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Rita Jacobetty. “O cão que foi para a cidade ser tratado como cão da aldeia é miserável”

Rita Jacobetty. “O cão que foi para a cidade ser tratado como cão da aldeia é miserável”

Marta F. Reis 30/01/2018 19:06

Consultora em comportamento animal, papel ainda raro no país, Rita Jacobetty ajuda as famílias a superar crises e desmonta alguns mitos.

Está a ver Cesar Millan, o encantador de cães da televisão? Para Rita Jacobetty esse é um exemplo a não seguir. Consultora em comportamento animal, aos 33 anos dá apoio a famílias e está a fazer o doutoramento no ISCTE, centrado na relação entre humanos e animais de companhia. Sobre o futuro em que os bichos poderão ir mais vezes a lojas e restaurantes, avisa que vai exigir civismo aos donos e uma adaptação da sociedade.

Pode dizer-se psicóloga de animais?

Tecnicamente isso não existe, mas ajuda as pessoas a perceber o que faço e a diferenciar do treinador de animais.

Pensando nesta área, a referência de muitas pessoas será aquele encantador de animais da televisão.

O Cesar Millan? É o nosso arqui-inimigo!

Não é um guru?

De todo. Temos uma abordagem científica, com base em comportamento e biologia animal. A abordagem que vemos na televisão, incluindo desse famoso encantador de cães, não tem esses fundamentos: são pessoas que gostam de cães, interessam-se mas por falta de bases dão muitas informações incorretas.

Quem é que a procura?

Famílias de todo o tipo, pessoas solteiras, com filhos, sem filhos.

Com um cão ou um gato mais rebelde?

Por vezes são animais mais inseguros e as pessoas estão simplesmente preocupadas em saber se eles estão bem, mas também pode ser por dificuldade em coordenar as rotinas do dia-a-dia. Uma situação frequente são animais que não ficam bem sozinhos. E depois há os casos mais óbvios de animais mais agressivos.

As pessoas procuram ajuda no limite?

Infelizmente sim, numa fase em que emocionalmente estão esgotadas.

Por exemplo?

Pessoas que não podem sair de casa porque os animais não ficam bem sozinhos. Há animais que não conseguiram desenvolver essa capacidade e, sempre que as pessoas saem, têm comportamentos destrutivos.

Destrutivos como?

Destroem a casa, comem as portas e acabam por magoar-se. Ou fazem muito barulho. As pessoas, perante isto, acabam por adaptar as suas vidas, saem menos, não vão jantar fora, não vão ao cinema.

Durante meses?

Há casos de anos. Às vezes a idade dos animais, oito anos, o que for.

O problema é mais vezes do animal ou do dono?

De ambos. O que tento explicar é que nós somos os educadores do animal. A partir do momento em que tomámos a decisão de o levar para casa, somos os responsáveis pelo seu desenvolvimento. Dito isto, a culpa não tem de ser das pessoas, mas a chave está nas nossas mãos.

Não pode ser o animal que tem mau feitio?

Isso não, de todo. 

É um mito?

Sim. Nós temos um sentido ético do bem e do mal mas os animais não. Os animais não percecionam o conceito de maldade, não têm maldade. Podem é não ter adquirido competências para gerir determinadas situações.

E podem ser mimados?

O ser mimado é um reflexo disso. Como sempre foram tratados de uma determinada forma, é assim que se comportam. Cabe-nos a nós ensiná-los a ser de outra maneira. 

Nisso os animais de cidade são diferentes dos animais do campo?

Sim e é por isso que estes temas se tornam tão emergentes. Às vezes ouvimos dizer: “Que disparate, sempre tive cães, que é isto agora de um psicólogo de animais? Está tudo louco?”. A verdade é que já não temos animais de companhia como as gerações passadas e a cidade já não é a mesma. Um animal no campo tem um nível de liberdade quando sai e passeia que aqui não tem. Na cidade não pode fazer xixi aqui, não pode fazer cocó ali, é preciso cuidado, há mais estímulos.

Apanhar o cocó é uma obrigação dos donos mas, por esse prisma, para o cão pode ser perturbador ter alguém atrás dele com um saquinho.

Não tanto o saquinho mas muitos animais têm dificuldade em não ter a privacidade e a distância para fazerem o que consideram uma questão de higiene.

Quando pega num caso, envia um questionário de 19 páginas às famílias. O que é mais revelador?

As minhas perguntas favoritas são “quais são as suas expectativas de resolução do problema?” e “o que estaria disposto a aceitar como compromisso?”. Por vezes as pessoas demoram muito tempo a pedir ajuda e fazem-no numa fase desesperada. Depois têm grandes expectativas, mas não podemos esperar que um animal que durante oito anos teve um problema mude drasticamente em dois meses.

Vai a casa das pessoas?

Sim. O ambiente é determinante no comportamento do animal e das pessoas. Trabalho a relação entre a família e os animais de família. A ideia é procurar dar orientações para que possam gerir a situação de forma mais eficaz e tornarem-se autónomos. 

Quais são os erros mais comuns?

Há vários...

Dormir com os cães é saudável?

Para mim é altamente desejável mas cada um pode estabelecer as suas regras. Respondendo à questão de uma forma mais generalista, o erro mais comum é a falta de coerência. Se pode dormir pode, se não pode dormir não pode. Se uma pessoa sempre dormiu com o seu cão e agora tem um companheiro que não quer o cão na cama, isto possivelmente vai gerar uma frustração no animal e comportamentos indesejados.

 

“Um cão com dois anos é a escolha perfeita. A personalidade está definida e já passou a adolescência” 

 

Como se gere essa situação? 

O animal pode aprender, mas não é do dia para o outro. O problema é que as pessoas muitas vezes só nos contactam quando já aconteceu uma mudança drástica na vida do animal. Os gatos são particularmente vulneráveis e sensíveis a este tipo de mudanças, seja uma pessoa nova, um animal novo.

Já viu relações que não funcionaram por causa de problemas com animais?

Há muitas histórias mas acho que nunca acompanhei um caso com esse nível de intimidade. Mas há muitas pessoas que lutam com situações de mudanças na sua vida em que os animais não se adaptam. E os que se preocupam mais com os animais tendem a sacrificar-se mais. Uma situação frequente são pessoas independentes que têm animais de companhia e de repente se juntam e têm de juntar os animais. Ir viver com uma pessoa nova é um desafio. Para um animal, ir viver com um animal é um desafio. A instabilidade emocional transborda. Nos gatos manifesta-se em fazer xixi fora da caixa, miarem, arrancarem o pelo. São sintomas de stress.

Que outros erros são frequentes?

Na abordagem com as famílias tento não me focar no que está errado mas naquilo que podem fazer melhor. Se encaramos os animais como os nossos melhores amigos, será que eles nos veem assim? Isto não pode ser só aquela questão emocional de nos sentirmos bem porque ele gosta de nós: vamos ter um cão ou gato de um convívio mais agradável se estiver bem. Um cão tem de passear, tem de conhecer sítios novos, não pode ter uma vida em que 95% do seu dia é limitado a um espaço monótono e sem estímulos. Se vivemos na cidade, temos de enriquecer o ambiente interior.

Dar-lhes brinquedos?

Sim, dar-lhe coisas novas com regularidade. Os animais precisam de uma aprendizagem contínua, não pode ser só quando são cachorros. O treino, o senta, rebola, é muitas vezes interessante não pelo lado funcional mas pelo lado intelectual. Os gatos precisam de arranhar, não é uma questão de manicure, precisam de esticar a coluna. Um gato com acesso ao exterior pode caçar até 30 presas num dia, imagine-se o aborrecimento em casa.

Os donos desvalorizam os estímulos?

Muitas vezes têm os animais subestimulados. Uma das perguntas é: “o que faz o seu animal quando fica sozinho em casa?” As pessoas não fazem ideia.

O que recomenda? Uma câmara?

Por exemplo. Acho que era um exercício excelente para saber o que o animal faz. É fundamental deixar-lhes algo para se entreterem quando estão sozinhos em casa oito horas seguidas. Isto nos cães mas ainda mais com os gatos, que têm uma vida super monótona.

Bons estímulos para os gatos?

Estímulos em altura, plataformas para subir. Precisam de sol, muita brincadeira. É verdade que isto exige algum compromisso, mas faz parte da decisão de querermos ter um animal de companhia.

Há muitas pessoas que têm e não deviam ter?

Não digo que não deviam ter, acho é que muitas vezes não têm a perceção de como o seu animal podia ser mais feliz. E como elas próprias podem ser mais felizes: vários estudos dizem que, quanto mais nos relacionamos, maior o benefício. Os gatos, particularmente, são animais muito silenciosos. Como são presas e predadores ao mesmo tempo, escondem quando estão fragilizados e não dão sinais claros de que estão a passar mal. Há muitos gatos com muito má qualidade de vida e, como estão fechados de casa, não têm tanta visibilidade.

 

“Temos muita dificuldade em ler a comunicação animal. Um cão que boceje não está a dar sinais de sono”

 

Há muitas pessoas a ter um animal como substituto de um filho?

Acho que na geração hoje com 20 anos, que começa a pensar em sair de casa dos pais e não pensa em ter filhos, pode ser uma forma de ter companhia e até uma preparação para mais tarde...

Mas há um ponto em que esse cuidado passa a ser patológico? Tratá-lo por filho, vestir-lhe as roupinhas…

Certamente que há casos de híper dependência e outros desvios como os acumuladores de animais. Mas não vejo qualquer cariz de doença nos comportamentos de humanização do animal. Há pessoas que são um pouco mais exuberantes e outras mais discretas e depois projetam a sua forma de ser nos animais. Se isso é bom ou mau, para as pessoas, não sei. Para os animais, depende.

Fala das roupas?

Se calhar um cão que tem uma roupa vestida está mais desconfortável, não consegue correr tão bem e pode até ser mal interpretado por outros animais que estranhem a aparência, mas vai depender muito das circunstâncias. Se o animal se adaptar a isso, tudo bem. Vejo animais que manifestam stress por estar a ser vestidos e outros que gostam. Muitos animais de pelo curto precisam de ter um casaco extra no inverno. 

As pessoas deviam ter mais cuidado na escolha o animal?

Sem dúvida. Há muito a tradição de ser uma escolha emocional, uma decisão pouco refletida. Cruzaram-se com o animal e ficaram apaixonadas ou até refletem, mas com critérios incorretos.

Se são bonitos?

Sim, a estética ainda é um dos critérios e nisso incluo o porte. As pessoas muitas vezes comentam que não podem ter um animal grande num apartamento, tem de ser um cão pequeno. Eu vivo no centro de Lisboa, num apartamento, com um cão de 50kg.

Mas não há limites?

Sinceramente para mim não. Temos de olhar à personalidade. Vai depender das rotinas da pessoa mais do que do porte. Temos de pensar que, se passamos muito tempo fora de casa, temos de ter um animal que lide bem com estar sozinho, que não precise de muita atividade.

É uma questão de raça?

De personalidade.

Como é que percebe a personalidade?

Pode ser complicado e por isso é que sou apologista da adoção. Um cão com dois anos é a escolha perfeita. A menor probabilidade de devoluções é de animais adquiridos com mais de dois anos. A personalidade está definida e já ultrapassaram a fase da adolescência. 

Geralmente as pessoas querem bebés?

Sim, querem um cachorrinho mais pequenino para o educar. O problema é que não são educadoras profissionais. Somos bons educadores da nossa própria espécie. Temos inatamente a capacidade de educar os nossos filhos, não é inato educarmos outra espécie. Se nos dessem um falcão para as mãos, não saberíamos educá-lo. Como os cães e os gatos estão mais próximos de nós, pensamos que sabemos e vamos buscar aquilo que sabemos das nossas relações humanas.

O que nem sempre funciona?

Sim, por exemplo pensar que o cão sabe o bem e o mal. Os animais não têm essa intencionalidade, adaptam-se 100% à educação que lhes dermos.

Recompensá-los funciona?

Em termos de treino e ensino, a coerência é o essencial. Se souber quando faz uma coisa acontece algo desejável, faz. Se for indesejável, não vai fazer.

Nisso são parecidos com connosco.

Sim, iguais, as bases que estudamos em termos de comportamento são comuns.

Então porque é que diz que não somos bons educadores?

Temos muita dificuldade em ler a comunicação animal porque fazemos interpretações a partir dos nossos conhecimentos humanos. Por exemplo, um cão que boceje está a dar sinais de stress e ansiedade, não está com sono. Um cão que se sacode não está a tentar tirar caspa do pelo, está a mostrar que estava tenso. Um gato que fecha os olhos lentamente está a um dar sinal de ternura. Um gato que pisca muito os olhos está inseguro. Os animais comunicam muito pelas posturas corporais. Claro que isto não é preto e branco. Quem nunca teve ou quem tem medo de animais, se calhar precisa de aprender a ler alguns sinais.

 

“Temos inatamente a capacidade de educar os nossos filhos, não é inato educarmos outra espécie” 

 

É verdade que pressentem o medo?

São especialistas em ler os nossos sinais. Não é que sintam o medo, mas percebem que não nos estamos a sentir bem, são sensíveis ao nosso estado emocional. Daí as pessoas dizerem que falam com o cão e o cão percebe tudo. 

Qual foi a medida mais insólita que já prescreveu a uma família?

Tento sempre adaptar as soluções para os animais às rotinas dos humanos. Por exemplo uma família que não quer que o cão salte para a bancada quando estão a preparar comida. Em vez de lhes dizer que vão ter de fazer várias sessões diárias de treino, proponho que, quando o cão ficar quietinho no chão, dão-lhe um pedacinho de maçã. Ou têm um frasquinho de biscoitos: o cão vai aprender a esperar. A ideia é arranjar soluções que encaixem nas rotinas e tenho centrado a minha investigação nisto: como mudar o comportamento animal de uma forma funcional para os humanos.

Fazem falta essas estratégias?

Recebo muitas vezes queixas de pessoas que contactaram outros profissionais e foi-lhes pedido algo inacessível. Os cães estão programados para evitar ao máximo estar sozinhos. A solução ideal seria: não deixem o cão, mas hoje em dia, em Portugal, isso é extremamente difícil. 

Esse é um ponto que agora deverá começar a mudar, com mais estabelecimentos a permitirem a entrada de animais. 

Sinto que é o caminho natural. Cada vez temos mais animais de companhia em contexto urbano, em apartamentos, e cada vez passamos mais tempo fora de casa. A resposta natural será, cada vez mais, podermos levar os nossos animais para o trabalho, para os restaurantes, para as lojas. Lá fora esta é a realidade, a questão é se a nossa cultura, o nosso civismo, estará preparado para isto. 

O civismo dos donos?

Sim. Pode acontecer que os animais não estejam educados para ir, mas para isso será necessário o civismo dos humanos, para avalia se o seu cão está ou não apto. A verdade é que, para animais que toda a vida não puderam entrar numa loja, vai haver um processo de adaptação. Da mesma forma que para os donos vai ser uma aprendizagem. Vai haver uma fase de transição em que sem dúvida haverá conflitos. Acho que o mais positivo destas alterações é, progressivamente, mudarem mentalidades. 

Como se educa um cão para ir ao café?

Se for um cachorrinho de seis meses, completamente ativo e irrequieto, temos de perceber que não está pronto e não vai correr bem. E depois é uma questão de personalidade: se o meu cão não gosta de contacto próximo com outros cães, tenho de pensar que, se for entrar num café e na mesa do lado estiver outro cão, vai gerar-se ali um espalhafato que não é simpático para as outras pessoas. Basicamente, é pensar sobre o assunto em vez de simplesmente reagir de forma emocional só porque já podem levar o cão ao café. Se o cão é calmo, não costuma roubar comida de cima das mesas, posso experimentar e estou cinco minutinhos, mas não vou para um jantar de grupo que vai demorar três horas. 

São como as crianças: cansam-se?

Sim, vão ficar saturados. Não tenho dúvidas de que alguns animais estão perfeitamente aptos, mas têm sempre limitações. Levo a minha cadela mas tenho de pensar que, se ela tem 50kg, pode ser complicado ir para um sítio muito pequenino. De resto, a educação começa em casa. Se o cão em casa não consegue estar sossegado enquanto tomo o pequeno almoço, não vai estar calmo no café. Ensinar o cão a estar calmo, deitado, será mais a competência de um treinador.

É daquelas pessoas com quem os animais vão logo ter?

Não quero criar a ideia de que há aqui uma aura de encantadora de animais, mas tenho facilidade em estabelecer uma ligação e chamam-nos para lidar com animais que têm comportamentos agressivos, que atacam as pessoas.

Como no programa do Cesar Millan?

(Risos) Sim, os problemas são os mesmos e implica sempre lidar com um animal que não está habituado a estranhos.

Mas há algum truque?

Não é truque, é ciência. É uma questão de saber qual é a linguagem corporal correta para lidar com o animal e não é de todo uma linguagem assertiva como diz o encantador de cães. É saber como transmitir que não sou uma ameaça.

Por exemplo?

Estudamos como os cães comunicam entre si e usamos esses sinais. Devemos evitar o contacto visual direto. Tudo o que é fixar o olhar na etiqueta animal é uma provocação.

Há muitos cães e gatos medicados com ansiolíticos?

Quem faz esse acompanhamento são veterinários comportamentalistas, o equivalente ao nosso psiquiatra. 

Mas é mesmo necessário? Há uns anos não se ouvia falar disto.

Quando se compara com o que acontecia há uns anos, não nos podemos esquecer de que o ambiente evoluiu. Se calhar há 100 anos não havia necessidade, hoje em alguns casos há, não é um modernismo. Uma coisa é certa: a medicação, só por si, não resolve o problema. Os ansiolíticos ajudam a pôr o animal num estado suficientemente calmo para estar capaz de reaprender. 

Os animais podem ter traumas?

Não gosto na palavra trauma na medida em que a associamos ao reviver de experiências passadas. Eles vivem no presente. Lembram-se mas não recordam. Se calhar quando chegam à praia pensam: ‘adoro este sítio, estou tão feliz’. Mas não ficam em casa com saudades da praia.

Achamos nós.

Sim. Essa é a primeira característica da abordagem científica, é que tudo o que sabemos está sempre sujeito a ser revisto. À data o que sabemos é isto e sabemos imensa coisa. Mesmo em Portugal temos imensos investigadores na área do comportamento animal.

 

“Para animais que toda a vida não puderam entrar numa loja, os donos terão de pensar se estão prontos para isso”

 

Mas existe ainda algum ceticismo, não? 

Acho que há dois níveis de ceticismo. Por um lado há as pessoas que encaram como um exagero todas as preocupações que hoje se tem com os animais.

E compreende?

Compreendo a perspetiva mas acho que temos de pensar que cada um de nós tem as suas preferências e que, para quem gosta muito dos seus animais de companhia, eles são uma prioridade. É como uma pessoa adorar fazer BTT. Outra pessoa pode achar estúpido que alguém acorde às 4h00 da manha a um sábado para ir subir uma montanha, mas é assim. Dito isto, acho que cada vez há uma maior aceitação social de que as pessoas possam querer dar prioridade aos seus animais.

E depois há o ceticismo em relação à ciência em si, não?

Sim. Muitas vezes as pessoas não pensam no comportamento animal como uma ciência. Veem-no como um dom, um talento que algumas pessoas têm para lidar com animais. Uma das nossas principais lutas é proteger as famílias desses aconselhamentos mais intuitivos ou da via da disciplina e punição, que é o que defende o Cesar Millan, que está demonstrado que não são eficazes e causam mal-estar aos animais.

Já teve algum caso que não conseguisse resolver?

Aí voltamos à tal questão de até que ponto as pessoas estão dispostas a ir. Por muito que se mostrem motivadas ao início, acabam por perceber que não é realista irem tão longe. Se nos esforçarmos para ajudar, conseguimos ter uma relação fantástica mesmo com ‘o gato mau que morde toda a gente’ ou com ‘o cão que era insuportável’. Acima de tudo não gosto de pôr rótulos: um cão não é mal-educado, não teve foi a educação adequada ao estilo de vida que está a viver.

Hoje não é bem visto deixar os animais a dormir a rua e as pessoas compram rações cada vez mais elaboradas, não se cozinham grandes panelas de arroz trinca. Os animais de antigamente não eram felizes?

É uma pergunta difícil. Se pensarmos num cão pastor que acompanhava o rebanho, se calhar estava muito mais adaptado a esse estilo de vida do que os nossos cães estão adaptados ao nosso. E mesmo não dormindo dentro de casa ou comendo arroz, era mais fácil ser feliz e livre de problemas. Há carências certamente: se dormir na rua sozinho, terá necessidades, porque os cães precisam de companhia. Mas a questão é que nós demos um salto do animal de aldeia, de trabalho, para o animal urbano, de apartamento, de companhia. E, nessa transição, acho que houve uma fase muito prejudicial para os animais. O cão que foi para um ambiente de apartamento ser tratado como o cão de aldeia é um cão miserável. São os cães que vemos que dormem na varanda, que comem os restos. Não têm o bom da aldeia e têm o mau da cidade e ainda vemos isso. O positivo é que acho que estamos a conseguir adaptar a vida dos animais neste contexto urbano, em que precisam de uma boa alimentação para estarem mais protegidos, precisam de dormir dentro de casa, precisam de longos passeios. Começa a haver mais sensibilidade.

É como um novo estádio na domesticação?

Sim e é recente, mas estamos no bom caminho.

Perfil

Rita Jacobetty cresceu com animais, mas a ouvir as ideias de senso comum que hoje, cada vez mais, sente que muitas vezes não fazem sentido em termos de educação e bem-estar destes amigos de quatro patas. Tem uma cadela grande no apartamento, Gandhi, de nove anos, adotada na associação O Cantinho da Milu. E aqui foi retratada com a sua gata Sianna, de 18 anos. Pode saber mais em www.facebook.com/ritajacobetty.pt

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