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Marta F. Reis 12/01/2018
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Queridos investidores, era só um pequeno T3...

Sobre como a experiência de procurar uma casa para eventualmente comprar pode ser exasperante

Primeiro é mais por graça: salta-se de site de imobiliária em site de imobiliária à procura de oportunidades atrativas. Depois começa-se a pôr a hipótese a sério e a procurar algo minimamente realista tendo em conta o espaço necessário e a margem financeira, que não é enorme. Nisto perde-se serão atrás de serão nos tais sites, de anúncio em anúncio, a preencher um sem número de vezes o email nas páginas dos imóveis sobre os quais podia valer a pena saber mais qualquer coisinha. Passados uns dias nisto e já sem grandes esperanças de encontrar um apartamento minimamente renovado nos arredores de Lisboa ou por renovar mas que não custe à cabeça uma fortuna, ou que não seja uma pechincha mas cheia de infiltrações e vários lanços de escadas sem elevador, eis o mundo novo do imobiliário que descobri nas últimas semanas:

– Os anúncios continuam online mas as casas “já foram vendidas”. Namoramo-las um par de noites e finalmente entramos em contacto... só que afinal o negócio que parecia perfeito já é de outra pessoa. E tirar o anúncio?

– Moradia para total recuperação, numa zona simpática da linha de Sintra, um preço que nos deixa com margem para fazer as tais renovações de fundo (é que depois há aquele programa dos irmãos gémeos que remodelam casas algures no Canadá e que fazem tudo parecer tão fácil que estamos inocentemente disponíveis para alinhar em algo do género). Pormenor: a parte de baixo está arrendada a um arrendatário “com mais de 65 anos”. É suposto acontecer o quê? Vir viver para casa dos nossos pais durante as obras?

– Casa remodelada, ótimo aspeto, preço simpático. Na hora de saber mais: as obras limitaram o acesso a uma zona comum do prédio e foram feitas sem o aval dos condóminos, mas agora isso pode ficar em ata...

– Apartamento espetacular, espaçoso, acabamentos, preço já um bocado a fugir do orçamento imaginário mas, que fazer? À hora marcada, abre-se a porta e voilá: nada, apenas uma casa esburacada que nos asseguram que dentro de um mês estará incrível, mas a disposição não coincide com a fotografia. Desta vez a culpa foi nossa: é certo que no anúncio dizia que eram fotos do tipo de acabamentos a usar no imóvel, mas ainda eram umas quantas fotos e teoricamente da mesma zona. Parecia mesmo real, possivelmente foi do sono.

– A casa que queremos vender nunca parecer ter tanto valor de mercado como as outras todas. Pode ter elevador, algumas obras, mas chega lá aos calcanhares de um apartamento com uma remodelação um pouco mais extensa num bairro mais refundido e que é dois em um: ginásio diário nas escadas e doce lar?

– Quando se começa a brincar com os campos de pesquisa está tudo perdido e é sinal de estamos quase a desistir ou a aproximarmo-nos do limiar de loucura. Não sei como é no resto do país, mas aqui nos arredores de Lisboa, porque não Ericeira, Mafra, Venda do Pinheiro? “Há uma casa à venda no Bombarral”, avisou a certa altura uma amiga. De repente damos connosco perdidos de amor por uma casinha a uma hora do trabalho (se não houver trânsito) e com um acesso tipo caminho de cabras, mas com uma vista linda, chaminé, parede de xisto, e tudo para ser perfeito houvesse vida e cabeça para duas horas diárias no carro. É que é verdadeiramente uma loucura. Os mesmos 150 mil euros compram um T0 no Campo Pequeno em Lisboa (37m2 construídos), um T3 na Amadora (88 m2 construídos num segundo andar sem elevador) e a tal casinha amorosa em Igreja Nova, T2 com 160m2 construídos mas com um anexo para remodelar e o preço (99.000) deixa margem suficiente para isso.

– Por fim há o momento da insanidade que é quando começamos a abrir as casas de um milhão de euros para cima, só porque sim. Num desses agregadores de imobiliárias estão listadas quase 1500 dessas casas para milionários no distrito de Lisboa. Assim por um milhão certinho há um T3 de 190m2 construídos num terceiro andar sem elevador na Baixa de Lisboa. Dizem que são sobretudo estrangeiros ou investidores que as compram, esses seres abstratos que em vez de terem o dinheiro a render nos bancos compram casas para arrendar, para diversificar o seu património, para deixar em herança, enfim, porque podem. Era assim um T3 que eu queria, de preferência com elevador.

Jornalista, Escreve à sexta-feira

 

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