16/9/19
 
 
Maldições, superstições e outras histórias em que são os números a fazer a lei

Maldições, superstições e outras histórias em que são os números a fazer a lei

AFP Bruno Venâncio 29/01/2018 21:34

Rúben Ribeiro e Alexis Sánchez decidiram desafiar o destino e escolheram números “malditos” na chegada a Sporting e Manchester United. A numerologia tem um peso enorme no desporto, mas manifesta-se igualmente em todas as vertentes da vida quotidiana – com especial destaque para as de expressão artística

Alexis Sánchez e Rúben Ribeiro. Dois jogadores de futebol, reconhecidos pela sua habilidade e virtuosismo técnico, que já em janeiro mudaram de clube: o chileno trocou o Arsenal pelo Manchester United, enquanto o português deixou o Rio Ave para apanhar o comboio do Sporting. Em comum têm ainda outra particularidade: na hora de escolher o número que irão envergar na camisola, ambos optaram pelo 7, um número habitualmente destinado aos melhores jogadores.

O “problema” é que, quer no United quer no Sporting, a camisola 7 parece estar amaldiçoada de há uns anos a esta parte. O clube inglês teve em George Best, Bryan Robson, Eric Cantona, David Beckham ou Cristiano Ronaldo a representação perfeita do que é jogar com o 7 nas costas; desde que o astro português saiu (verão de 2009), porém, nunca mais um 7 foi bem-sucedido nos red devils. Michael Owen, avançado de renome – mas contratado já com 30 anos –, usou--a durante três anos, marcando apenas cinco golos na Premier League; Valencia vestiu-a durante uma época e marcou... um golo, voltando a usar o 25 de imediato; Di María, contratado por 85 milhões de euros, falhou redondamente em Old Trafford, saindo ao fim da primeira época; Depay durou mais seis meses, mas também não impressionou ninguém. Alexis, todavia, fez vista grossa a maldições. “Só de pensar nos jogadores que usaram a camisola 7, a tua cabeça começa a sonhar em ganhar a Liga dos Campeões e a Premier League. É isso que espero que aconteça comigo aqui”, frisou o chileno.

No Sporting, a coisa é ainda mais grave. Remonta a 1997, quando Ricardo Sá Pinto, que havia substituído Luís Figo, parte para Espanha (Real Sociedad). O búlgaro Iordanov, um símbolo do clube, herda o 7, mas começa precisamente nessa temporada a sofrer de esclerose múltipla. O brasileiro Leandro Machado foi o seu sucessor e, depois de uma primeira época promissora, enveredou por uma vida noturna e boémia que depressa o tirou dos relvados nacionais. Delfim, Sá Pinto (de regresso), Niculae, Izmailov e Jeffrén: todos sofreram violentamente com lesões. Bojinov e Shikabala só foram notícia por comportamentos antidesportivos e Joel Campbell, que chegou com rótulo de estrela, não apresentou um rendimento consentâneo.

Mais uma vez, o reforço não se atemorizou. Rúben Ribeiro, que nas redes sociais se apresenta como RR7, não se deixou intimidar e assumiu o desafio de quebrar a maldição. Até agora, está a correr bem: foi titular em quatro jogos e fez uma assistência.

No início da temporada, também Álvaro Morata decidiu tentar ludibriar o destino. O avançado espanhol trocou o Real Madrid pelo Chelsea e aceitou ser o 9 dos blues – outro número amaldiçoado desde que Jimmy Hasselbaink deixou o clube, em 2004. Daí para cá, a camisola passou por Kezman (sete golos e despedido do clube por consumo de cocaína), Crespo (13 golos), Di Santo (zero golos), Fernando Torres (45 golos em quatro épocas, mas mesmo assim muito criticado) e Falcao (um golo), além do médio Sidwell (um golo)... e do central Boulah-rouz – que ainda viria a passar pelo Sporting em 2012/13, sem qualquer sucesso. Para já, Morata soma 12 golos em 31 jogos, mas já esteve parado alguns períodos por lesão e não tem escapado a algumas críticas por falta de eficácia na hora de atirar à baliza.

Nem só de maldições associadas a feitos desportivos vivem os números no futebol. Gianluigi Buffon, inquestionavelmente um dos melhores guarda-redes da história do jogo, ofendeu toda a comunidade judaica italiana quando decidiu escolher o 88 no Parma. É que H é a oitava letra do alfabeto, e o 88, para os nazis, simbolizava “Heil Hitler”, ou seja, era a saudação que faziam ao ditador alemão responsável pelo genocídio judeu nas décadas de 30 e 40 do séc. xx. Na altura, o guardião italiano garantiu não saber tal coisa e justificou a escolha com o facto de o número lhe lembrar... quatro bolas.

Tudo começou com Pitágoras As superstições e o desporto são, muitas vezes, dois fatores que se associam. Podem manifestar-se das mais diversas maneiras, mas frequentemente prendem-se com numerologia. Não é só neste campo, todavia: a influência dos mitos e das crenças em aspetos intangíveis alarga- -se a praticamente todas as áreas das sociedades, com especial enfoque nas relacionadas com as artes.

Desde a Antiguidade que os números carregam simbologias muito próprias e identificadas, nomeadamente por intermédio da religião. O seu significado e influência sobre as pessoas rapidamente começou a ser estudado, nomeadamente através dos fundamentos matemáticos de Pitágoras, que muitos historiadores apontam como fundador da numerologia.

É bem conhecida a divergência de sentimentos que o número 13 causa às pessoas. Para muitos, é o número do azar, a evitar a todo o custo – principalmente se insistir em nos aparecer a uma sexta--feira; para outros, é exatamente o oposto. Mais uma vez, estes preconceitos remontam à Antiguidade Clássica: desde aí que o 13 é visto como sendo o número do azar, portador de coisas más. Na Bíblia, é o capítulo 13 do livro do Apocalipse que faz referência ao anticristo e à besta (666 – dele falaremos mais à frente); 13 é também o número de pessoas presentes na Última Ceia – Jesus e os 12 apóstolos. Por essa razão, muitos católicos evitam organizar ou participar em refeições em que 13 pessoas se sentem à mesa. Para os numerologistas, 13 é o número que atua em desarmonia sobre as leis do universo.

Mesmo na Antiguidade, porém, o 13 também podia ter uma conotação positiva: representava o mais poderoso e sublime. Ulisses, por exemplo, era o 13.o elemento do grupo que partiu na Odisseia, de Homero, e escapou ao Ciclope. No tarô, o 13 é a carta da morte, mas no sentido de fim de um ciclo, portanto, de mudança. Por essa razão, há quem o interprete como número de boas vibrações.

O caso mais flagrante de número maldito, porém, será o 666 – mais uma vez, devido à sua relação com a religião. No Livro do Apocalipse, o 666 está associado ao pecado: representa o mal, a imperfeição. Daí para cá, tornou-se o próprio nome, número ou marca da besta (Satanás). “Aqui é preciso sabedoria. O que é inteligente decifre o número da Besta, que é um número de homem; o seu número é seiscentos e sessenta e seis”, pode ler-se no capítulo 13, versículo 18 do Apocalipse.

Além disso, João, o autor do Livro do Apocalipse, utilizou o número para fazer referência ao sexto imperador de Roma: Nero César, tirano que ficou conhecido por ter sido o primeiro perseguidor dos cristãos. Cada letra do alfabeto grego e hebraico tem um valor numérico, cuja soma resulta num código: no caso do imperador, as letras que compõem o seu nome são 200, 60, 100, 50, 6, 200 e 50. Tudo somado dá... 666.

Esse é um exemplo do simbolismo da numerologia na literatura – como tantos que se podem ler em romances como o “Código Da Vinci”, de Dan Brown. No cinema, os 11 primeiros números têm também significados próprios, o que é facilmente identificável em vários dos filmes mais celebrados e reconhecidos. O 10, por exemplo, é tido como o número da perfeição, enquanto o 3 representa muitas vezes um triângulo (seja amoroso, seja a outros níveis da existência humana) ou a confirmação de provérbios ou ditados populares (“À terceira é de vez” ou “Não há duas sem três”).

Os casos mais flagrantes serão aqueles em que o próprio título do filme já é um número, como “Seven” ou “Número 23”. O 7 simboliza a perfeição, a realização, a concretização: são sete as virtudes, sete as notas musicais, sete as cores do arco--íris, sete as maravilhas do mundo, sete os dias da semana. Mas também os pecados mortais, fundamento do filme de David Fincher protagonizado por Brad Pitt, Morgan Freeman e Kevin Spacey. O “Número 23”, por seu lado, narra a história de Fingerling (interpretado por Jim Carrey) e da sua obsessão com o enigma do 23, também conhecido como Lei dos Cincos, segundo a qual tudo na vida pode ser relacionado com o número 5 – e 2+3 é igual a cinco.

A primeira cena de “Matrix Reloaded” – a sequela do aclamado “Matrix”, lançado em 1999 – mostra Neo, o protagonista, a morrer em frente ao quarto 303, sendo o seu quarto o 101. Esta é uma referência explícita ao quarto 101 do livro “1984”, de George Orwell, onde um prisioneiro é obrigado a enfrentar a sua maior fobia, e é desde então utilizado na cultura pop para simbolizar um quarto onde algo é colocado para nunca mais ser encontrado – precisamente o que as máquinas queriam que acontecesse com Neo.

O clube dos 27 Esta “maldição” atinge diretamente a indústria musical e refere-se a artistas que faleceram aos 27 anos. O “clube dos 27” é constituído por Brian Jones (membro fundador dos Rolling Stones), Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse.

E da China, onde o número 10 significa dualidade, o 5 totalidade e o 6 riqueza, chega o exemplo mais claro de como uma superstição pode manifestar-se na vida quotidiana de uma sociedade: para os chineses, o número 4 pura e simplesmente não existe. E tudo porque o som do mesmo é muito parecido com o da palavra “morte”; por essa razão, tentam omiti-lo em tudo o que for possível – como matrículas de carros ou mesmo andares de prédios. É verdade: é muito raro encontrar, tanto na China como em Macau, um prédio que tenha quarto andar – passa diretamente do terceiro para o quinto. Quando há o quarto, as casas que o compõem são mais baratas do que as restantes. Estranho, mas real. É a força dos números.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×