso e ficará triste com o seu sofrimento. E que a protege.

• A avó deverá ser recordada com as suas virtudes, mas também com outras características da personalidade, nomeadamente os seus defeitos. Para que se mantenha “viva”, humana e de carne e osso. Não um mito ou um deus. Não um ser perfeito, distante. Só assim a criança fará o luto de maneira tranquila e matura. Caso contrário, duvidará sempre da morte – os mitos e os deuses são imortais – e permanecerá sempre numa constante regressão, e assombrada pelos fantasmas e fixações.

É um momento duro, a morte de uma pessoa querida. Para quem começa a entender as regras da existência, a confusão de sentimentos, revolta, perplexidade, ignorância e receio são grandes. Cabe-nos a nós, adultos, suavizar (que não aplainar) esta tempestade, até que o quotidiano traga a tranquilidade, o entendimento e a sabedoria.

Pediatra
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