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A infantilização das sociedades contemporâneas

29/01/2018 10:34

A discussão é cada vez mais atual e transversal em vários setores das sociedades contemporâneas: estará a sociedade, conscientemente, a promover a infantilização das gerações mais novas?

Têm surgido vários estudos a questionar as fronteiras da idade da adolescência, que hoje, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), se situa entre os dez e os 19 anos, devido às alterações que se vão observando nas novas gerações, particularmente neste período de crescimento.

A adolescência é a fase de crescimento que se situa entre a infância e a idade adulta, a fase do “armário”, da “estupidez”, caracterizada por um acentuado e diverso desenvolvimento biológico, psicológico e emocional. É neste período que os pré-adultos procuram avidamente a sua identidade, muitos até recriando uma nova, a sua, rompendo com todos os pressupostos até aí adquiridos através das relações interpessoais mais próximas, como as familiares ou as da escola. É indiscutivelmente uma fase fértil no processo de crescimento, onde, para agrura de muitos pais, estes rapazes e raparigas vão redescobrindo o mundo que os rodeia de uma forma mais experimental, levando-os a pôr em causa muito do que lhes foi ensinado ou transmitido até então. A ânsia de atingir a maioridade torna-se quase compulsiva, sinónimo de libertação dos progenitores e dos que estabelecem as regras que têm de seguir, ainda que acabem por compreender que pouco ou nada muda, a não ser perante a lei e a responsabilidade que lhes é exigida.

Chegados à maioridade, que difere de país para país – sendo os 18 anos transversais à maioria dos países que estabeleceram este patamar para a passagem à idade adulta, embora noutros países como, por exemplo, a Arábia Saudita ou o Irão, o patamar seja 15 anos, ou em Timor-Leste e na Coreia do Norte seja 17 anos, enquanto no Japão ou na Tailândia é aos 20, havendo ainda países que só consideram a maioridade aos 21 anos, como é o caso do Egito, Singapura ou Costa do Marfim –, reconhece-se a estes indivíduos a aquisição do controlo sobre as suas decisões e subsequentes ações. Em Portugal, entende-se que, aos 18 anos, os nossos jovens já adquiriram a maturidade intelectual e física suficiente para, por sua vontade, passarem a desempenhar certas funções na vida civil, tais como votar, conduzir ou serem elegíveis para alguns cargos públicos.

Para os que diariamente convivem, interagem, lidam ou cuidam de adolescentes são evidentes as alterações sociocomportamentais destas gerações mais recentes, nomeadamente dos millennials, quando comparadas com as anteriores. Em 1960, as mulheres casavam--se, em média, aos 24,8 anos e tinham o seu primeiro filho aos 25; os homens “davam o nó” aos 26,9 anos; atualmente, elas casam-se aos 31,3, são mães aos 30,3 anos, e eles só conhecem as virtudes do matrimónio quase aos 33 anos. Estes números comprovam que estamos perante um atraso temporal no desempenho de certos papéis, não só nos exemplos que enunciei, mas também no que se refere à idade de conclusão dos estudos, de sair de casa dos pais, do primeiro emprego, etc.

Inversamente, registamos uma puberdade antecipada, ou seja, cada vez mais cedo as nossas crianças evidenciam os sintomas físicos e emocionais da pré- -adolescência, resultantes dos regimes alimentares e dos progressos na saúde.

Daí vários estudos encontrarem nestas fundamentações suporte para reequacionarem a idade da adolescência e redefinirem novos limites, entre os dez e os 24 anos. Imaginam o que é prolongar a adolescência por mais cinco anos? Nem me atrevo a pensar, quando tudo o que desejo é acordar no dia seguinte sem sintomas de adolescentes em casa!

Se assim for, o período de transição da infância para a idade adulta ocupará um período mais longo no curso da vida que aquele que reconhecemos atualmente. Outras questões acompanham este debate, com especial enfoque para o quadro jurídico onde se deve acomodar esta alteração. Não basta reconhecermos e aceitarmos estas evidências fundamentadas. Acima de tudo, importa compreender esta mudança e o que está na sua origem, mas, fundamentalmente, antevermos as suas implicações no futuro da sociedade e na sua evolução. Depois da reflexão feita, há que definir uma matriz de atuação com uma orientação genérica que incida no enquadramento jurídico, nas políticas sociais e, concretamente, no sistema dos serviços de saúde.

Estaremos nós preparados para estendermos a idade da adolescência? E os nossos jovens? Que consequências advirão deste adiamento da chegada à idade adulta? A meu ver, ao atrasarmos a idade adulta sem compensação suficiente na idade da reforma estamos a encurtar a nossa idade ativa, com consequências sistémicas prejudiciais para todos nós, inclusivamente para a sustentabilidade da segurança social. Mais preocupante é como nos posicionamos perante estes jovens e o que lhes transmitimos ao aceitarmos estas evidências e, posteriormente, ao adequarmos as nossas expetativas a esta geração.

A infantilização das sociedades contemporâneas não é, pois, desejável, em particular no que diz respeito à sua coesão social, indispensável para a concretização de um dos seus principais objetivos, que é o aproveitamento da qualificação de uma massa humana que, em geral, se situa entre os 18 e os 35 anos.

 

Escreve à segunda-feira

 

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