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EMEL. No jogo da caça à multa, é tudo uma questão de sorte

EMEL. No jogo da caça à multa, é tudo uma questão de sorte

Bruno Gonçalves Marta Cerqueira 12/02/2018 12:41

A EMEL multa, bloqueia e reboca centenas de carros todos os dias em Lisboa. Não deve ser fácil ter uma das profissões mais odiadas do país e, por isso, o i decidiu passar um dia a espreitar o trabalho dos fiscais. Contámos dezenas de envelopes vermelhos presos nos para-brisas dos carros, assistimos a bloqueios e falámos com quem não tem outro remédio senão vir “levantar” o carro rebocado

Oito da manhã de um dos dias mais frios deste inverno. Com o abrir de portas do serviço de estacionamento para onde a EMEL encaminha todos os dias os carros que são rebocados, começa-se a ver chegar as primeiras vítimas da fiscalização do dia anterior.

Duas amigas francesas, para quem claramente o “não sou daqui, não sei como isto funciona” não resultou, levam a carrinha que no dia anterior, ao fim da tarde, tinha sido rebocada. “Estava bem estacionada, mas a realidade é que não pagámos o parquímetro”, dizem, baixando a voz em tom de mea culpa. Na verdade, um dos funcionários do parque já nos tinha explicado que basta o carro não ter o ticket para ser logo bloqueado ou rebocado. Tudo não passa de “uma questão de sorte” – nas palavras do agente – de ter ou não um carro da empresa a passar por perto para fazer esse trabalho. “Com sorte” – novamente – “é apenas multado.”

Não foi o caso de Ana Marques, a segunda do dia a vir até à Rua Francisco Lyon de Castro levantar a viatura, que foi rebocada às seis da tarde do dia anterior por estar estacionada numa faixa de bus na Rua Quirino da Fonseca. “Eu sei que não devia”, justifica, “mas como é praticamente impossível estacionar naquela zona e aquela faixa está sempre cheia de carros estacionados, pensei que podia ser só mais um.” Mas não. Para levar o carro de volta teve de pagar 84 pelo bloqueamento, 30 de multa e mais 20 pelas horas que ele ficou na posse da EMEL.

Ao dar uma volta a este parque, que ocupa praticamente todo o quarteirão, é fácil perceber que o critério é democrático e que, por isso, há espaço para Golfs de 96 e Smarts com apenas dois anos. Há ainda autocaravanas de matrícula estrangeira e carros que, de tão antigos, não respondem à regra da matrícula datada.

“É um entra-e-sai constante, a toda a hora”, garante o proprietário de um restaurante das redondezas, com vista privilegiada para o portão principal. Ainda no sábado viu um fila de oito carros serem todos rebocados, ainda que estivessem parados numa zona abandonada, sem edifícios em redor e a deixar espaço livre para a passagem de veículos ou peões. “Neste país, só o futebol é sagrado. Aí é ver carros em quádrupla fila à volta do estádio sem que nenhum seja sequer multado”, lamenta.

Recentemente, o seu sócio parou o carro para ir à casa de banho do restaurante e, quando chegou, já tinha o reboque à espera. “Não tinham ainda posto a alavanca debaixo das rodas”, exclama. Mesmo assim, não se livrou de pagar 140 euros pelo reboque que, neste caso, ficava a um passeio de distância.

Há dois anos ali instalado, critica o facto de os parquímetros não darem troco e, por isso, até já pôs um aviso a indicar que não troca dinheiro sem consumo. E mesmo quem vem para consumir não se livra de uma surpresa ao chegar ao carro. “Já tive quem fosse multado pelo tempo de parar para uma cerveja”, refere. “É uma cerveja que sai muito cara.”

Apanhado em flagrante É “só” para beber uma cerveja, ou “só” para ir buscar o filho à explicação ou até mesmo “só” para umas compras de última hora. Neste caso, Mariana parou “só” para ir à loja dos chineses na Avenida Cinco de Outubro. “Não demorei mais de dois minutos”, garante. Mas como não pôs moeda no parquímetro, tem já dois agentes de fiscalização a montar o malfadado bloqueador na roda traseira. “Já não dá para fazer nada?”, arrisca. Nem precisavam de responder, tendo em conta que prosseguem o trabalho. Mas o fiscal adianta que “a partir do momento que está bloqueado, só sai depois de pagar a multa”.

Há regras a cumprir em todas as profissões e a EMEL também tem as suas. Mas a verdade é que depois deste dia passado a falar com quem multa e com quem é multado, facilmente percebemos que o fator “sorte” – como nos dizia o primeiro agente da manhã – é aquele que prevalece.

Nuno Sousa conta ao i que passa uma média de dez multas por dia, tudo varia consoante a zona e o que vai encontrando. Neste caso, em plena Avenida da República, apanhámo-lo já a prender no para-brisas do carro um envelope amarelo. “Este é apenas um aviso”, explica. Ou seja, é colocado quando o fiscal encontra um carro com ticket de estacionamento mas já fora do prazo para o qual pagou. “Neste caso, só passaram uns minutos”, refere.

Assim, quando chegar ao carro, o dono terá uma conta de 11,80 euros que, como não tem direito a denúncia, poderá ser paga diretamente no multibanco através de uma referência. Caso isso não aconteça, explica o agente, o aviso pode passar a multa caso durante o turno volte a passar no local e a situação se mantenha. “A partir daí, a denúncia entra no nosso sistema e se estiver um carro da empresa por perto, pode ser bloqueado e até rebocado.” Caso aconteça, servirá até para reforçar o caráter democrático daquele parque de Golfs, Smarts e até carrinhas pão-de-forma, prestes a ganhar um Porsche Carrera como vizinho.

 

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