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Coreias. Nem o futebol apazigua a alma de Kim Jong-un

Coreias. Nem o futebol apazigua a alma de Kim Jong-un

Bruno Venâncio 31/01/2018 18:23

Han Kwang-Song é um dos mais promissores futebolistas asiáticos da atualidade. Com 19 anos, está na mira da Juventus e parecia já estar a caminho do Tottenham. Só há um ‘problema’: é norte-coreano e nos spurs já joga um tal de Son Heung-min, estrela maior... da Coreia do Sul, o que torna a mudança para o clube londrino proibitiva para o ditador.

Han Kwang-Song. Se o caro leitor for um amante de futebol, decore este nome (se conseguir): trata-se de um dos mais promissores jogadores asiáticos da atualidade. Tem 19 anos, já jogou na Serie A italiana (cinco jogos e um golo pelo Cagliari na época passada) e tem maravilhado este ano na Serie B, somando sete golos em 19 jogos pelo Perugia. Nos últimos dias, o seu nome tem sido amplamente associado a um interesse da Juventus e, principalmente, do Tottenham, que já terá entrado em contacto com o Cagliari, por quem o jovem Han assinou até 2022 em abril do ano passado. 

Só há aqui um ‘pequeno problema’. É que o Tottenham tem um jogador... sul-coreano: Son Heung-min, estrela maior do futebol do seu país na atualidade. E a ideia de Han poder vir a compartilhar o balneário com Son não cai nada bem a Kim Jong-un, o homem que comanda de forma implacável os destinos da Coreia do Norte desde 2011. É verdade que os últimos dias marcaram uma ligeira abertura do ditador em relação aos vizinhos do sul, com quem o país mantém um feroz diferendo desde a década de 50 - permitiu que uma delegação norte-coreana compita nos Jogos Olímpicos de Inverno, que se disputam precisamente na Coreia do Sul -, mas tal benevolência não parece estender-se ainda ao futebol. Infelizmente para Han, que está debaixo de olho de Kim desde criança.

Aos 13 anos, o menino foi enviado para a academia do Barcelona, antes de brilhar no Mundial sub-17 em 2015, no Chile. A boa relação entre Kim Jong-un e o senador italiano Antonio Razzi permitiu que Han fizesse testes na Academia ISM, em Itália, seguindo-se o Cagliari, que gostou do que viu e avançou para a sua contratação. Na época passada, Han tornou-se assim o primeiro norte-coreano a jogar e a marcar na Serie A.

Esta época, foi cedido ao Perugia para ganhar minutos e evoluir e vai deslumbrando, mas a pressão do homem que dita tudo no seu país-natal continua a fazer-se sentir. Recentemente, o menino foi convidado para participar no programa desportivo italiano La Domenica Sportiva, mas a sua presença seria cancelada poucas horas antes do início. «Surgiu uma chamada de alguém obscuro do ministério norte-coreano e bloqueou tudo. Qualquer negociação foi impossível, porque Pyongyang só fala exclusivamente com o Han. O seu governo tem vindo a tornar-se cada vez mais rígido e os futebolistas foram proibidos de aparecer na televisão: se o fizessem, seriam repatriados. O Han está assustado», revelou o presidente do Perugia, Massimiliano Santopadre.

Outra das histórias que circula em Itália prende-se com a possibilidade de o jogador estar a enviar para casa todo o dinheiro que aufere: segundo as leis da Coreia do Norte, os rendimentos de todos os cidadãos que se encontrem a trabalhar no estrangeiro pertencem ao governo norte-coreano. O Cagliari já garantiu que paga os salários diretamente a Han - agora, o que o avançado faz com o dinheiro ninguém sabe...

A traição do herói nacional

Han Kwang-Song não é o primeiro norte-coreano a ‘rebentar’ na Europa. Em 2010, ano em que o país chegou a um Mundial pela primeira vez desde o brilharete em 1966, quando eliminou a Itália e só caiu nos quartos-de-final aos pés de Portugal (5-3, com póquer de Eusébio), era Jong Tae-Se a estar na berra. Tinha 26 anos, jogava como profissional no Japão e viu-se nas bocas do mundo ao ser focado em lágrimas a entoar o hino do país antes do jogo com o Brasil. O ‘Rooney norte-coreano’ era a história perfeita para o regime: nasceu no Japão, filho de imigrantes coreanos, e sempre rejeitou qualquer vínculo com a Coreia do Sul, pedindo (por questões ideológicas) a nacionalidade norte-coreana e assumindo-se admirador de Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un e líder do país entre 1997 e 2011.

Tornou-se herói nacional e viria a assinar pelos alemães do Bochum logo depois da prova, passando também pelo Colónia, um histórico germânico. No entanto, não é chamado à seleção desde 2011, alegadamente por se ter aproximado da Coreia do Sul - em 2013 deixou a Alemanha e assinou pelos sul-coreanos do Suwon Bluewings. Pior: fez campanha para ser considerado um atleta local, de modo a não ocupar vaga de estrangeiro. Uma infâmia, na visão de Kim Jong-un, que continua a sonhar com uma Coreia do Norte a dominar o futebol mundial e a formar craques melhores que Lionel Messi. Desde que não partilhem o balneário com sul-coreanos.

O outro Khadafi

As ingerências de ditadores no normal curso futebolístico, porém, não são exclusivas da Coreia do Norte. Inesquecível, por exemplo, a passagem de Al-Saadi Khadafi pelo futebol italiano: em quatro temporadas, o filho de Muammar Khadafi - histórico ditador da Líbia - conseguiu a singela soma de 25 minutos divididos por dois jogos, entre Perugia (2003/04 e 2004/05), Udinese (2005/06) e Sampdoria (2006/07).

Como se pode perceber pelos números, Al-Saadi não ficou conhecido em Itália pelas qualidades futebolísticas. Dele, um artigo do La Repubblica escreveu uma vez: «Mesmo a correr ao dobro da sua velocidade atual, seria duas vezes mais lento que a própria lentidão.» Sintomático.

A questão é que o jovem Al-Saadi sempre teve a obsessão de se tornar jogador de futebol - ao contrário da maioria dos irmãos, que provavelmente estavam mais preocupados em perceber qual deles viria a ser o sucessor do pai nos destinos do país. Na Líbia, o ‘avançado’ era intocável: o poder do apelido fez dele titular indiscutível nos dois maiores clubes da capital líbia (Al Ahly Tripoli e Al-Ittihad Tripoli), bem como da seleção. Nos jogos onde competia, os comentadores estavam proibidos de dizer o nome de qualquer outro jogador: referiam-se a eles pelos números. Só se podia ouvir falar de Al-Saadi Khadafi. E as decisões dos árbitros... digamos que recaíam sempre a favor da sua equipa. Quem ousasse reclamar ficaria de pronto em maus lençóis perante as forças de segurança.

Ora, em 2003, aos 30 anos, o filho de Khadafi resolveu rumar a Itália, país onde Muammar tinha grandes interesses económicos e ligações com alguns dos elementos mais poderosos no mundo do futebol. E foi assim que Al-Saadi chegou ao Perugia, contratando desde logo Diego Maradona para seu consultor técnico e o antigo sprinter norte-americano Ben Johnson para seu treinador pessoal. Centenas de adeptos e jornalistas compareceram à sua apresentação - num castelo detido pela família do presidente do clube, Luciano Gaucci -, mas após um jogo em duas épocas (e um controlo anti-dopping falhado), partiu. E assinou pela Udinese, que viria a defrontar o Sporting na pré-eliminatória da Liga dos Campeões e onde alinhava o internacional português Luís Vidigal. Mais uma aparição como suplente utilizado no penúltimo jogo da época e a mudança para a Sampdoria, onde nem chegou a atuar. Viria, mais tarde, a ser votado como o pior jogador da história da Serie A.

Fora do campo, as histórias foram bem mais suculentas. Os relatos de um estilo de vida de playboy, carregados de excessos (álcool, drogas, festas e casos hetero e homossexuais), valeram-lhe a designação de ‘ovelha negra’ da família. Acabaria por ser capturado no Níger em 2011, logo após a morte do pai, sendo extraditado para a Líbia em 2014, onde aguarda julgamento após ser condenado pelo rapto e morte do jogador de futebol Bashir al-Riani, em 2005. A pena de morte é o cenário mais provável neste momento.  

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