19/11/18
 
 
André Abrantes Amaral 08/02/2018
André Abrantes Amaral

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O meu muro

Um dos meus sítios preferidos é junto ao muro da minha primeira escola, que sobe à medida que a rua desce. Não sei bem porquê, o local não tem nada de especial, mas quando era rapaz e por lá andava já gostava dele.

Um dos meus sítios preferidos é junto ao muro da minha primeira escola, que sobe à medida que a rua desce. Não sei bem porquê, o local não tem nada de especial, mas quando era rapaz e por lá andava já gostava dele. É numa rua com muito sol, e à frente do muro, que desde que me lembro esteve sempre pintado de amarelo, há um prédio com uma entrada para um armazém que tem um candeeiro de iluminação pública posto mesmo no meio de uma porta de correr que, talvez por isso, raramente vi aberta. Logo a seguir existem dois jardins que pertencem a duas moradias, cada uma do seu lado da rua.

Um dos jardins de uma das moradias tem muitas árvores e muitas sombras. Quando era mais pequeno, o meu filho dizia que queria viver naquela casa no meio da floresta. Na verdade, o muro naquela rua cheia de luz, frente a um portão de um armazém que raramente se abre porque há um candeeiro no meio, tem sombras de árvores. 

E este muro da minha escola de quando miúdo aparece em alguns livros. Não é que verdadeiramente apareça porque, verdadeiramente, nunca apareceu em lado algum que não fosse naquele sítio, mas aparece porque na minha imaginação há histórias que li que se passaram ali. Sem saber porquê, personagens cujas vidas acompanhei durante os dias que duraram a leitura dos livros dentro dos quais elas estavam viviam ali ou passavam por ali ou trabalhavam naquele lugar. 

Foi o caso de Mr. Chips. Aquele professor, aquele professor benevolente criado por James Hilton, só podia conhecer o meu muro e viver ali em frente, de olho na escola onde ensinava e onde todos os alunos gostavam dele. Li o “Goodbye Mr. Chips” com 15 anos, e sem que nada tivesse feito por isso, a imagem do muro, a imagem daquela rua por onde naquela altura já não passava, impôs-se na minha imaginação ao ponto de ser a que ainda hoje guardo quando me lembro ou folheio as folhas amarelecidas do livro de Hilton. 

Mas foi também com “Souvenirs” de David Foenkinos que ele se impôs novamente, muitos, muitos anos mais tarde. Ou não tivesse sido através da grade daquele muro, naquela mesma rua, com aquela luz e aquelas sombras daquelas árvores, que a avô do narrador, ainda miúda, se despediu dos seus colegas quando fugiu da guerra com os pais; foi também a imagem que me ficou do lar de idosos de onde ela escapou já velhota; e até o prédio em frente da escola (o tal onde está o armazém) seria o hotel onde trabalha o narrador que nos conta as recordações que Foenkinos escreveu. Ele nunca ali esteve mas, de certa forma, as personagens que criou passaram por lá. 

É através de imagens deste género, de muros assim, que um leitor prolonga os escritores.

Advogado 

Escreve à quinta-feira 

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