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Autoeuropa ganha guerra dos horários

Autoeuropa ganha guerra dos horários

Sónia Peres Pinto 13/01/2018 14:40

Administração não abriu mão dos novos horários e vai mesmo impor os 17 turnos que estavam previstos desde dezembro. Próximas reuniões são para definir sistema de rotação.

A administração da Autoeuropa continua intransigente. Os novos horários de trabalho são mesmo para avançar já a partir de 29 de janeiro e preveem a laboração de 17 turnos semanais, estando já incluídos os sábados, e só aceita negociar com a Comissão de Trabalhadores (CT) os horários a partir de agosto, altura em que vai avançar a laboração contínua.
Essa garantia foi deixada clara esta sexta-feira por Fernando Gonçalves, coordenador da CT, após duas reuniões com a administração da fábrica de Palmela e que vai ao encontro do que já tinha sido noticiado nas últimas semanas pelo SOL.

De acordo com o responsável, os encontros ainda vão continuar a ocorrer, mas já não são para abordar os horários. Os operários serão unicamente sondados sobre se preferem mudar de turno todas as semanas ou se preferem fazer esta rotação a cada três semanas.

Isto significa que a partir do final deste mês os trabalhadores passam a ter de cumprir uma semana de cinco dias, com apenas uma folga fixa ao domingo e uma outra rotativa a meio da semana.

Nas próximas quarta e sexta-feiras os representantes dos trabalhadores voltam a sentar-se com a administração da fábrica e na mesa das negociações estará o caderno reivindicativo onde a CT exige o aumento salarial de 6,5%, num mínimo de 50 euros, e com efeitos retroativos a setembro de 2017. Depois destas duas reuniões haverá ainda um plenário que antecederá à greve e que está marcado para a semana de 22 a 26 de janeiro – a última antes das novas tabelas horárias.

Sindicato quer mais 250 euros 

Ainda assim, o SITE SUL, sindicato afeto à CGTP, não baixa os braços e continua a pedir não só que os sábados sejam voluntários como pede que este seja pago como trabalho extraordinário e mais 250 euros por mês para os trabalhadores da Autoeuropa que aderirem ao novo horário de transição de forma a «compensar a desorganização da vida familiar e pessoal».

Uma proposta bem diferente à que tem sido defendida pela fábrica de Palmela e que prevê o pagamento a 100% aos sábados, equivalente ao pagamento como trabalho extraordinário, acrescidos de mais 25%, caso sejam cumpridos os objetivos de produção trimestrais. Feitas as contas, dá cerca de dois sábados a cada trabalhador.

Ao todo foram apresentas à administração, durante esta semana, oito propostas com vista resolver o conflito laboral sobre os novos horários na fábrica de automóveis de Palmela. «A administração tem agora a derradeira oportunidade de se aproximar de uma solução que permita a resolução do conflito», salientou o sindicato afeto à CGTP.

Além disso reclama o pagamento do acréscimo de despesas com a guarda dos filhos dos trabalhadores que aderirem a este regime com creches e amas mediante apresentação do respetivo comprovativo. Assim como um aumento salarial mínimo de 50 euros, com efeitos retroativos a setembro de 2017, para todos os trabalhadores e um aumento para 770 euros do salário A0 – operários dos escalões mais baixos de produção – também aplicável aos trabalhadores recém-admitidos.

O sindicato defende também um aumento, para 15 minutos, de todas as pausas no trabalho (atualmente estas pausas são de sete minutos), com vista a «prevenir o surgimento de doenças profissionais e contribuir para a melhoria da produtividade».

O documento apresentado pelo sindicato à administração da Autoeuropa defende ainda que o «investimentos na fábrica deve continuar, nomeadamente numa nova linha de montagem, por forma a permitir uma melhor organização do tempo de trabalho de segunda a sexta-feira».

Greves suspensas para já

Apesar de estar para já afastado o cenário de nova greve na Autoeuropa com o sindicato a alegar que «há ainda muita margem para negociar», esta paralisação continua a pairar na fábrica de Palmela. Ainda este mês vão ocorrer novos plenários com os trabalhadores e ao que o SOL apurou vão ocorrer com alguma tensão, já que a contestação interna dentro da Autoeuropa está a ganhar maiores contornos e a guerra já não se limita a implementação dos novos horários de trabalho.

Tal como o SOL já tinha avançado, há um grupo de trabalhadores - autodenominado ‘Juntos pelos trabalhadores da Autoeuropa’ - que em dezembro apresentou um abaixo-assinado com várias propostas alternativas às que foram apresentadas pela CT por não se sentir representado pela estrutura liderada por Fernando Gonçalves, que já veio mostrar surpresa por tanto a CT como os sindicatos estarem a ignorar o anúncio de greve a 2 e 3 de fevereiro, altura em que já terão entrado em vigor os novos horários de trabalho. No entanto, para que a paralisação se concretize é necessário que seja convocada pelos sindicatos, como o Site-Sul, que foi o rosto da última greve.

Ainda esta semana este grupo enviou um comunicado a apontar para os sacrifícios que os trabalhadores da Autoeuropa têm feito, trabalhando «muitos sábados e domingos para assegurar a manutenção de equipamentos e a produção», e considera que graças a esses sacrifícios foram atingidos níveis de qualidade «ímpares no grupo Volkswagen».

Este grupo desmente, por outro lado, a imagem muito difundida dos trabalhadores da Autoeuropa como uma aristocracia operária altamente privilegiada, lembrando que é comum esses trabalhadores terem de realizar «trabalho noturno durante longas temporadas, passando por trabalho aos fins de semana e até mais de 8h por dia» e que «atualmente mais de um terço dos trabalhadores da Autoeuropa ganham 660 euros de salário base para trabalhar em três turnos».

Recorde-se que, em dezembro passado, a administração anunciou a intenção de avançar unilateralmente com o novo horário transitório após a rejeição de dois pré-acordos negociados previamente com duas Comissões de Trabalhadores. A meta mantém-se: produzir mais de 240 mil veículos T-Roc em 2018, quase triplicando a produção de 2016, o que levou a empresa a contratar cerca de dois mil novos trabalhadores e a implementar um sexto dia de produção, aos sábados, até julho deste ano.

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